De fora para dentro – Ser

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José Luís Neto

Aproveitando a oportunidade criada pelas férias natalícias passadas “lá fora”, para além de mitigar saudades da família e amigos, aproveitei para ir ver o mais que pude, pois sentia falta do maravilhamento, o assombro causado pelo que de exterior levasse do olho ao espírito, ou do ver ao pensar, como tão bem refletiu Maurice Merleau-Ponty, num pequeno, mas intenso ensaio, o seu último, de 1960, que intitulou simplesmente “O olho e o espírito”.

E foi fora do programado, num mero acaso (que revelou todo o sentido), que colhi esse abalo telúrico, ao descobrir na Casa da Avenida, sita na Avenida Luísa Todi, em Setúbal, a exposição final de um projeto apoiado pela Direção Geral das Artes, intitulada “Cartografia de Sonhos”, onde o projeto “SER – de dentro para fora”, decidiu prestar contas ao público. O objetivo foi o de sensibilizar, através das artes, uma sociedade que ao passar por uma fase pandémica ficou mais desperta para essa fronteira subtil entre a saúde e a doença, no caso concreto, o da doença mental. Juntar arte e enfermidade, não se pode afirmar inovador, no entanto, esta adição revelou-se invulgar, por rejeitar o nacional “coitadinhismo”, que arrasta o tradicional público de matriz judaico-cristã que a estas exposições vai, motivado por um misto de consciência moral e atividade caritativa, esmola dada pela presença. Não se veja nisto uma crítica. Nada obsta a que estas se realizem e nada do que digo lhes retira mérito específico, porém, depois do que vi, há mais.

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