Os fenómenos naturais do Lajedo das Flores (I)

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 1. O terramoto e o deslizamento de terras no Lajedo 

As ilhas das Flores e do Corvo, embora de origem vulcânica, por ficarem situadas na placa tectónica americana, não estão sujeitas aos tremores de terra que se têm registado nas restantes ilhas do arquipélago. Algumas delas, mesmo depois do seu povoamento, já passaram por erupções vulcânicas de grande dimensão. Os florentinos quase que desconhecem os efeitos dos tremores de terra, apesar de, na década de 1960 muitos habitantes da freguesia da Fazenda terem apanhado um susto quando sentiram o seu guarda-louça e a sua própria casa a tremer. Todavia, mesmo aí houve quem não desse por isso.

Na freguesia do Lajedo, nos últimos anos do século XVIII, um ou dois deslizamentos de terra puseram a descoberto a pedra do Campanário e produziram duas fontes de água termais, como a seguir se menciona, pela pena de outros autores.

A esse propósito, relativamente ao Lajedo o investigador histórico, António Lourenço da Silveira Macedo, escreve na “História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta” que “Em Julho deste anno [1793] sentiu-se pela primeira vez na ilha das Flores depois della descoberta um terramoto que abalou a freguesia do Lajedo no lugar da Ribeira do Campanário uma montanha na altura de 18 metros que obstruiu uma extensão de 1161.60 ares de terreno” (1).

Relevando que um violento terramoto em 1800 causou grandes estragos na ilha Terceira, Silveira Macedo refere também que a 29 de Dezembro desse ano se sentiram mais terramotos e que se fizeram preces públicas no arquipélago. Releva que “na ilha das Flores, no mesmo sítio da Ribeira do Campanário, correu ao mar uma montanha em grande extensão, patenteando um manancial d’águas frias, que tingiam de preto o que nelas se metia, e assim continuaram por um espaço de três annos, no fim dos quaes se secaram” (2) – fenómeno este que certamente nada terá a ver com aqueles sismos, já que a ilha das Flores está situada na placa tectónica americana, o que não acontece com outras ilhas, que estão na europeia ou africana, como já referimos.

Foto 31

Sobre este escoamento para o mar, o Padre José António Camões, que nasceu na freguesia da Fajãzinha em 1777 e faleceu na freguesia de Ponta Delgada em 1827, logo foi contemporâneo desses fenómenos da natureza. E, contrariamente ao que escreveu Silveira Macedo, que refere ter sido em Julho de 1793 o terramoto que provocou o escoamento de terras no lugar do Campanário, o Padre Camões escreveu que “Em 1799, numa pequena povoação chamada Lajedo, a Sudoeste da ilha, pelas duas horas da tarde, começaram a abalar vários rochedos e terras cultivadas de trigo, situada sobre eles, aonde andavam ceifeiros na respectiva colheita; e, em menos de uma hora, revolveu terras de inhames de tal forma que ficaram as de baixo para cima, e as de cima para baixo; foi um fenómeno que daria que fazer aos naturalistas se cá os houvesse” (3). O Padre Camões não refere as “águas frias que tingiam de preto”, mas refere as “águas quentes da Costa”, como abaixo se menciona.

Para mais confusão ou esclarecimento sobre as datas, relativamente a esses fenómenos, a páginas 57, 58 e 75 nos “Anais do Município das Lajes das Flores”, o nosso florentino João Augusto da Silveira (1857-1933), refere-se à data de 1773 como sendo a data do abalo de terra e tremores de terra, no Lajedo e na Costa, evidenciando nas suas ribeiras a existência “muitas águas nativas” (4). Refere também que junto das ribeiras do Campanário e da Lapa: “Há terra branca, há preta, vermelha, amarela e verde;…”

Estas cores das terras junto dessas ribeiras de que nos fala o autor dos “Anais” podem ter a ver com  o “manancial d’águas frias que tingiam de preto” […] por um espaço de três annos, no fim dos quaes se secaram” de que no fala Silveira Macedo, como atrás referimos.

Sabe-se que efectivamente foi este fenómeno que deixou a descoberto a conhecida e eminente Pedra do Campanário, mais conhecida localmente por “Pináculo”, no interior do lugar do Campanário, nos arredores da localidade do Lajedo. Esse Pináculo deixou muita impressão nos irmãos Joseph e Henri Bullar, de nacionalidade inglesa, quando estes, em 1839, passaram pela pequena aldeia do Lajedo. Pareceu-lhes que aquele penedo caíra ali, como se fosse um meteorito. Estavam de visita à ilha das Flores e por ali passaram transportados em palanques às costas de homens de Santa Cruz das Flores, onde foram hóspedes do Dr. James Mackay. Referem eles, que “No vale em que esta [localidade] fica situada encontra-se um enorme bloco de lava, isolado, de algumas centenas de pés de altura”. E acrescentam que “Não é fácil explicar como foi ali parar o gigantesco penedo. Parece que nenhuma força poderia atirar ao ar um bloco desses, deixando-o cair inteiro no solo”. E terminam a sua referência “E todavia, é possível que tal haja acontecido” (5). É evidente que se esses visitantes tivessem procurado indagar localmente como se havia constituído esse bloco de pedra, certamente que no Lajedo haveria, ainda nesse tempo, quem os informasse correctamente. Haviam decorrido apenas 46 anos, a dar-se como certo o ano que é mencionado por Silveira Macedo, de 1793, e 40 anos o ano dado pelo Padre Camões, de 1799. Quero crer que as faltas dos domínios das línguas inglesa e portuguesa devem ter estado na origem dessa omissão.

2. A localidade da Costa do Lajedo

Sabe-se que esse lugar da Costa, constituído por um extenso vale de terras de pão ou de lavradio e por várias casas, no século XIX era em grande parte propriedade do 1.º Barão da Costa, Manuel Pedro Furtado de Almeida, e que depois recebeu o título de Visconde do Vale da Costa, o qual casara em 28 de Abril de 1864 com Jessie Mackay, que seria filha do Dr. James Mackay (1790-1874) (6). O Dr. James Mackey, que era escocês foi o primeiro médico das Flores. Nasceu na Escócia em 1790, formou-se na Universidade de Edimburgo e serviu como tenente no Exército Britânico que, em 1815, venceu e prendeu o Imperador Napoleão Bonaparte na Batalha de Waterloo. Assim, foi encarregado de acompanhá-lo à sua prisão na Ilha de Santa Helena, no Sul do Atlântico. Quando regressava a Inglaterra parou nas Flores e ficou tão encantado com a ilha e com as suas gentes que, anos depois, em 1828, veio com sua mulher Ana Hart, fixar-se ali, onde foi médico e vice-cônsul britânico, e aonde constituiu família. Ali faleceu, deixou filhos e prédios, e está sepultado com a mulher no cemitério de Santa Cruz, em cuja campa consta uma lápide que sintetiza a sua história e a história de sua mulher. Teve vários filhos e filhas, entre os quais a Jessie casada com o Visconde da Costa atrás mencionado, e James Mackey (filho), importante empresário em Santa Cruz das Flores, onde foi agente de diversas empresas portuguesas e inglesas e também vice-cônsul de Sua Majestade Britânica e delegado do Consulado Geral americano e até importante benemérito.

Rica em terrenos aráveis, o lugar da Costa chegou a ter excelente produção cerealífera e agora possui muito boas pastagens para o gado bovino. Sobre esses terrenos conta-se que terão sido recuperados a uns charcos que lá existiriam e onde invasores mouros terão sido desbaratados pela população local, por desconhecerem a  existência e profundidade desses chaços. Diz-se até que alguns desses mouros poderão ter sido raptados e que por lá terão ficado. Daí a designação dos “marrocos”, dada a  descendentes desses povos africanos, cuja constituição física era de baixa estatura, muito divergente da dos demais habitantes da localidade, que seriam essencialmente de origem anglo-saxónica.      

3. A água quente da Costa  

Mas, citando novamente o Padre Camões que, como se disse, escreveu entre 1815 e 1822, e acompanhando-o nas suas “Coisas notáveis que há na ilha”, refere ele que “junto ao mar (no lugar da Costa), e ao pé de uma rocha que terá de 20 a 25 braças de altura, há uma fonte de água muito quente que tem uma virtude eficacíssima para todas as moléstias cutâneas. A água é quente em tal grau que, lançando-se-lhe um pequeno peixe, coze-o em poucos minutos; deitando-se-lhe lapas, ou qualquer outro marisco de concha, descasca-os imediatamente. Nota-se-lhe uma particularidade, que tomada em bochechas, só nos beiços se lhe percebe a quentura; no mesmo modo ninguém permanece com as mãos dentro dela. Só com muita bonança se pode ir junto dela de barco, e por terra é muito difícil a descida da rocha; pelo menos homens calçados não descem lá, só se temerários” (7). Devido a essas águas estarem numa nascente que o mar cobre, por vezes, em ocasiões de maré-cheia, nunca as autoridades locais pensaram no seu adequado aproveitamento, com uma decisão séria e duradoura. A análise das referidas águas encontra-se inserida nos “Anais do Município das Lajes das Flores”, p. 123, feitas em 31-VIII-1961. Esses Anais foram editados em 1970 pela Câmara Municipal presidida por Fernando de Freitas Silva, onde são feitas diversas referências históricas a essas e a outras águas da Costa (8).

Posteriormente, sobretudo depois do 25 de Abril, alguns políticos aventureiros e oportunistas chegaram a fazer promessas, aos habitantes da Costa, de irem estudar o seu aproveitamento, facto que nunca ocorreu com seriedade. De resto, águas semelhantes existem em diversas ilhas do arquipélago que não estão a ser aproveitadas para fins terapêuticos ou medicinais, apesar de serem muito mais fáceis de aproveitar e de, nalgumas, já existirem investimentos de vulto nelas realizados. Isto acontece em ilhas muito mais populosas e servidas por melhores transportes do que as Flores.

 Julgo que aquelas promessas não passaram mesmo de simples oportunismos políticos.  

Bibl: Macedo, António Lourenço da Silveira, (1871), “História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta”, 1981, V.1, pp. 273, 183, Angra do Heroísmo, Reimpressão Fac-Similada da Secretaria Regional da Educação e Cultura; Camões, José António de (1815-1822), “Obras – Memória da Ilha das Flores”, 2006, p. 57, Lajes das Flores, Câmara Municipal de Lajes das Flores; Silveira, João Augusto da, (1848-1849), “Anais do Município das Lajes das Flores”, 1970, edição própria, p. 58 , 73, 75 e 123 (continuado pelo Padre João Augusto da Silveira e anotados por Pedro da Silveira e Jacob Tomaz); Bullar, Joseph e Henry, (1839), “Um Inverno nos Açores e um Verão no Vale das Furnas”, 2001, p. 225, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada; Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, (2006), “Casais das Flores e do Corvo – extractos dos assentos de casamento 1655-1911”, p. 365, edição do próprio; Trigueiro, José Arlindo Armas, artigo no jornal “Tribuna das Ilhas”, Horta, 20-3-2009.

 

(1). Macedo, António Lourenço da Silveira, (1871), “História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta”, 1981, V.1, p.273, Angra do Heroísmo, Reimpressão Fac-Similada da Secretaria Regional da Educação e Cultura.

(2). Macedo, António Lourenço da Silveira, (1871), “História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta”, 1981, V.1, p.283, Angra do Heroísmo, Reimpressão Fac-Similada da Secretaria Regional da Educação e Cultura.

(3). Camões, José António de (1815-1822), “Obras – Memória da Ilha das Flores”, 2006, p. 57, Lajes das Flores, Câmara Municipal de Lajes das Flores.

(4). Silveira, João Augusto da, (1848-1849), “Anais do Município das Lajes das Flores”, 1970, edição própria, p. 58 e 75, (continuado pelo Padre João Augusto da Silveira e anotados por Pedro da Silveira e Jacob Tomaz).

(5). Bullar, Joseph e Henry, (1839), “Um Inverno nos Açores e um Verão no Vale das Furnas”, 2001, p. 225, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada.

(6). Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, (2006), “Casais das Flores e do Corvo – extractos dos assentos de casamento 1655-1911”, p. 365, edição do próprio.

(7). Camões, José António de (1815-1822), “Obras – Memória da Ilha das Flores”, 2006, p. 57, Lajes das Flores, Câmara Municipal de Lajes das Flores.

(8). Silveira, João Augusto da, (1848-1849), “Anais do Município das Lajes das Flores”, 1970, edição própria, p. 73 e 123, (continuado pelo Padre João Augusto da Silveira e anotados por Pedro da Silveira e Jacob Tomaz).