Era uma vez… a educação no séc. XXI

0
5
TI

Assim começam os contos de fadas. Assim começa esta crónica, mais uma, sobre Educação. Há muito, muito tempo, o filósofo grego, Platão, escrevia num dos seus livros, a República, que a educação, enquanto processo de evolução humano e humanizante, só poderia ser pensada em espaços de liberdade. Por isso, é eminentemente política. Afirmava que a educação, a ética e a política estão intrinsecamente associadas e que são as bases para o comportamento justo do indivíduo e do cidadão da polis. A Justiça e o Bem seriam então o fim último da ação dos indivíduos e das sociedades. Mas que tipo de ensino poderia ser verdadeiramente libertador? Que tipo de ensino conduziria o ser humano à descoberta de si mesmo e à aceitação do outro na mesma esfera de humanidade? Que tipo de educação poderia originar uma sociedade de seres racionais, livres e justos?
Comecemos pelo princípio: o conhecimento. Só o conhecimento é libertador; não o mecanicismo tecnocrata. Já o velho filósofo o sabia e por isso desvalorizou a polis tecnocrática, embora tivesse reconhecido a importância material da techné na orgânica social da sua República. Começa por fazer a distinção entre ciência (episteme) e tecnologia (techné), dado que o homem de ciência procura insistentemente chegar à verdade, sem outra motivação para além da aventura do conhecimento e da descoberta. Os modelos intelectuais ligados à técnica, ao saber-fazer, são importantes para modificar o mundo, mas a técnica sempre se afirmou numa perspetiva de domínio.
Entretanto, a tecnologia ganhou tal poder na sociedade, que é impossível hoje pensar a organização social e a vida humana sem ser numa relação de dependência absoluta. O que seria o nosso mundo sem web e sem os sistemas informáticos que controlam a vida coletiva?
No meio desta aventura – que é o conhecimento e o desenvolvimento tecnológico – está (por enquanto) o ser humano, biologicamente incompleto à nascença e necessariamente dependente da educação. A técnica desenvolveu-se de tal modo, que hoje é impossível separá-la da ciência e defini-la apenas como um saber-fazer. Paradoxalmente, comprova-se o que os gregos já sabiam: a tecnologia, por si só – apesar dos instrumentos que nos permitem desvendar as mais ínfimas partículas da matéria ou os segredos do universo- não garante a transformação pessoal ou civilizacional do humano; não nos torna mais justos, não amplia a nossa compreensão da humanidade; não nos compromete com o futuro. Por si só, a tecnologia é incapaz de produzir saber pertinente e promover uma prática da compreensão do humano e do nosso destino cósmico. Os professores sabem-no melhor do que ninguém. O uso puramente mecânico da tecnologia em educação – ao serviço de modelos reprodutores – é, em muitos casos, perverso.
Mas é um facto que o grande desafio tecnológico da contemporaneidade, a web, operou uma ruptura cognitiva e comunicacional sem precedentes na história humana, modificou os sistemas de comunicação, alterou as noções de tempo e de espaço; ampliou o imaginário coletivo; tornou possível o acesso universal à informação. É um facto que a tecnologia, colocada ao serviço da educação, constitui um recurso do qual só agora se começa a ter alguma inteligibilidade. O que já sabemos?: Está a mudar o funcionamento do cérebro humano. E está a desumanizar-nos.
É por essa razão, que a educação, no séc. XXI, não pode ser apenas de natureza técnica, instrumental, ou metodológica, mas eminentemente ética. As questões Quem somos?, Onde estamos? Para onde vamos? estão a ser ressignificadas no atual contexto de produção do conhecimento – microfísica, astrofísica, biologia, antropologia -, porque, pela primeira vez na história, temos plena compreensão da nossa origem biológica comum, da identidade humana e do sentimento de pertença a um planeta ameaçado pela irresponsabilidade moral de quem detém o poder e o domínio dos recursos globais.

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO