Açores com “quantidades significativas” da presença de caravelas-portuguesas

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As costas das ilhas dos Açores estão a registar “quantidades significativas” da espécie ‘Physalia physalis’, conhecida vulgarmente como caravela-portuguesa, a par de águas vivas (alforrecas), num fenómeno considerado pelos especialistas como “natural”.

Em declarações à agência Lusa, a coordenadora do programa GelaVista, Antonina dos Santos, refere que estas espécies, consideradas oceânicas e que se reproduzem em mar aberto, estão dar à costa nas ilhas dos Açores “contra a sua vontade” e “devido a correntes fortes”.

O programa GelaVista procura “reconhecer o valor dos organismos gelatinosos”, que são considerados “fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas devido à capacidade de reprodução e crescimento rápido, originando um aumento da sua abundância e biomassa”.

Aconselhando a ter-se cuidado com estas espécies, evitando os seus tentáculos, que provocam queimaduras e, no caso da caravela-portuguesa, podem causar a morte, a especialista afirma que, “já em 2019, também nesta altura do ano, se registou um pico de águas vivas e caravelas-portuguesas, um pouco mais cedo do que no continente”.

As espécies em causa, segundo Antonina dos Santos, deslocam-se em colónias, onde cada indivíduo tem uma função especifica, como a reprodução, alimentação ou navegação.

A especialista recorda que, em 2019, estes organismos gelatinosos, ocorreram desde o final de abril até ao mês de junho, com maior abundância nas ilhas Terceira, Flores e Faial, mas indivíduos em menor número foram também detetados nas ilhas Corvo, São Jorge, São Miguel e Pico.

O programa GelaVista “não tem ainda as ferramentas necessárias para prever o final deste florescimento da espécie”, de acordo com Antonina dos Santos, não sendo “possível identificar os fatores que poderão estar por detrás” da abundância destas espécies, uma vez que “existe ainda muito desconhecimento não só sobre a ‘Physalia physalis’, mas também sobre outros organismos gelatinosos, a nível mundial”.

Uma vez que parte da ausência de conhecimento sobre estas espécies, nomeadamente de estudos científico, se deve “à falta de informação”, o programa GelaVista pretende “colmatar esta lacuna através da participação da população, que pode contribuir com dados sobre o aparecimento destes organismos em Portugal”.

O GelaVista visa ainda “dar a conhecer as diferentes espécies, bem como os cuidados a ter aquando o contacto com as mesmas”.

Nos Açores, o centro de investigação marinha da Universidade dos Açores, Okeanos, está também a desenvolver um projeto que visa estudar a presença de águas vivas no arquipélago, um “fenómeno recorrente”.

Segundo disse à Lusa o investigador João Gonçalves, coordenador do projeto, durante três anos (o projeto arrancou em 2019) vai ser estudado o fenómeno por forma a apurar-se os “parâmetros que regulam o aparecimento” daqueles organismos, “estimando-se que tenha a ver com a intensidade do vento e altura do ano, quando as águas são mais quentes”.

João Gonçalves pretende “estudar o comportamento das águas vivas ao longo do ano, vendo como evoluem e surgem nas praias”, conhecendo ainda o seu ciclo de reprodução.

Pretende-se ainda proceder à caracterização de novas espécies que “passam despercebidas” e que não são urticantes, mas “igualmente interessantes em termos ecológicos”.

O investigador refere que há quem defenda na comunidade cientifica que existe uma “maior ocorrência de águas vivas nas últimas décadas como consequência das alterações das cadeias tróficas dos oceanos”, alimentando-se estas de organismos gelatinosos, como algumas espécies de peixes e tartarugas marinhas.

O coordenador do estudo declara que as praias a sul, expostas ao vento, são as mais vulneráveis à presença daqueles organismos, que devem ser evitados nos banhos de mar, principalmente nesta altura em que se começam a procurar os areais.

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