Manter o nível

0
12

Quando não se tem ideias, começa-se por assumir a sua ausência. E a cada frase escrita, esperamos que se vislumbre a dita. É um “brainstorm” sem relâmpagos. É o receio de não superar o que de bom já se fez.

Transpondo para o desporto, aparentemente o difícil é ganhar a medalha, já sem falar do treino disciplinado. É o pico de forma, para chegar ao topo do mundo, o êxtase. E depois? Depois é que vem o mais difícil: manter o nível.

Manter o nível tem pano para mangas. Manter o nível não é ser sempre bom, é trabalhar para sê-lo. Manter o nível é não descambar. Manter o nível é conter-se. É dispensar observações mazinhas, porque não se está de bem com a vida. Parece que a solução para esse “estar” é incendiar à volta na tentativa de que todos soframos as queimaduras do mesmo fogo.

Manter o nível é ser propositado. Mostrar e dizer o que se pensa na altura certa, recatadamente a quem temos de dizer, por menos agradáveis que sejam os contornos da conversa. (concorde-se ou não, o que se tem a dizer, tem-se a dizer).

Por outro lado, manter o nível é ter a capacidade de não ouvir, ouvindo, de não alimentar tendo fome de responder, de virar a página sem a ter lido.

O nível de infelicidade que nos rodeia não é assim tão grande. Há é sempre como em qualquer lugar, uma ovelha ranhosa. Ranhosa por que chora verbalmente a vida, incessantemente, porque num dia inteiro é difícil não criticar o que quer que seja, até mesmo a lentidão da internet que transtorna esse ser perfeito, que acha que sabe o que quer, e que reitera que nada funciona como devia. É quase um vício, como qualquer outro.

Manter o nível é ter capacidade de adaptação. O nível vê-se também nas vezes em que se podia ficar caladinho e não ser “pica-miolos”.

Existem os profissionais do nível, os empreiteiros que antes foram homens das obras e que com o nível construíram casas pelo menos direitas.

Existem também os que por não terem ideias e não assumirem a sua ausência vivem em modo “rajada” disparando para tudo quanto é lado. Pior, sem sequer quererem saber onde ou em quem acertam. Há com certeza outras formas de manter o nível e talvez a primeira seja jejuar e não apregoar que se é dono dele.

Manter o nível todos os dias dá-nos um ” endurance” fantástico. Cansa, é uma trabalheira.

Mas é bom manter o nível, fazer a nossa parte e ser recompensado por isso, sem explodir, sem espaventar, e sem “empecinhar.” Empecinhar saiu-me… Significa a junção entre complicar e moer, moer a paciência.

É um veneno manhoso, sorrateiro, que se instala tal qual um ruído de fundo constante do qual só nos apercebemos quando pára. Para esse veneno, o melhor antídoto é mesmo manter o nível.

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO