Arquipélago, de Joel Neto Realidade e Ficção

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(…) “quando José Artur viu chegado o momento de olhar para trás e perceber o que o prendera àquela ilha, à terra de onde tinha saído e a que podia não ter voltado nunca, decidiu que poucas coisas haviam sido mais importantes do que aquele cheiro” (pág. 108).

“Nessa altura, José Artur sentiu uma profunda vergonha de si próprio. Aproximou-se do velho e abraçou-o – e, durante muito tempo ainda, ficaram ali os dois abraçados, Elias chorando em silêncio, lágrimas que eram pela mulher, e pelo filho, e por todas as demais desgraças que se tinham abatido sobre a sua vida. E, ao senti-lo chorar dentro do seu abraço, José Artur chorou também as suas próprias desgraças, e as da sua família, e as do seu povo” (pág. 399).

Nunca como agora me pareceu tão verdadeira a (emblemática) frase do escritor Daniel de Sá: “Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”.

Sabemo-lo bem: não é impunemente que se nasce numa ilha, onde a terra é pouca, o mar é vasto e o sonho é enorme. Um dia Joel Neto saiu da Terceira, mas a Terceira não saiu dele. Durante vinte anos vividos em Lisboa, a ilha navegou sempre no seu íntimo, e ele carregou-a às costas transportando as memórias que a Terceira lhe deixou. E agora que a esta ilha regressou, Joel Neto busca nela a harmonia e a unidade original. Porque na ilha está o encanto da infância enquanto paraíso irremediavelmente perdido. No cosmos dos verdes anos multiplicam-se os símbolos do amor e da fidelidade, como as figuras da mãe, do pai e outros familiares, que surgem do fundo dos tempos como uma aparição de ternura no meio das ruínas da vida. 

Por conseguinte, a ilha deixou em Joel Neto uma memória indelével e retroactiva, estando nela (a Terceira, em geral, e a Terra Chã, em particular) o microcosmo de referência e o epicentro do seu imaginário, isto é, o seu roteiro sentimental e afectivo. Porque, bem vistas as coisas, a ilha que se abandona nunca é a mesma ilha a que se regressa.

Foram estes os pressupostos que tive em conta quando me lancei à leitura do romance Arquipélago (3ª edição, Marcador Editora, 2015), última obra deste autor. Um livro a todos os níveis surpreendente, que me forneceu horas de apetecível leitura e convívio e que deixou em mim esse “plaisir du texte” (Roland Barthes).

 Joel Neto é a afirmação inequívoca de uma verdadeira vocação de escritor. E, porque no início da sua carreira de escrita esteve ligado ao jornalismo desportivo, recorro a terminologia futebolística para dizer que, com Arquipélago, este autor entra a pés juntos na literatura portuguesa, após ter dado à estampa alguns livros inconsequentes, apesar de bem escritos: O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas (contos, 2002), Terceiro Servo (romance, 2002), Todos nascemos Benfiquistas (crónicas, 2007), Banda Sonora Para um Regresso a Casa (crónicas, 2011) e Os Sítios Sem Resposta (romance, 2012). 

A maturidade literária não é um dado – é um dom. Por isso apraz-me registar a fase experimentada, criativa e fecunda deste escritor que, com Arquipélago, conseguiu já a proeza de colocar a ilha Terceira no mapa literário de Portugal e da Europa.  

Não há literatura sem geografia. E este livro, que capta muito bem o “espírito do lugar” e celebra os Açores, é, antes de mais, testemunho de dedicação e de amor à ilha onde Joel Neto viu a luz. E testemunho ainda do modo como, tomando por base a realidade açoriana, em geral, e terceirense, em particular, o autor soube elevar a sua narrativa à categoria de obra de arte.

O ficcionista Joel Neto traz no seu íntimo o cronista / jornalista, ou seja, um escritor empenhado em documentar uma determinada realidade humana, geográfica, histórica, social e psicológica. Mas este cronista / jornalista, uma vez transformado em narrador ficcional, deixa de obedecer exclusivamente à preocupação da autenticidade para, não traindo as coordenadas do real, se constituir instância narrativa capaz de penetrar no ser das suas personagens, de lhes descrever os anseios e as frustrações, de lhes atribuir carácter e propósito, de as escalonar segundo virtudes e defeitos, grandezas e misérias. 

Escrito com desenvoltura narrativa (459 páginas), Arquipélago é um romance curiosa e cuidadosamente elaborado entre a fidelidade ao real (ilha Terceira, Lisboa) e a verosimilhança da invenção (por exemplo, a fantástica e onírica descrição de um “macabro ritual” (pág. 183) na Grota do Medo). Ou seja, este livro resulta de um processo de cruzamento entre a experiência real e a reelaboração desse mesmo real.

 Mergulhando fundo no imaginário açoriano, Arquipélago dá-nos conta da condição humana, isto é, remete-nos para o destino da vida humana no teatro do mundo. A ilha Terceira apenas lhe dá décor e habitat, se bem que a verdade factual do real lá esteja toda: as festas, as tradições, os usos, os costumes, a História, a Geografia e todo o imaginário terceirense. Acima de tudo, está lá o sismo de 1980. De resto, este é um livro muito gastronómico, pois aqui come-se do bom e bebe-se do melhor na taberna do Cabrinha e pela mão de La Salete… Mas Arquipélago é muito mais do que isso, pois que, essencialmente, nos dá uma visão (dialéctica) sobre a interpenetração do Homem e do Cosmos.   

De regresso à ilha após 35 anos de ausência, e confrontando-se com as suas próprias memórias e vivências, sentimentos e ressentimentos, José Artur Drumonde (que funciona como uma espécie de alter-ego de Joel Neto), académico, 44 anos de idade (pág. 157), é o protagonista da história em busca de caminhos de felicidade, catarse e redenção. Ele não sente os sismos da terra – sente os sismos da vida… Na ilha revisita lugares e redescobre pessoa (que lhe ficaram suspensos na memória), interessa-se pelo mito da Atlântida, vive vazios afectivos, faz-se transportar num velho Boca de Sapo (o Citroën que é “o carro feio mais bonito do mundo”), tem um cão (“Papillon” que funciona como uma autêntica personagem e que o salva de uma morta certa), sofre de epicondilite (dor de cotovelo), resgata a história de seu avô José Guilherme, investiga acontecimentos pretéritos e fica a saber de ódios acumulados e não resolvidos entre duas famílias rivais.

Segue-se uma vastíssima galeria de personagens que mantém entre si mútuas relações de afectividade e conflito, de surpresa e contemplação, de amor e ódio, de sonhos e angústias, perplexidades e dúvidas, medos e contradições. São personagens muito humanas, mas não menos frenéticas e tumultuosas, de grande riqueza humana (António Soares) e fundura psicológica (Luísa Bretão) que se encontram, desencontram e reencontram, o que faz deste um romance muito bem estruturado e polifónico e… com (boa) música de fundo.

 Com apetecível capa, Arquipélago traduz-se numa capacidade narrativa e descritiva. Com notável poder de observação e extraordinária pormenorização, o narrador baralha os dados, quer introduzindo novos elementos no desenvolvimento da narrativa (que se desdobra e alterna em dimensões complementares), quer retardando o desfecho das situações, obrigando, deste modo, o leitor à conhecida narrativa do suspense. Digamos que esta é a parte mais “policial” e mais “thriller” deste romance (com imensa potencialidades cinematográficas), em que os elementos naturais estão lá para adensar o mistério: chuva, trovoadas, relâmpagos e muito nevoeiro… E isto porque o pretexto (pré-texto) ou o leit motiv do livro parte da descoberta, numa velha casa, de ossadas de uma criança…

 Agradou-me sobremaneira este poder evocativo e esta capacidade de suspensão nesta escrita que desce fundo às penumbras empoeiradas do sótão da memória… Por outro lado, apreciei a nomeação e a carga significativa dessa nomeação, bem como a construção de diálogos, muito bem carpinteirados. E não fiquei alheio à exploração de alguns aspectos fónicos ligados à pronúncia terceirense (“Eh huóme!”), bem como a manipulação a nível lexical (“Seja pamordés”), a derivação vocabular e a ordenação rítmica aproveitando as potencialidades sintácticas (“Um home como é dado”). 

É de realçar os diversos planos narrativos – 1ª e 3ª pessoas, narrador omnisciente, narrador diegético e narrador herodiegético (uma 3ª pessoa omnisciente), sendo de assinalar a sábia dosagem dos diversos e diversificados discursos. Por exemplo, o (longo) relato do velho Elias Mão-de-Ferro (a partir da pág. 328) intercala primeira pessoa com voz narrativa para que aquele não se torne fastidioso para o leitor.

Este é um livro, com princípio, meio e fim, e que se lê com infinito prazer. Ainda bem que Joel Neto não cedeu às lusas modas literárias do indizível e do desconstrutivismo. Escrevendo com os olhos da memória e contra o esquecimento, ele engrandece e dá luzimento à literatura portuguesa. Agora sim, temos escritor.

 

 

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