Comerciantes do Mercado Temporário temem derrapagem nas obras do Bolhão no Porto

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Os comerciantes do Mercado Bolhão, no Porto, temem que o prazo de conclusão das obras de requalificação no edifício centenário, cuja conclusão está prevista para maio de 2020, derrape, agravando a débil situação financeira de alguns lojistas.

Mudaram-se para o Mercado Temporário Bolhão nos primeiros dias de maio. Dias antes, despediam-se do lugar a que chamam casa. No horizonte, a promessa de regressarem dentro dois anos ao Mercado do Bolhão.

Dos 140 comerciantes, que trabalhavam no interior e exterior do edifico centenário, 82 mudaram-se para o rés-do-chão do centro comercial a 200 metros, onde há um ano e quatro meses tentam manter o vivo o “Bolhão”.

Não tem sido fácil. Se negócio já não ia bem no antigo mercado, no novo, há quem tenha que todos os dias fazer as contas à vida. Natalina Gonçalves tem uma banca de peixe desde 1995. Aos 71 anos, luta para voltar ao Bolhão, onde esteve 26 anos.

“Estou a trabalhar para o fornecedor. Há dias que tenho de tirar 40/60 euros para completar as despesas”, disse desolada.

Os clientes, a maioria desapareceu e o dinheiro não chega para encher a banca com a diversidade que os clientes querem.

Natalina tenta reinventar-se para sobreviver. Aprendeu a fazer filetes e até vende para casamentos, mas o tempo está contra si, acredita. Feitas as contas, e cumpridos os prazos para a reabilitação do Mercado do Bolhão, em maio do próximo ano estaria de volta a casa, mas para que tal aconteça, Natalina tem que “aguentar” os prejuízos até lá.

Aos 85 anos, Ernestina Barros, proprietária da Manteigueiria do Bolhão, é uma veterana destas andanças. Tal como Natalina, quer voltar ao mercado onde esteve 55 anos. Só por isso continua de pedra e cal, à espera do dia de regressar a casa.

“Lá em baixo até um parafuso estragado era uma fotografia”, disse, lamentando a perda de clientes, nacionais e estrangeiros, desde a ida para o mercado temporário.

Ernestina culpa a falta de transportes e a fraca sinalização pelas perdas, ainda que reconheça que, nesta casa temporária, haja melhores condições de segurança e higiene para os comerciantes.

A poucos passos dali fica a banca da Maria do Álvaro. Vende-se fruta, legumes e a boa disposição de quem afirma ter “os melhores tomates do Porto”.

Apesar de reconhecer que até para os turistas, não há mercado como o velhinho Bolhão, Maria tem conseguido manter os clientes, e os que perdeu foram substituídos por outros.

Teme, contudo, tal como Natalina e Ernestina, que o regresso esteja ainda longe, talvez a um ano, ano e meio de distância.

“Tinha o meu filho 18 dias de vida quando foram arranjar o telhado no Bolhão, desde aí, e já passaram 38 anos, nunca mais fizeram obras no mercado”, lembrou.

Maria Fernanda está noutro setor do mercado temporário. Herdou da mãe, agora com 91 anos, a banca que mantém ainda hoje aos 72 anos.

Diz que o negócio está “igual”. Lá também tinha quebras, uns meses melhor, outros piores, sublinhou.

Ao lado, a Charcutaria da Maria Olinda Remísio cujos produtos a fizeram famosa entre os turistas. Foi motivo de notícia em várias publicações francesas e há até um casal japonês que, dois anos depois, de regresso ao Porto, foi à procura de Olinda para apresentar o novo membro da família.

São histórias como estes que continuam a alimentar o percurso de Maria Olinda. Tinha 20 anos quando tomou conta da banca, mas desde os 5 que o Bolhão era a sua casa. Admite que no mercado temporário o negócio não é que era, mas, com o tempo, uns foram voltando e outros fizeram-se clientes.

A empreitada de requalificação do mercado, que está em curso desde maio, tem um prazo previsto de conclusão de dois anos, estando a pouco mais de seis meses do fim desse prazo.

O atual projeto de recuperação do Bolhão, classificado como Monumento de Interesse Público em 2013, é a quarta iniciativa da Câmara do Porto para requalificar o espaço centenário ao longo dos últimos 30 anos.

O edifício estava suportado por andaimes desde 2005, devido a um alegado risco de ruína.

O projeto, anunciado em abril de 2015, durante o primeiro mandato do independente Rui Moreira, prevê “reinterpretação” das bancas de venda que lá existiam, preservando a “memória visual” do Bolhão.

Para além disso, “o edifício será dotado de coberturas no piso inferior, acesso direto ao metro e cave técnica com acesso para cargas e descargas a partir da Rua Alexandre Braga”. Já o piso superior, com entrada pela rua Fernandes Tomás, vai manter a parte comercial e instalar restauração, transferindo todo o mercado de frescos para o piso inferior.

No dia 09 de setembro, questionado, em reunião do executivo, sobre a data prevista para a conclusão da obra de restauro do Mercado do Bolhão, o presidente da autarquia esclareceu que a previsão aponta para maio de 2020, contudo, como já salientou outra vezes: “sabemos quando as obras começam, mas nunca sabemos quando acabam”.

A Lusa voltou a questionar a autarquia, mas até ao momento, sem sucesso.

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