Ilhas dos Afortunados

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A Macaronésia começou por ser, no século XIX, um conceito geográfico de aplicação aos arquipélagos da Madeira e Canárias. O termo proveniente do grego que significa “Ilhas dos Abençoados” ou “Ilhas dos Afortunados” era usado para designar os arquipélagos que compartilhavam uma localização geográfica atlântica oriental e uma ocupação, pelo menos nos tempos modernos, por povos da Península Ibérica. Eram características físicas como a origem vulcânica, a geomorfologia acidentada, a amenidade climática (se comparada com o clima africano) e acima de tudo a singularidade da vegetação que conferiam unidade ao conjunto e conduziam que estas ilhas se integrassem no arquétipo de ilhas paradisíacas do Atlântico. O conceito de Macaronésia é recuperado no século XX pela biogeografia para designar o território biogeográfico atlântico que integra estes dois arquipélagos mas também os Açores e Cabo Verde, apesar de o primeiro possuir características mais oceânicas e o segundo mais tropicais que os distinguem dos anteriores. 

Os limites da região biogeográfica comummente designada por Macaronésia continuam em discussão, com investigadores a pôr em causa a inclusão de Cabo Verde e outros que alargam a região à costa marroquina próxima das Canárias e à costa portuguesa do Algarve, onde se encontram espécies de vegetação características destes arquipélagos. No entanto o conceito continua a ser útil para designar o conjunto de territórios atlânticos – Madeira, Canárias, Açores e Cabo Verde – cuja paisagem foi moldada pelo isolamento até à descoberta pelo homem e que devido às suas características climáticas mantêm vivas relíquias da vegetação subtropical da Era Terciária.
A história e as paisagens unem e distinguem estes arquipélagos: unem-nos porque todos foram entrepostos comerciais a partir dos Descobrimentos. Distinguem-nos porque o desenvolvimento se deu a vários tempos, nos vários arquipélagos, em função dos fluxos comerciais marítimos que se estabeleceram e das rotas preferenciais. Atualmente, a paisagem dos diversos arquipélagos continua a ser distinta, variando com a densidade de povoamento, com a ocupação do solo e com as culturas agrícolas presentes. No entanto há algo que os une, para além da biogeografia, que é a presença do turismo. As Canárias e a Madeira são destinos turísticos afirmados no plano internacional, cujos modelos de desenvolvimento podem ser estudados para que não se cometam erros de massificação do turismo e se aprenda com os exemplos de sucesso de integração paisagística dos empreendimentos, porque os há. Os Açores e Cabo Verde estão neste momento a desenvolver-se em termos turísticos, os Açores com uma vantagem: um clima que não atrai o turismo de sol e mar, mais massificado.
Assim, há que assumir a vocação de “nicho de mercado” dos Açores no que diz respeito à fruição da paisagem, e explorá-la tendo sempre em conta a sustentabilidade dos recursos presentes. Um turismo que assente na fruição da paisagem e no conhecimento dos valores naturais e culturais só se mantém se esses valores se mantiverem. Os trilhos, os miradouros, os locais de interpretação da paisagem devem ser valorizados, mas estão sempre adaptados a uma realidade concreta, e têm uma capacidade de carga específica que não é ilimitada, até para que a experiência turística se faça em condições de conforto, para os turistas e para os residentes. As vantagens do desenvolvimento turístico devem ser patentes para quem aqui vive, para que possamos acolher os turistas com alegria e para que possamos continuar a sentir que vivemos nas “Ilhas dos Afortunados”. 

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