O Feiticeiro de Oz

0
12
TI

TI

Os documentos orçamentais socialistas para 2019 não são deste mundo. São uma fantasia. Um conto para crianças. Olhei para eles e lembrei-me do clássico imortal da literatura infantil de L. Frank Baum: “O Feiticeiro de Oz”. É a história da menina que um ciclone transportou para um mundo encantado: a Terra de Oz.
Dorothy, assim se chama a menina, tem como objetivo – que persegue ao longo de toda a história – regressar à sua terra natal, o Kansas. Para alcançar esse desiderato é obrigada a deambular, seguindo a estrada dos ladrilhos amarelos, pelos quatro cantos da terra mágica em que se encontrava. Pelo caminho conhece o Espantalho, o Lenhador de Lata e o Leão Cobarde. Estas três últimas personagens decidem acompanhá-la à Cidade das Esmeraldas, a terra governada pelo poderoso Feiticeiro de Oz.
Resumindo muito, descobre-se que o poderoso Feiticeiro de Oz, o governante da Cidade das Esmeraldas, é um embusteiro. Prometeu realizar todos os desejos dos quatro amigos, mas nunca teve intenção de cumprir o prometido. Não tinha poderes para isso.
Apesar de tudo, depois de muitas aventuras com bruxas e macacos alados, a menina, o Espantalho, o Lenhador de Lata e o Leão Cobarde alcançam os seus respetivos objetivos. O Feiticeiro de Oz desaparece da história levado, “para o infinito e mais além”, por um desgovernado balão de ar chamado SATA.
Tal como na história original, o nosso Feiticeiro de Oz vive isolado nas entranhas do Palácio, longe do povo. Não tem o poder que o povo julga que ele tem. A sua “Cidade das Esmeraldas”, tal como a do conto, não é real.
Todos têm, para alterar a realidade, de usar óculos verdes na Cidade das Esmeraldas original. Através destes, os habitantes julgam observar uma cidade deslumbrante, feita de casas de mármore verde e de esmeraldas cintilantes.
Mas, na verdade, tudo era falso. Os óculos alteravam a perceção da realidade. O nosso Feiticeiro de Oz, o Presidente Vasco Cordeiro, também tem os seus truques mágicos para alterar a realidade. O Gabinete de Apoio à Comunicação Social, em grande parte recrutado na Lusa, funciona como uma gigantesca lente de propaganda que confunde os menos atentos. É caro, custa meio milhão de euros, mas permite a entrada direta no resplandecente mundo das notícias falsas e da fantasia.
Para os mais céticos está reservada uma segunda lente de deformação da realidade: o Plano e o Orçamento. Juntos, assemelham-se a uma gigantesca roldana de propaganda governamental, em que nada parece o que é. O Feiticeiro de Oz não tinha qualquer poder. Só aparentava ter.
Pensei muito a respeito da identidade das Bruxas Más do Leste e do Oeste. Decidi fundir todo o poder maléfico numa só identidade superpoderosa. Na verdade, não fui eu que decidi. Foi o Professor Doutor Eduardo Paz Ferreira que escolheu o Sérgio Ávila. Peçam-lhe responsabilidades, uma vez que também lhe pedem pareceres jurídicos. Não sou eu que vou chamar bruxa má a ninguém.
Vejo agora que talvez não tenha sido uma ideia muito feliz escrever esta adaptação do “Feiticeiro de Oz”. Tenho de escolher um Espantalho, um Leão Cobarde, um Lenhador de Lata, um Macaco Voador e uma Aranha Gigante. Não é a mesma coisa que entregar uma insígnia autonómica. Presumo que não despertará tanto entusiasmo aos felizes contemplados.
No caso do Lenhador de Lata é fácil. O Secretário da Saúde já teve um sem número de pequenos e grandes acidentes com o seu machado governativo. O latoeiro já teve de remendar e substituir muita coisa. O que interessa é que ainda está vivo. Falta-lhe um coração, mas a verdade é que tem acesso fácil à tecnologia de reanimação.
Para Espantalho escolho o outro deputado do meu círculo eleitoral. Afugenta os corvos, os investimentos e todas as medidas de progresso para a nossa terra.
O Leão Cobarde também é uma escolha fácil. Lembrem-se que, afinal, o Leão Cobarde era corajoso. Escolho o Secretário da Agricultura. É preciso muita coragem para aceitar gerir uma pasta a respeito da qual não percebe coisa alguma. O outro candidato óbvio era o atual Presidente da Sata, outro corajoso.
O Macaco Voador é um velho amigo. Está obrigado a cumprir os desejos do portador do “Gorro Dourado”. Antes foi Carlos César e agora é Vasco Cordeiro. Movimenta-se com rapidez na Terra de Oz. De leste para oeste e da extrema-direita para a esquerda governamental. Lem-brem-se que é um macaco alado. É sempre sobranceiro em relação aos mais pequenos e humildes. É o líder parlamentar da maioria governamental.
Finalmente, Dorothy representa o bom povo açoriano. Um povo persistente e bondoso. Com uma paciência que dura décadas. No fim mata as bruxas – uma delas com água, apenas porque ela não teve voos disponíveis para se refugiar na ilha do Corvo – e percebe que o Feiticeiro de Oz não é quem aparenta ser. Não tem poder algum ou mesmo vontade e intenção de melhorar as suas vidas. Tudo não passou de um logro.
Dorothy acaba, finalmente, por conseguir sair da terra dos enganos e ultrapassar todas as dificuldades. Inicia um novo ciclo, de regresso ao mundo da realidade. Aprendeu muito na Terra de Oz e perdeu os sapatos cor de prata. Nada a fará regressar à terra dos truques e da falsa magia dos seus governantes.
A alegoria do “Feiticeiro de Oz” retrata fielmente o Orçamento para 2019. É uma pouco maravilhosa fábula de encantar.

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO