A Inteligência Artificial é só uma “montanha-russa” sem travões. E nós estamos cá para a segurar

0
10
DR
Não é preciso travões. É só termos capacidade de gerir a velocidade desta “montanha-russa”. Se para o presidente da Microsoft o importante é sabermos preparar-nos para o ritmo acelerado das inevitáveis mudanças trazidas pela Inteligência Artificial, para a cientista-chefe da Google na área da inteligência de decisões a palavra-chave é “humanos” – são sempre humanos a tomar decisões, diz ela. Em carne e osso, os responsáveis levaram a Inteligência Artificial aos palcos da Web Summit, em Lisboa, esta terça-feira.

“Mais uma volta, mas uma viagem. Menina não paga, mas também não anda”. A frase ecoa, num som metálico, por toda a boa feira de diversões que tenha carrosséis. Na Web Summit, apesar de a feira ser de trabalho – com muita diversão pelo meio para alguns -, não é muito diferente. Também há gente e filas por todo o lado, vozes ao altifalante à esquerda e à direita, cheiro de fritos junto às barraquinhas da comida, e correria e cotoveladas para encontrar um lugar nos “carrosséis” em que todos querem “andar”.

Esta terça-feira, para quem andava atrás do tema da Inteligência Artificial (IA), a atração foram as conferências de dois dos grandes das tecnologias: a Microsoft, com o presidente Brad Smith, e a Google, com a chief decision cientist, Cassie Kozyrkov.

Em ambas as sessões, as cadeiras (quase mil, em cada uma das conferências) foram ocupadas em menos de nada. E ainda ficaram em pé cem a duzentas pessoas.

A metáfora da montanha-russa não é da minha autoria. Foi o presidente da Microsoft que a usou, para se referir aos inevitáveis avanços tecnológicos, durante a sessão onde foi falar sobre “A era da Inteligência Artificial: Promessas e desafios” – uma conversa moderada, de forma muito assertiva, diga-se, em abono da verdade, pelo jornalista Philip Crowther, da agência noticiosa Associated Press.

Longe estava Brad Smith de saber que a imagem iria ser tão boa para descrever aquilo que ele (à tarde) e a chief decision scientist da Google (de manhã) quiseram transmitir a quem os ouviu.

Estamos prestes a entrar na montanha-russa: segure-se bem e sorria para a fotografia – pelo menos, os dois oradores acreditam que a IA está cá para nos fazer felizes e tornar a nossa vida mais fácil.

Das pedras à Inteligência Artificial: aquela subida lenta que termina numa aceleração de dar friozinho na barriga

Esta é uma viagem que começou quando “alguém pegou pela primeira vez numa pedra e bateu com ela numa outra pedra, para tornar as nossas vidas mais fáceis”, foi assim que arrancou a apresentação de Cassie Kozyrkov sobre “Inteligência Artificial e inteligência de decisões”.

A ideia era provar que “a Humanidade é uma espécie criadora de ferramentas” e que os instrumentos que vamos inventando servem para desempenharmos cada vez melhor as nossas tarefas. “Um martelo é melhor para pôr um prego na parede do que as mãos”, continuou a exemplificar a responsável da Google. “Tentamos sempre fazer melhor. E a IA é mais uma ferramenta”, reforçou.

Se Cassie Kozyrkov começou pela Idade da Pedra, Brad Smith foi direto ao século XXI.

Quem o desafiou a isso foi o moderador, quando lançou a primeira pergunta de uma condensadíssima entrevista de vinte minutos: “Quais são os grandes desenvolvimentos tecnológicos – relacionados ou não com a IA – que vão impactar as nossas vidas nos próximos cinco anos?”. “Não necessariamente vindos da Microsoft”, acrescentou.

O presidente da empresa foi rápido a enumerar as quatro áreas que para ele são incontornáveis: o poder da computação quântica (capacidade de cálculo e de processamento de informação exponencialmente mais elevada do que a dos computadores tradicionais); o aumento dos centros de armazenamento de dados (data centers) pelo mundo; a implementação “na realidade” do 5G; e o papel, não da Inteligência Artificial, mas da Inteligência Geral Artificial (tecnologia ainda em desenvolvimento que se refere à capacidade de as máquinas se adaptarem, da mesma forma que os humanos, às tarefas e aos ambientes, transferindo conhecimento de uns para outros).

A escalada para o topo da montanha-russa estava feita. É chegado aquele momento em que percebemos que o carrinho contorna a lomba até começar a descer em alta velocidade.

“O ritmo acelerado com que a IA está a evoluir preocupa-o?”, perguntou Philip Crowther a Brad Smith. O moderador reforçou a questão logo a seguir, dando sinal de que não iria baixar a guarda na entrevista: “Se o ritmo está a muito rápido, não lhe cabe a si, presidente da Microsoft, contribuir para abrandar o ritmo? Pôr o pé no travão?”.

“Bom, a tecnologia é uma daquelas coisas que os seres humanos nunca conseguiram abrandar”, respondeu. “Por isso, a verdadeira questão é: como é que conseguimos acompanhar o ritmo? Como é que os governos podem avançar mais rápido? Os governos precisam de avançar mais rápido”, continuou o presidente da Microsoft – a questão de os governos precisarem de acelerar o ritmo a que se adaptam às tecnologias foi, de resto, um ponto trazido várias vezes por Brad Smith.

Já em andamento, há sempre moedas que caem pelo caminho

O tema da eliminação de postos de trabalhos esteve presente, como é habitual quando se fala de automação – a propósito disso, Cassie Kozyrkov tinha feito questão de lembrar, da parte da manhã, que automatizamos “as tarefas” das pessoas, não as pessoas.

“Sente que a Microsoft devia de alguma forma ser responsabilizada pela perda de postos de trabalho em massa no futuro?”, a pergunta, sem rodeios, foi dirigida a Brad Smith. E este foi o momento em que o responsável respondeu com a metáfora de que nos temos servido: “A verdadeira questão é como é que nos preparamos para aquilo que poderá ser uma pequena montanha-russa?”.

O orador recordou que, quando surgiram os automóveis, o número de postos de trabalho criados acabou por ser oito vezes maior do que o de lugares eliminados, apesar de nos primeiros anos o “mundo ter sofrido mais do que beneficiou”.

No caso da expansão da IA, Brad Smith acredita que as primeiras tarefas a desaparecer serão aquelas que dependem do reconhecimento de voz ou de visão e em que é possível recorrer a machine learning (uso de grandes quantidades de dados para, a partir de exemplos e padrões, as máquinas aprenderem a fazer previsões e a desempenharem tarefas). É o caso dos trabalhos em que as pessoas recebem pedidos em restaurantes de fast-food ou em que podem ser usados veículos autónomos, ilustrou Brad Smith. Se alguns postos serão eliminados, “noutros casos, as tarefas irão mudar”, acrescentou, reconhecendo que “é sempre difícil prever quais as novas profissões que serão criadas”. Ainda assim, adiantou: “haverá novos trabalhos para as pessoas que criam e implementam IA” ou que, de alguma forma, “conseguem trabalhar com os dados” que estão na base desta tecnologia.

“Como as questões éticas são tão importantes no desenvolvimento da IA”, continuou Brad Smith, “acredito que vai voltar a surgir a procura de profissionais na área das artes liberais”, uma vez que “vamos precisar de seres humanos que nos ajudem a pensar” sobre as descobertas feitas pelo caminho.

“Humanos”. Este foi o grande foco de Cassie Kozyrkov em boa parte da sua apresentação. “Estas coisas [tecnologias que usam IA] são criadas por humanos, feitas por humanos, construídas por humanos. Há humanos no processo todo”. “Há sempre um humano a fazer as escolhas. Há sempre um humano a coordenar as operações”, insistiu.

A incessante repetição do termo tinha um propósito: lembrar que “quanto mais a tecnologia cresce, mais responsáveis devemos ser”, porque a tecnologia será “um eco daquilo que nós desejarmos”. “Passámos tanto tempo entusiasmados com o facto de as máquinas terem a capacidade de aprender que acabámos por negligenciar as conversas acerca de nós, enquanto professores”, afirmou já perto do final da sua intervenção.

Nas curvas e contracurvas, valham-nos as “redes de segurança”

Havia uma pergunta que tinha ficado pendente: o que podemos fazer para nos preparamos para eventuais riscos da utilização em grande escala da IA?

Cassie falou essencialmente da inclusão de uma grande “diversidade de perspetivas” – fontes de informação, pessoas de várias áreas de conhecimento, etc. – e da criação de “redes de segurança” para os inevitáveis erros que vão surgir. “Eu não confio na IA. Eu não confio nos humanos. Eu testo tudo”, afirmou perentória.

Já Brad Smith identificou estratégias para garantir que quer as pessoas quer as máquinas têm comportamentos responsáveis, como é o caso do conjunto de princípios que a empresa formulou para a utilização das tecnologias de reconhecimento facial – uma das questões éticas de maior importância nos nossos tempos, segundo o presidente da Microsoft. “Este tópico está a forçar-nos a ter de lidar com questões de enviesamento e de privacidade”. Também os governos precisam de ter capacidade para utilizarem este tipo de tecnologia, acredita. E aqui voltou à carga: “Precisamos de novas leis, de políticas governamentais. Os governos precisam de ser mais rápidos” a adaptar-se. “Não podem senão ser mais rápidos”.

No fim, aquele travão a fundo e o decidirmos se queremos mais

O desenvolvimento da IA não acontece ao mesmo ritmo pelo mundo. Não tendo abordado o tema aprofundadamente, o presidente da Microsoft ainda aflorou as desigualdades geradas pela tecnologia. Por um lado, o acesso às competências digitais, às ciências de computadores e a sua relação com os empregos a que as pessoas têm capacidade para concorrer. Por outro, a distribuição desigual da tecnologia pelas diferentes partes do mundo. “A banda larga é a eletricidade do século XXI”, defende o presidente da Microsoft. “Se não a conseguimos levar a mais lugares, então estamos a exacerbar as desigualdades”.

Mas foi num outro palco que o tema dos diferentes níveis de desenvolvimento dos países no que toca à digitalização foi trazido de forma contundente. “À beira da catástrofe: um século XXI digital sem a Europa” era o nome da comunicação – quase em jeito de “raspanete” ao “Velho Continente” – de François Candelon, diretor no Boston Consulting Group.

Segundo um estudo de avaliação à maturidade digital das diferentes regiões do mundo e as implicações estratégicas dos resultados, os Estados Unidos e a China encontram-se destacadíssimos em termos de investimento nesta área, com uma capacidade para competir no ambiente digital que a Europa não está a conseguir acompanhar – e com a China a ganhar a corrida nas pequenas e médias empresas.

Para François Candelon, a manter-se esta tendência, os EUA e a China vão-se especializar cada vez mais e a Europa acabará por ser tornar um “parque temático” para os norte-americanos e os chineses virem passar férias, disse o orador – sem saber da nossa metáfora.

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO