PCP – “Já não interessamos a ninguém, somos poucos”

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“Já não interessamos a ninguém, somos poucos.” É uns desabafos que podemos ouvir de alguns produtores de leite da nossa Região. O PCP nos Açores tem estado próximo de vários produtores de leite, e ao longo dos anos são cada vez menos os que optam por esta produção, dado que “já não compensa”, como afirma quem todos os dias se levanta de madrugada para recolher o leite, e todos os dias termina a recolha já de noite. Estas últimas semanas fizemos contatos formais e informais com vários agricultores, visitámos algumas explorações para compreender qual o estado real da produção. Vimos aqui tornar público o continuado massacre de que os produtores de leite são alvo.
O PCP sempre alertou para os perigos da liberalização do mercado do leite na União Europeia (fim das quotas leiteiras) e, sempre propôs, ao contrário do PS, do PSD e do CDS/PP, que Portugal se opusesse a esta medida, pois ela constituiria, como está agora à vista de todos, a ruína de uma produção na qual éramos auto-suficientes e da indústria transformadora que a ela está associada. Cada vez mais os nossos produtores sofrem das más decisões tomada, e vão deixando o sector porque, como os mesmos afirmam, “é muito esforço para o dinheiro que dá.”.
O aumento dos custos de produção e a contínua desvalorização do preço do leite estão a colocar os produtores à beira da ruína. A revolta e a desilusão crescem no setor pois, como os próprios produtores afirmam: “(…) nós fizemos tudo o que nos pediram para fazer. Investimos, melhorámos o maneio e a qualidade genética, aumentámos a produtividade e a qualidade do leite. Agora abandonam-nos à nossa sorte”.
Com a actual crise, que provoca o abandono diário das explorações, está efectivamente em causa a capacidade regional de produção, num sector em que os Açores são reconhecidos pela boa qualidade.
A remuneração que os produtores hoje recebem pode chegar, nos casos mais graves, aos 0,25€ por kilo, e na generalidade não ultrapassa os 0,28€, uma quantia manifestamente inferior aos custos de produção sinalizados, significando o acumular-se de prejuízos na produção.
A situação que o sector leiteiro vive é indissociável do impacto da desvalorização do produto e da falta de estratégia na sua promoção. A grande distribuição impõe preços baixos à indústria, ao mesmo tempo que adquire grandes quantidades de leite a baixo preço para as suas marcas brancas, realidade que o funcionamento de espaços de diálogo objectivamente não resolve. As reuniões do Gabinete de Crise foram invariavelmente seguidas de novas promoções, como aconteceu no Natal e Ano Novo, e que foram denunciadas pelo PCP na Assembleia da República. Esta situação exige medidas urgentes e com incidências imediata, bem como outras a médio prazo.
O PCP compreende a situação concreta dos produtores de leite que só não desistem da sua produção pelos encargos muito significativos que assumiram com a banca, pois foram obrigados a investimentos avultados para assegurar um elevado nível de bem-estar animal e de qualidade alimentar. Mas também considera inaceitáveis quaisquer propostas que, para resolver problemas imediatos, reduzam a capacidade produtiva ou optem pela desvalorização do produto.
A nossa Região precisa de dar resposta a esta crise assegurando a produção de leite e lacticínios e valorizando a rede de produção. Basta de perdemos o que de melhor temos.

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