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No dia em que fui “às sortes” TI
10
novembro

No dia em que fui “às sortes”

Escrito por  Victor Rui Dores
Publicado em Victor Rui Dores

Naquele tempo era obrigatório “fazer a tropa”. E eu tinha precisamente acabado de fazer 20 anos de idade na manhã do dia em que fui às “sortes” (inspeção militar).Foi nesse dia que, pela primeira vez, me chamaram de mancebo. De maneira que eu, e mais quinze mancebos, demos entrada no Quartel, onde fomos simpaticamente recebidos por um não menos simpático sargento que, em alto brado, nos cumprimentou:

-BEM-VINDOS, SEUS CABRÕES!
Olhámos, varados e atónitos, o sargento galifão…
Prestes a ser sujeitos a uma inspecção médica, eram confusos os nossos sentimentos. Ficar “apto” ou “inapto” para o serviço militar, era a questão. “Apto” significava que íamos “servir a Pátria” e sobre nós pairava o espectro da Guerra Colonial… Mas ser-se considerado “inapto” era uma marca de menoridade física, um estigma que nos iria perseguir pela vida fora… E, naquele tempo, estávamos no esplendor da nossa juventude, e toda a gente dizia que a tropa ia fazer de nós uns homenzinhos…
No Quartel fomos chamados, um a um, pelo sargento que nos mandava entrar para uma sala transformada em consultório médico. Ali chegados, um outro sargento mandou-nos despir em altos berros:
-ENTÃO, ESTAMOS A DORMIR NA FORMA, OU QUÊ? DISPAM-SE, RÁPIDO, SUAS AVANTESMAS MENSTRUADAS!
Despimo-nos, intimidados e constrangidos. Quinze mancebos em cuecas não é propriamente coisa boa de se ver, e, durante algum tempo, ali permanecemos nervosamente encolhidos. Perante a nossa atrapalhação, o sargento, babando-se de gozo, gritou encrespado:
-MANCEBOS EM PELOTA!
Esta forçada nudez deixou-nos naturalmente cabisbaixos e pouco confortáveis. Cada um vivia a incomodidade do momento. A tendência era pôr as mãos em concha, baixar os braços e tapar os genitais, à medida que íamos sendo medidos e depois pesados, numa velha balança, por um cabo-enfermeiro. Depois surgiu, na sua bata imaculadamente branca, o capitão-médico, de cigarro na boca e estetoscópio em punho, que nos mandou abrir a boca para ver dentes e língua; de seguida pôs-se a observar os nossos olhos e ouvidos, os pés e as mãos, à medida que ia ditando o resultado das suas observações a um furriel.
Durante a inspecção sucederam-seas graçolas irónicas e as piadolas soezes do sargento galifão relativamente ao físico deste ou daquele. Os que dispunham de corpos bonitos estavam tão enrascados como os enfezaditos. (Eu era um dos enfezaditos). Para uns e para outros, o desconforto era o mesmo. Entendíamos aquela nudez compulsiva como um vexame, um absurdo, uma humilhação.
Pouco depois, e para grande alívio nosso, mandaram-nos vestir. E quando julgávamos que a inspeção terminara, voltou o sargento a berrar contra nós:
- Ó SUAS PUTAS PRANHAS, ISSO AINDA NÃO ACABOU. SENTEM-SE NO CHÃO E OIÇAM O QUE TEM PARA VOS DIZER O NOSSO ALFERES.
Seguiu-se uma longa e sonolenta palestra proferida por aquele oficial que era estrábico e gago: que quando fossemos chamados a cumprir serviço militar, a nossa vida ia mudar: a Instrução e a Ordem Unida far-nos-ia muito bem. Aprenderíamos a montar e a desmontar uma G-3; os nossos corpos ficariam fortalecidos com a saudável ginástica militar: saltos, lutas, jogos, corridas, marchas, rastejar na lama, nas pedras e no mato, enfim, haveríamos de ser homens a todo o terreno...E haveríamos de confraternizar com mancebos de todo o país e rir com os sotaques uns dos outros, criando amizades para sempre e, com um pouco de sorte, até poderíamos viajar até às nossas queridas e gloriosas Províncias Ultramarinas…
Saí da inspecção carregando comigo um azar: fiquei apurado. Mas também a sorte não me abandonou: o 25 de Abril vinha a caminho.

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