O “novo ciclo” do PS é o ciclo da pobreza envergonhada

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O que hoje escrevo poderia ser ficção, e assim preferia que o fosse, mas não é. Infelizmente, não é! É a realidade de uma pessoa que espelha a de muitas outras que, certamente, ficam esquecidas nas contas que o Governo Regional tanto se orgulha de apresentar.
A realidade açoriana baseia-se num ciclo, mas não aquele que é apregoado! Eis o ciclo real:
O Manuel (nome fictício), com 46 anos, trabalhou ao abrigo dos programas ocupacionais “Prosa” e “CTTS”, durante o tempo definido por cada um desses programas – que o Governo gosta de se referir como programas de empregabilidade – na sua freguesia natal.
Devido à falta de emprego, o Manuel decidiu ir para a cidade à procura de trabalho. Quando procurou uma casa para arrendar ficou espantado com os preços praticados. As poupanças conseguidas e os 183 euros “dados”, como se de uma esmola se tratasse, permitiram-lhe o pagamento de um quarto e alimentar-se durante algum tempo. Mas o trabalho sazonal, sem contrato, que não lhe conferia segurança, nem tão pouco um horário definido, e o medo de perder os 183 euros… sim, falamos de medo, medo de perder uma esmola que, de vez em quando, sai com a ameaça e a chantagem subtil do “antes isso do que nada”, fê-lo sair da cidade.
Procurou a sua sorte noutra freguesia. Encontra-se a viver num quarto onde paga 100 euros para dormir e 20 euros por uma garrafa de gás mensalmente. A sorte não foi a melhor. O Manuel fica com 63 euros e ainda não conseguiu arranjar trabalho. Já contactou a junta de freguesia da localidade que lhe anda a prometer aquela que é uma prática que se generalizou na região: um programa ocupacional.
O sentimento de revolta foi enorme quando, ao telefone, o Manuel me dizia: «Eu quero trabalhar. Eu ainda posso fazer o “Recuperar”. Eu não consigo arranjar trabalho, não há trabalho aqui, mas ainda posso fazer o “Recuperar” porque dá mais 100 euros e assim já dá para eu ter mais algum dinheiro.”
O Governo Regional conseguiu fazer com que o recurso a programas ocupacionais, que deviam ser uma exceção e funcionar como transição para o mercado de trabalho, passasse a ser utilizado, com a maior naturalidade e desplante, como um recurso para ter acesso a mão-de-obra barata, fazendo as pessoas saltar de programa em programa, como se de um carrossel se tratasse.
A disseminação desta lógica, fez, infelizmente, com que as pessoas acabassem por a aceitar com a maior normalidade. Uns porque temem não ter o que comer, e outros porque dá jeito ter pessoas a desempenhar funções que deveriam corresponder a um contrato de trabalho.
Mas na verdade, o Manuel não consegue trabalho na freguesia, continua à procura na cidade, mas mesmo que o consiga, com os salários que são pagos e com os preços praticados nos arrendamentos de casas ou quartos, ficará na mesma. Sobrará pouco, muito pouco para (sobre)viver.
E é deste “novo ciclo” que o Governo Regional se orgulha de falar. Do ciclo da pobreza disfarçada e envergonhada que tem rendido votos ao PS. E é este ciclo que cabe a todos/as nós quebrar.
Tenham vergonha da esmola de 183 euros que atribuem! Tenham vergonha!

 

Alexandra Manes

Coordenadora do BE/Terceira
Dirigente do BE/Açores

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