Prevaricador beneficiado

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 Sempre me fizeram impressão aquelas histórias dos ladrões que fogem com o dinheiro e não são apanhados ou os intrujões que mentem impunemente. A ideia que alguém possa tirar benefício de uma maldade corroí-me as entranhas. Principalmente enquanto gestor público, eu sinto que devo ser honesto, trabalhador, correcto e de respeitar o próximo, o que contrasta com uma parte do que vamos vendo à nossa volta.

Um dia, um antigo presidente de Câmara disse-me que governar com dinheiro era fácil. “Difícil” dizia ele “é inventar o dinheiro necessário para fazer obra”. Na minha franca ingenuidade pensei nos projectos cofinanciados, nas parcerias público-privadas (antes de serem amaldiçoadas) e na recolha de apoios de terceiros. Longe de mim estava eu de pensar que, na realidade, o enigma residia numa outra solução muito mais vil. “Inventar dinheiro” era mesmo inventar dinheiro e esconder as dívidas ou acumular os passivos em empresas acessórias à governação. Comecei a perceber isso quando analisei a realidade dos clubes de futebol que nasciam à luz dos apoios camarários e outros igualmente difusos e duvidosos. No entanto, estava longe de imaginar a escala da aldrabice até há poucos dias atrás.

A dívida da Madeira não me escandaliza. É a que é, simplesmente. O que é inacreditável é que foi escondida de todos e o mais inacreditável é que o Governo que a provocou irá ser reeleito. Como é possível um prevaricador tão descarado ser beneficiado pelo próprio povo? Terá de ser a justiça, e espero que não hesite, a fazer o que o povo não fez quando podia e devia.

Custa-me ouvir a líder do maior partido da oposição nos Açores, por quem tenho estima e consideração, dizer que as obras das SCUTs nos Açores deveriam ter sido entregues a empresas regionais. Uma obra de centenas de milhões de euros era “entregue” a empresas regionais!? Não haverá senso suficiente para entender que isso seria uma clamorosa ilegalidade?! Desrespeita todo o regime de contratação pública de Portugal e é altamente injusto para quem, no final do dia, paga cerca de um terço das nossas contas. Para que isso fosse possível, seria necessário esconder as contas públicas. Faz-vos lembrar alguma coisa?

E que dirá o povo? O povo açoriano, penso eu, não gosta. Eu, parte do povo, não gosto nada. Tenho esperança que optemos por não ser enxovalhados como outros estão a ser por causa das suas opções de longo prazo.

Quero frisar que esta minha observação está longe de ser partidária. Esta é uma questão particular a quem prevarica. Da mesma forma como vejo a oposição dos Açores e o Governo da Madeira, vejo o Governo da Grécia, a Câmara Municipal de Felgueiras (em que a Presidente fugiu para o Brasil para não enfrentar a justiça e a seguir foi eleita) ou o mais recente caso da Câmara de Oeiras. Nos casos dos eleitos, são o resultado de populismos fáceis e recompensados pelo pouco reflectido voto popular!

Em qualquer destes últimos casos não houve qualquer dúvida da culpa de quem os praticou. Segundo o julgamento, a Presidente da Câmara de Felgueiras foi ilibada dos crimes de que era acusada, mas, para mim, será sempre culpada de ter virado as costas à justiça refugiando-se noutro país.

Eu, pessoalmente, já fui prejudicado pela clamorosa ineficiência da justiça portuguesa. Apesar disso, dificilmente viraria as costas à luta, principalmente se isso adviesse da minha actividade como gestor público, por muito que me custasse. Mas, se por acaso tal acontecesse, esconder-me-ia para todo o sempre tal a vergonha. Estas pessoas não o fizeram, apresentando-se como os escolhidos que estão acima da lei e o mais curioso é que o povo gostou.

O povo gosta, o povo permite, o povo estimula e o povo é beneficiado. Quanto a mim, o povo que procede desta forma também deveria ser corrigido. Não me parece normal que quem elege estes dirigentes, que nos prejudicam colectivamente, seja beneficiado com as obras públicas que resultaram da aldrabice. Sendo mais concreto, neste momento, por exemplo, penso que se deveriam colocar portagens, para além das SCUTS do continente, também nos túneis da Madeira. Posto de outra forma, então quero o meu túnel entre a Horta e a Praia do Almoxarife, já!

Vivemos num regime parecido ao da Cidade Estado de Esparta, na antiga Grécia, em que os cidadãos eram punidos por terem sido apanhados e não por terem cometido o crime. Hoje, a grande mudança é que, mesmo sendo apanhado, continua a não haver punição. Tem que mudar, tem que mudar depressa e tem que mudar já!