Quo Vadis Incêndios?

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O luto impera em todos e em cada um de nós, e o Tribuna das Ilhas, como é seu timbre, não podia deixar de se associar ao luto de Portugal, ao luto e à dor daqueles que perderam os seus bens, mas, sobretudo, daqueles que perderam os seus entes mais queridos.

Nós choramos com eles e por eles.

A tragédia de Pedrógão Grande que ceifou de forma horrenda e inimaginável, até ao momento, a vida de 64 pessoas e o dia 17 de junho de 2017 ficarão para sempre gravados na nossa memória.

O que se passou naquela localidade mostra a realidade de um país que, com os sucessivos governos, não conseguiu implementar uma política de responsabilização criminal para quem não cuide, para quem não limpe as matas, as suas florestas.

Mas a verdade é que é muito difícil de aplicar, no terreno, qualquer legislação referente a esta matéria. Isto porque, apesar de Portugal ser um país pequeno, tem milhares e milhares de pinhais que os seus proprietários não sabem onde ficam, ou não querem saber, e, por isso, não os limpam, originando combustível para a ignição dos incêndios. Mas não nos esqueçamos que o Estado Português como maior proprietário de terras deste país é o primeiro a dar o exemplo do que não se deve fazer.

Há muitos anos atrás os Serviços Florestais controlavam a floresta, impedindo a existência e a deflagração de tantos incêndios. Mas, graças à teimosia dos governos, estes serviços florestais, a sua capacidade humana e técnica e as chamadas casas dos Guardas Florestais desapareceram e com eles o surgimento do descontrole da floresta e do seu ordenamento. Por isso, estes incêndios devastadores e estradas ladeadas, ao longo de quilómetros, com pinheiros e eucaliptos.

Tem razão aquele queescreveu a propósito desta tragédia “em Portugal corre-se o risco de se ser incinerado numa estrada”.

As pessoas, sobretudo idosas, das aldeias em volta de Pedrógão, não quiseram abandonar os seus bens, porque sabiamque há falta de meios para ocorrer a estas situações, e que se não fossem eles a guardar aquilo que conseguiram ao longo de uma vida mais ninguém o faria.Esta é uma “verdade de La Palice”.Só que se esqueceram de que um fogo daquela dimensão não se consegue apagar com meios humanos, só termina quando não houver mais combustível.

A partir de agora, depois de todas as perguntas, há que pensar no futuro, em como evitar que estas situações voltem a ocorrer.

Por isso, em primeiro lugar, importa preparar a limpeza da floresta no inverno para que não arda no verão,a profissionalização dos bombeiros, a redefinição dos meios ao dispor destes soldados da paz, dotando-os de mais pás e retroescavadoras e menos autotanques e mangueiras e, por fim,a reestruturação e reordenamento da floresta.

Todavia esta mudança de paradigma implica que os políticos e os cidadãos estejam sensíveis a ela.

O incêndio de Pedrógão Grande trouxe também consigo outras interrogaçõesrelacionadas com as constantes falhas do Sistema de Comunicações de Emergência do Estado (SIRESP)que necessita de ser melhorado, pois, segundo os peritos, foi devido à sua falha que se desviaram as pessoas para a chamada “estrada da morte”, que fazia parte do perímetro do incêndio e que devia estar interdita. Basta ler o relatório oficial ao grande incêndio do ano passado na zona do Alandroal, para concluir que, desde esse momento até hoje, nada foi feito para solucionar este problema.

E, por último, mas não menos importante, há que tirar ilações e consequências politicas deste incidente, pois há semelhança do que aconteceu na tragédia da Ponte de Entre-os-Rios, em que Jorge Coelho, Ministro da Administração Interna da altura, não hesitou em se demitir, assumindo a responsabilidade política pelo sucedido, também aqui há que encontrar responsáveis políticos, pois encontrar outros culpados é muito difícil, atendendo a que o incêndio começou ocasionado por uma trovoada seca e por um raio que caiu em cima de uma árvore.

Tudo isto num só dia e a denominada época de incêndios ainda agora começou.

João Paulo Pereira

jpp.diretor.tribunadasilhas@gmail.com

 

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