Lawrence Oliver: o picoense que viveu o sonho americano (1)

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Nasceu na Calheta do Nesquim, da ilha do Pico, a 27 de Março de 1887, filho de Manuel Lourenço de Oliveira, “trabalhador” e de Maria de Jesus Oliveira, de “ocupação doméstica” 1. Baptizado no dia 3 de Abril daquele ano, Lourenço Oliveira, o mais novo dos quatro filhos do casal, teve uma infância extremamente dura e infeliz. 

Muito novo emigrou para os Estados Unidos. Em 1903, no dia em que fez 16 anos, partiu clandestinamente de Ponta Delgada para Boston, com destino a New Bedford. Dotado de enorme força de vontade, lutou muito, sofreu bastante, mas nunca desistiu até realizar o seu sonho americano. Quando faleceu em 1977 era uma das figuras mais ricas e distintas da comunidade luso-americana da cidade de San Diego e de toda a Califórnia.

 

Na sua agradável autobiografia – Never Backward, The Autobiography of a Portuguese-American, editada em 1972 e recentemente traduzida para português por Francisco Cota Fagundes, sob o título PARA TRÁS ANDA A LAGOSTA – ele conta-nos a sua vida, pobre, dura e sem horizontes nos Açores, e árdua, persistente e triunfal nos Estados Unidos. O seu interessante e notável percurso, ali narrado, proporciona-nos uma leitura amena, informativa e enriquecedora. Recolhemos dessa obra várias informações que, embora em necessária síntese, completamos com outros elementos bibliográficos.  

 

 O pai emigrou para a América pouco depois do seu nascimento e, porque a mãe adoeceu, foi criado pela avó materna. Tinha quatro anos quando, na verdade conheceu o pai, entretanto regressado dos Estados Unidos e, com o qual, manteve sempre difícil e tensa relação, ainda mais dificultada por um segundo casamento em 1898. Na Calheta de Nesquim, como em todas as freguesias rurais dos Açores, predominava a actividade agrícola e a família Oliveira não fugia à regra. Desde cedo, o trabalho infantil era normalmente requisitado. Foi isso que aconteceu com Lourenço que, sobretudo após a morte do irmão mais velho – em 1895, com 18 anos vítima de um ataque de febre tifóide – e da sua mãe – em 1897, com 44 anos – se viu obrigado pelo pai a tratar do gado, nomeadamente dois bois, 12 a 15 ovelhas e duas vacas que tinha de ordenhar diariamente, além de ajudar nos afazeres agrícolas. Como as pastagens onde se encontravam os animais eram distantes de casa, aquela criança de nove anos tinha de levantar-se às três horas da madrugada para estar naquelas ao amanhecer. Depois da ordenha e do tratamento dos animais, regressava a casa cerca do meio-dia. Almoçava, descansava cerca de uma hora e, no resto da tarde, ia trabalhar as terras. Não sabia ler nem escrever, uma vez que o pai jamais o mandou frequentar a escola. 

 

A vontade de ir viver para os Estados Unidos, de que comungavam tantos açorianos já naquela segunda metade do século XIX, desde cedo passou a dominar os pensamentos de Lourenço Oliveira. Imaginava ele – e afirma-o na sua autobiografia – que “as pessoas viviam na América como se fossem reis e rainhas”, pois os conterrâneos que “haviam estado lá e que haviam regressado para visitar parentes, ou voltado de vez, andavam bem vestidos, tinham relógios e correntes de ouro e anéis de ouro”, (…) “ nada faziam e gostavam de ostentar a sua riqueza”. Era, portanto, para lá que Lourenço Oliveira sonhava partir, para esse “país onde as ruas eram calcetadas de ouro”.

 Aos 15 anos pediu ao pai que lhe emprestasse o dinheiro para seguir viagem e de lá, quando pudesse, lhe pagaria a passagem. Este, que já vivera nos Estados Unidos, não lhe deu autorização, dizendo que era “demasiado novo e preguiçoso e que na América as pessoas tinham que trabalhar muito pelo que ganhavam”2. Esta negativa paterna, todavia, não demoveu o jovem Lourenço do seu obstinado desejo. Voltou a insistir e, uns meses depois, “um dia no começo de Fevereiro de 1903, ele concordou que eu podia ir”. Havia, no entanto, uma grande dificuldade: devido aos seus 15 anos não lhe seria dado passaporte, pois “o governo queria que os rapazes aguardassem até aos dezoito anos e depois servissem a tropa por dois ou três anos”3. Só depois disso era possível que obtivesse o desejado passaporte. Ele, porém, não queria esperar todo esse tempo, razão por que o pai teve que pagar a um engajador de São Miguel para que clandestinamente o fizesse seguir para a América. Viajou das Ribeiras do Pico para Ponta Delgada, levando consigo uma trouxa de roupa e uma moeda de ouro de cinco dólares que o pai lhe emprestara. Depois de muitas peripécias, chegou o dia da grande aventura: ele e outros 21 rapazes embarcaram a salto para uma lancha que os levou ao navio que, em sete dias de tormentosa viagem, os desembarcou em Boston. 

 

Lá chegados, um intérprete português – naturalmente da rede do contrabandista micaelense que se dedicava à emigração clandestina – encaminhou-os para o seu destino. Lourenço Oliveira, ao contrário dos seus companheiros de sofrida aventura que iam para a Califórnia, foi metido num comboio para New Bedford. Sozinho, ele que não sabia ler nem escrever português e não conhecia uma palavra em inglês! Tudo, porém, foi dando certo, mercê da compreensão e da bondade de várias pessoas que o ajudaram e alojaram. É assim que o confessa no seu livro: “Como tantas vezes tem acontecido na minha vida, Deus e a sorte estavam comigo e as pessoas foram amáveis”4.

 

Nos vários empregos que teve – numa granja a tratar de animais e a partir calhaus, ou numa fábrica de fiação – depressa Lourenço Oliveira descobriu que a América era bem diferente do que imaginara e que as ruas não estavam pavimentadas a ouro, antes, como ele próprio experimentou até à exaustão, estavam pavimentadas com grandes pedras. Mesmo assim, não se deixou vencer pelas dificuldades. Continuava, persistentemente, a desejar um bom emprego, ganhar e poupar algum dinheiro e, mais tarde, ter o seu próprio negócio. Outro propósito, sempre presente, era casar, ter uma família e dar uma boa educação aos seus filhos. 

 

Seria, na costa oeste dos Estados Unidos, para onde se mudou um ano depois de viver em New Bedford, que conseguiu efectivar muitos dos seus desejos. Viveu em casa de um tio na localidade de Chico, a norte de Sacramento, que lhe deu trabalho remunerado na agricultura durante o Verão e impôs-lhe, no Inverno, a frequência de uma escola. Ele, com 18 anos, viu-se coagido, a frequentar a primeira classe com crianças de seis anos. O embaraço e a relutância iniciais, logo deram lugar ao entusiasmo e a uma aprendizagem meteórica. Em apenas um ano passou a primeira, a segunda e a terceira classes. 

Data dessa época a americanização do seu nome. Tornou-se definitivamente Lawrence Oliver. Em San Diego, para onde se deslocou no Outono de 1906, a instâncias do pai, entretanto lá radicado, trabalhou num mercado de peixe e estudou até concluir a sexta classe. Tinha 16 anos e, desde então foi trabalhando, sucessivamente, em peixarias, padarias, condutor de carroças da “American Railway Express” (de distribuição de ferramentas, materiais de canalização, banheiras, chapas de metal e canos), esteve gravemente doente quase um ano, perdeu o emprego, mas sempre confiante nas suas capacidades e “na ajuda de Deus” encontrou solução. Associou-se a um antigo patrão no negócio da venda de peixe e no enlatamento do atum, uma actividade pioneira naquele tempo. Recorrendo a empréstimo, tornou-se sócio daquela empresa – a “American Fisheries & C.ª” (“Pescarias Americanas”) – e, com ela, Lawrence Oliver, lutando sempre muito, teve, finalmente, um negócio seu, a estrela que lhe brilhara certa noite na sua longínqua Calheta do Nesquim.

 

 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

 

 

 

  1 Livro n.º 12 Baptismos da Calheta de Nesquim (1875-1894), fls. 111 e 111v

 2 Lawrence Oliver – Para Trás Anda a Lagosta (organização, tradução do inglês e posfácio de Francisco Cota Fagundes) Ed. Ver Açor Lda., P. Delgada 2014, pp. 27 e 28

 3 Idem, Ibidem, p. 28

 4 Idem, Ibidem, p. 32

 

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