Aurora Ribeiro, cabeça de lista do BE/Açores à Assembleia Legislativa pelo Faial “Em 2019 a execução do plano de investimentos para a ilha foi quase metade do que estava previsto. Isso reflete-se na vida das pessoas e nos investimentos”

0
31
DR
DR

TRIBUNA DAS ILHAS – Apresenta-se às próximas eleições legislativas regionais como cabeça de lista do seu Partido pelo círculo eleitoral da ilha do Faial. Quais são as principais razões que motivaram a sua candidatura?
AURORA RIBEIRO – A principal razão é a possibilidade de trazer para a discussão política assuntos pelos quais tenho trabalhado noutras formas de atuação e dar-lhes uma nova prioridade. Considero que o conhecimento e a cultura são pilares fundamentais para se estruturar uma sociedade e o BE/A tem sempre atuado com estes pressupostos. Atravessamos neste momento duas grandes crises, a crise da pandemia e a das alterações climáticas, ambas originadas por uma economia global que cresce à custa do planeta. Para além da saúde e ambiente, são crises que têm implicações económicas e sociais graves e não são coisas que se estão só a passar lá fora, pois os seus impactos afetam-nos diretamente na ilha do Faial.
Ficamos particularmente vulneráveis com o desinvestimento progressivo a que a ilha tem sido votada. A coesão e o crescimento harmonioso do arquipélago são desafios grandes e não vão acontecer sem propostas ousadas e estratégicas que tenham em conta a situação local e regional, mas também nacional e mundial. As bases da economia açoriana são a pesca e a agricultura, e a aposta no turismo veio de facto trazer alguma diversificação. No entanto qualquer um deles é um setor que paga salários baixos e que não cria quadros médios e superiores, o que contribui para o aumento da desigualdade. Tendo em conta a situação de crise atual e que ainda teremos de ultrapassar, considero que as soluções propostas pelo Bloco de Esquerda são a melhor forma de responder de forma urgente a todos estes desafios e, é por isso mesmo que aqui estou, para poder colaborar nessa resposta.

TI – Se for eleito(a) deputado(a) regional irá cumprir o seu mandato na Assembleia Legislativa Regional?
AR – É evidente, é para isso que me proponho.

Como é que se posicionará perante as principais matérias que vão estar em cima da mesa na próxima legislatura, como sejam, entre outras, o reforço da Autonomia, o novo Quadro Comunitário de Apoio e as relações entre o Estado e a Região?
AR – O reforço da autonomia tem de garantir também um reforço da democracia na região. O Bloco defende no seu programa a extinção do cargo de Representante da República, algo que é praticamente consensual nos Açores. Mas com essa extinção do cargo deve manter-se uma interdependência de três poderes, criando-se uma nova figura institucional eleita pelo parlamento a quem sejam atribuídos todos os poderes do Representante da República. Consideramos ainda que os Açores devem ter mais poder no que respeita à sua participação na negociação de acordos internacionais que digam respeito à Região.

No que respeita ao próximo Quadro Comunitário de Apoios, a coberto do Fundo de Recuperação e Resiliência, a UE prepara cortes nos fundos estruturais. A região e o país não o podem aceitar. O Fundo de Recuperação não substitui os fundos estruturais pois constitui um fundo excecional e transitório para responder a uma crise profunda causada pela pandemia. Cortes nos fundos estruturais, como aqueles direcionados para as RUP ou como o POSEI, são inaceitáveis.

Finalmente, quanto às relações entre Estado e Região, vamos exigir o cumprimento dos vários investimentos que têm ficado por realizar. Para além destes investimentos que são essenciais, é necessário que se concretize o que o Bloco há 16 anos defende que é a criação de um Centro Internacional de Investigação para as Ciências do Mar e Alterações Climáticas, um projeto que tem de ser uma iniciativa comum entre Governo Regional e da República. Essa é a grande medida estruturante para o Faial e para os Açores que vimos propor.

TI – Como analisa o investimento que o Governo Regional tem efetuado na ilha do Faial? Acha que a percentagem de investimento que o GRA tem inscrito nos orçamentos regionais deve ser mantida ou aumentada?
AR – É evidente que é necessário mais investimento. No entanto serve de pouco inscrever investimentos nos Planos quando depois esse plano não é cumprido. Em 2019 a execução do plano de investimentos para a ilha foi quase metade do que estava previsto. Isso reflete-se na vida das pessoas e nos investimentos que aguardam há anos.

TI – Qual é sua posição relativamente aos necessários investimentos estruturantes para a ilha, como sejam a ampliação da pista do aeroporto, a construção do novo Porto, da 2.ª Fase da EBI da Horta e do Estádio Mário Lino, as Termas do Varadouro, e a reabilitação das estradas regionais, nomeadamente a construção da 2.ª Fase da Variante?
AR – Em relação ao aeroporto, comprometemo-nos a exigir que este, além de ser melhorado de forma a cumprir com os standards obrigatórios do ICAO (sem os quais deixaremos de ter voos diretos já em 2024), seja dotado de todas as condições para que exista no triângulo pelo menos um aeroporto em que não deixem de aterrar aviões por questões de segurança. O regresso da TAP, que tantas vezes vemos ser defendido, é na verdade uma ilusão, dada a natureza e objetivos da empresa neste momento. Tanto esta obra como as segundas fases de obras já iniciadas devem ser assumidas como prioridades para o governo da região, pois que são equipamentos absolutamente estruturantes para a ilha. Consideramos que as Termas do Varadouro serão uma mais-valia para o setor turístico no Faial. Defendemos ainda a melhoria das estradas regionais, e não esquecemos a necessidade de repensar o sistema de transportes terrestres e marítimos e a sua articulação em termos de horários e rotas.
No que respeita ao novo porto da Horta, o que defendemos é que, além da avaliação técnica do novo projeto, se compreenda também o que não correu bem na construção do molhe norte, de modo a que não se acumulem erros sobre erros com resultados desastrosos para um porto que na sua forma natural sempre foi considerado um dos melhores do Atlântico.

TI – Em termos de atuação política, quais são as outras matérias que considera prioritárias e que pretende defender na Assembleia Legislativa nos próximos quatro anos em prol da ilha do Faial? O que defende em termos de transporte aéreo e de mercadorias?
AR – A saúde pública é absolutamente prioritária para o Bloco. Uma das principais medidas deste programa eleitoral visa a diminuição das listas de espera por via de um aumento do número de médicos na região. Isto é particularmente necessário no Hospital da Horta onde estes e outros números estão com tendência a piorar. Para tal temos uma proposta inovadora de criar um subsídio de insularidade no valor de 400 euros por mês para todos os médicos da região indo buscar esse valor ao que é pago em horas extraordinárias, que com a existência de mais médicos deixariam de ser tão necessárias.
Continuamos cada vez mais certos da importância de criar um Centro Público de Investigação do Mar e Alterações Climáticas na ilha do Faial, a partir da experiência e saber existentes, construindo uma comunidade científica sólida. Um projeto de nível internacional, multidisciplinar, capaz de gerar conhecimento segundo uma estratégia própria. Que a par dos avanços científicos e tecnológicos, traga benefícios culturais, demográficos e económicos, criando empregos diretos e indiretos.
Não é possível combater o envelhecimento e contração da população sem que se criem atrativos e condições para viver no Faial. A par das duas propostas anteriores, propomos a criação de uma bolsa de arrendamento pública e um Plano Regional de Habitação com reconversão de edifícios públicos para esse fim, promovendo a ocupação de fogos devolutos, dando primazia aos vazios urbanos e recusando a fragmentação urbana.
O Faial carece de profissionais culturais e criativos, que se possam dedicar de forma digna à arte e à programação cultural. O reforço e o investimento em estruturas culturais de referência é essencial pelo que defendemos a revitalização do Museu da Horta e do seu projeto museológico, bem como assegurar as necessárias obras de manutenção e a conclusão do jardim da Casa Manuel de Arriaga.
No que respeita à produção agrícola, queremos aumentar os apoios aos agricultores de produtos biológicos, promover a diversificação, outras fontes de rendimento e a troca de produtos entre as ilhas.
No transporte aéreo é necessário recuperar a SATA e dedicá-la àquilo que é essencial: as ligações inter-ilhas, para o continente e diáspora. Isso é fundamental para assegurar a conectividade da ilha com o exterior.
Para o transporte de mercadorias é crucial implementar as obrigações de serviço de transporte aéreo. Sem estas ficamos dependentes da capacidade de carga da SATA e de operadores privados cuja permanência na região é incerta. É necessário ainda realizar um estudo sério e aprofundado sobre transporte marítimo inter-ilhas de passageiros e mercadorias de modo a conseguir criar-se um verdadeiro mercado interno na Região.

TI – Sabendo-se das restrições colocadas pelas autoridades de saúde, no âmbito da pandemia COVID-19, de que forma pretende combater a elevada abstenção registada nos últimos atos eleitorais? Como realizará a sua campanha eleitoral?
AR – As medidas preventivas, são necessárias, mas enfraquecem a proximidade e os seus benefícios para o debate político. Nestas circunstâncias torna-se mais necessário o diálogo com os diferentes representantes dos principais setores da sociedade e fazer ecoar os resultados desse debate nas redes digitais e órgãos de comunicação e é isso mesmo que estamos a fazer. Esta entrevista, por exemplo, é uma forma de conseguir expor de forma clara a nossa posição e por isso mesmo queremos agradecer ao Tribuna das Ilhas a possibilidade de comunicar as nossas ideias um pouco mais aprofundadamente.

TI – Qual será a sua estratégia para manter e, eventualmente, reforçar o seu eleitorado?
AR – Aquilo que queremos é simples: propor soluções novas e específicas para problemas antigos e estruturais. Temos um projeto consistente e inovador. A nossa principal estratégia é manter o diálogo aberto com a sociedade faialense sobre os assuntos mais urgentes e que consideramos prioritários, trazendo a debate as nossas propostas. A atitude é serena, confiante e construtiva. Confio que não só o eleitorado habitual, mas que muitas outras pessoas se revejam nas ideias defendidas bem como nesta forma de atuação.

TI – O que pretende dizer aos faialenses para que decidam votar em si e no partido que representa?
AR – Os próximos quatro anos estão ainda envoltos em incerteza, mas necessitarão seguramente de uma grande capacidade política, que saiba lidar tanto com os efeitos da crise, como gerir e criar oportunidades na recuperação económica. Situações de crise como esta são muito propícias a clivar ainda mais as desigualdades já existentes, pelo que votar Bloco de Esquerda é dar voz a uma nova política que visa uma maior sustentabilidade social, mas também económica e ambiental.

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO