Plenário: Bloco lamenta que “muitos dos que eram contra a incineradora têm agora o poder para a travar mas não o fazem”

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A proposta do Bloco de Esquerda que pretendia travar a construção da incineradora de São Miguel foi hoje rejeitada no parlamento por PS, PSD, CDS e CH. António Lima insiste que “será um erro avançar para a construção de mais uma incineradora” e lamenta as cambalhotas de muitos intervenientes que eram contra a incineradora, mas agora que têm o poder de a travar não o fazem, para, a todo o custo, “viabilizar o negócio do lixo”.

António Lima não compreende que o Governo Regional preveja um aumento de 7% na produção de resíduos nos Açores, quando a previsão de Portugal é a diminuição em 15% no mesmo período, e considera que o objetivo só pode ser procurar justificar a construção de mais incineradoras nos Açores e viabilizar o negócio do lixo.

O objetivo da proposta do Bloco debatida hoje no parlamento era recomendar ao Governo Regional que, em conjunto com os municípios de São Miguel e da Terceira, implementasse medidas para aumentar a reciclagem e estudasse a hipótese de transporte resíduos não recicláveis de São Miguel com a comparticipação financeira da Região, de modo a evitar-se a construção de mais uma incineradora.

No debate, António Lima lamentou que muitos dos que eram contra a construção da incineradora de São Miguel e agora têm o poder de parar a sua construção tenham, entretanto, mudado de opinião, como é o caso, por exemplo, do atual secretário regional das Finanças, que em 2017, enquanto comentador, afirmou que a incineradora prevista para São Miguel estava sobredimensionada e levantou suspeitas de corrupção no processo, falando mesmo na hipótese de haver financiamento partidário.

“O comentador que levantava suspeitas de corrupção, hoje faz parte do governo que dá cobertura política ao negócio”, assinalou o deputado do Bloco de Esquerda.

António Lima deu outros exemplos de intervenientes que deram “uma cambalhota” relativamente a este assunto: a TERAMB, que gere a incineradora da Terceira, primeiro fez um parecer a dizer que tinha capacidade para receber todos os resíduos não recicláveis dos Açores, mas depois “deu o dito por não dito”. O deputado Pedro Pinto, do CDS, em 2017, disse, na Assembleia Municipal da Praia da Vitória, que a incineradora da Terceira tinha sido “uma má aposta”, mas hoje defende a construção de mais uma. O candidato do CDS por São Miguel nas últimas eleições regionais prometia parar o processo de construção da incineradora, mas agora é diretor regional e deu por terminada esta revolução. E o atual presidente da Câmara de Ponta Delgada, em 2017, criticava a opção pela incineradora, mas hoje é um dos promotores do projeto.

“Os que eram contra e agora têm poder de parar a sua construção, alguns até levantando suspeitas de corrupção em direto na televisão, meteram a viola no saco. E porquê? Porque o que tem que ser tem muita força e é preciso acima de tudo proteger o negócio”, disse António Lima.

O líder parlamentar do Bloco criticou ainda o “veto de gaveta” que levou a que esta proposta se arrastasse por mais de um ano até ser discutida em plenário.

“Demonstra-se assim o incómodo que esta iniciativa gera. E demonstra-se assim a vontade de proteger acima de tudo o negócio da incineradora, colocando em causa o ambiente”, disse o deputado.

António Lima demonstrou ainda preocupação pela intenção demonstrada pela presidente da autarquia das Lajes do Pico de avançar para a construção de uma incineradora no Pico.

“Soubemos até que no Pico os municípios já pensam em construir mais uma incineradora, justificando que a pirólise é uma forma de reciclagem. Nos Açores, pelos vistos, vende-se aos autarcas a ideia de que incinerar é o mesmo que reciclar”, assinalou o deputado.