Do tempo em que se namorava nos Jardins Públicos

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TI
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“Il faut cultiver notre jardin.”

Voltaire

Pelo punho de Fernando Pessoa, Bernardo Soares deixou escrito, no Livro do Desassossego, a seguinte frase: “Um jardim é um resumo de civilização”.
Isto significa que cultura tem a ver com o que somos e com o modo de o ser, com a forma de estar no mundo, com o sentido que temos da beleza, com a paisagem que nos cerca, com os lugares que amamos e que escolhemos para viver, com a casa que habitamos e com os cuidados que dispensamos ao nosso jardim.
Sim, cultura é também a forma como tratamos o nosso jardim. Falo por mim. O jardim que envolve o meu bungalow é um prolongamento da minha sala de estar. Trata-se de um jardim que remonta ao tempo da permanência, na Horta, dos ingleses dos Cabos Telegráficos Submarinos. O meu jardim é requinte natural e harmonia botânica. E é frescura, encanto, luz, sombra e aromas. As flores e as plantas são belas e frágeis e, por isso mesmo, devem ser tratadas com amor. Faço jardinagem para esquecer as agruras da vida. E, dando beleza ao meu jardim, eu sei que estou a acrescentar beleza ao mundo.
Em tempos idos, alguns jardins transformaram-se em verdadeiros locais públicos de namoro. Por exemplo, o Jardim Duque da Terceira, em Angra do Heroísmo. Ou, na ilha do Faia, o Jardim Público (hoje Jardim Florêncio Terra), a Praça da República e o Largo do Infante.
Os jardins são geralmente espaços de lazer, onde se vai para ver e ser visto, passear ou ouvir música. Para os namorados de outras eras, os jardins não eram espaços de lazer, mas de prazer… O que os apaixonados pretendiam e procuravam era o recato para a partilha de ternura… Eu sou desse tempo. O tempo em que a namorada, por imposição dos pais, levava atrás de si um “chaperon”, geralmente uma irmã, um irmão ou uma amiga. Mas como não se pode adiar nem o coração nem o desejo, os namorados recorriam a subterfúgios para desviar as atenções dos “paus de cabeleira” que acabavam por se tornar cúmplices e solidários com as amorosas situações. E, à socapa e a medo, aconteciam beijos mil…
Nesse tempo os rapazes utilizavam diversas estratégias de comunicação. A primeira era uma estratégia não-verbal e que consistia em lançar olhares provocadores à rapariga pretendida (o clássico piscar de olho). A segunda era uma estratégia de comunicação verbal para chegar ao coração das meninas. Às raparigas por quem nos apaixonávamos, dizíamos, na ilha Terceira, frases feitas:
– “Queres-me querer ou queres que eu te queira”?
– “Ah, meu pescoço de alfenim”…
– “A minha mãe anda doida para arranjar uma nora”…
– “Ai que bela “genra” para o meu pai”…
E elas correspondiam com sorrisinhos melífluos, atirando-nos baguinhas de faia…
Seguia-se uma estratégia de escrita através de bilhetes, levados à amada por terceiros, com prosaicas declarações de amor. Quando o namoro se iniciava, havia uma outra estratégia de comunicação e que consistia em escrever o nome da pessoa amada nos cactos ou nos troncos das árvores dos Jardins.
Quando o namoro estava consolidado, então já se podia andar de mãos dadas e dar beijos na boca e, nos bailes, só queríamos dançar “slows” e confirmar a lei da Física que diz que… o calor dilata os corpos…
Nas freguesias rurais, só com a autorização dos pais da noiva é que esta podia namorar à janela e, numa fase mais adiantada do namoro, à porta do saguão. E era preciso esperar que a rapariga fosse pedida em casamento para que o noivo pudesse, finalmente, entrar em casa dela.
Outros tempos…

 

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