Retalhos da nossa história – CCXXXVII José Nestor Ferreira Madruga, um “distinto cavalheiro” que foi governador civil

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Uma sucinta notícia de O Telégrafo de 30 de Novembro de 1914 informava que “o distinto cavalheiro da nossa terra” José Nestor Ferreira Madruga seguia no vapor San Miguel para Lisboa, “na companhia de sua consorte e filha”, a fim de fixar residência na capital portuguesa.

Tratava-se de um respeitável ancião de 81 anos, nascido na cidade da Horta (freguesia das Angústias) em 6 de Agosto de 1833[1], o qual, pelos cargos que assumira e pelas funções que exercera, se tinha tornado figura de destaque nas ilhas do Faial e do Pico, fazendo jus ao qualificativo daquele jornal.

Filho de João Inácio Ferreira, de São Mateus do Pico, e de D. Maria Luísa Pereira Madruga, das Angústias, onde casaram e residiam, José Nestor teve 12 irmãos e, após os estudos complementares, integrou o quadro de funcionários do governo civil da Horta, começando como amanuense e chegando ao topo da carreira, sendo aposentado “com a pensão anual de 400$000 reis fortes”[2] em Março de 1889.

 Durante 30 anos, acumulou as funções oficiais no Governo Civil com as de amanuense na “casa da roda” da Horta, aí colocado em 1860 por escolha do chefe do distrito, conselheiro António José Vieira Santa Rita. Num anexo do Relatório do Governador Civil da Horta ao Ministério do Reino desse ano – ao tratar-se do grave problema dos expostos nas ilhas do distrito – refere-se que “a escrituração daquele estabelecimento [casa da roda] está na melhor ordem e regularidade, sendo devido este satisfatório resultado ao bom desempenho e inteligência do empregado do governo civil, encarregado da escrituração, o sr. José Nestor Ferreira Madruga[3]”.

Foi também nessa época, mais precisamente em Julho de 1862, quando uma onda de agitação popular varreu o concelho da Madalena – e depressa se propagou a outras localidades do Pico e a toda a ilha do Faial – que o governador Santa Rita recorreu aos serviços competentes de Ferreira Madruga. Os povos, habilmente manipulados pelos mais poderosos que seriam os prejudicados com a entrada em vigor da contribuição predial e do sistema decimal de medidas, opuseram-se a elas de forma violenta e inconsciente, recorrendo a espancamentos de autoridades, “maltratando os empregados da Fazenda, ameaçando todos e reduzindo todo o concelho a uma completa anarquia; em vista do que todas as autoridades se demitiram”[4]. Foram estas circunstâncias que levaram o governador civil a entender conveniente mandar como administrador para aquele concelho alguém estranho à localidade, nomeando para o cargo o amanuense da secretaria José Nestor Ferreira Madruga que, acompanhado de um reduzido destacamento de 8 soldados, 1 cabo e 1 sargento, partiu para a Madalena a 14 de Julho e lá foi procurando atenuar a violência desse “Verão Quente” de 1862!

Estas comissões de serviço, bem como o exercício de outros cargos – ele foi, sucessivamente, membro da Junta de Paróquia das Angústias, mesário e provedor da Santa Casa da Misericórdia da Horta, procurador do Conselho de Distrito e juiz de direito – são reveladoras de que Madruga era um funcionário diligente, considerado e sabedor.

Exerceu, por várias vezes, as funções de secretário-geral do Governo Civil e pouco antes da aposentação foi agraciado, por decreto de 15 de Março de 1888, com a mercê de comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição, distinção que, por iniciativa própria e por razões que se desconhecem, não quis receber.

Dedicou-se, a par da sua vida profissional, à vitivinicultura – com prédios em São Mateus do Pico e no Varadouro do Faial – e à indústria da cal, havendo notícia de que “em 1864 obteve o apoio incondicional do morgado José do Canto” para construir um forno de cal na Canada do Porto Pim (hoje rua Príncipe Alberto de Mónaco), actividade em que investiu de novo em 1896 “construindo um forno no lugar do Pasteleiro, freguesia das Angústias”[5].

Proprietário e veraneante no Varadouro, José Nestor Ferreira Madruga teve papel de relevo na reconstrução da actual Ermida de Nossa Senhora da Saúde. Estava ela em ruínas, num terreno comprado por Joaquim Silveira Bettencourt, tendo sido este que requereu e obteve, em 1887, a indispensável autorização do bispo de Angra para a restaurar e a tornar em lugar digno para a celebração eucarística e outros actos de culto. Para esse efeito, associou-se com três outros proprietários de terrenos e de casas naquela localidade: Francisco Pamplona Corte Real, José Silveira Goulart Cirilo e José Nestor Ferreira Madruga, cabendo a este promover uma subscrição de angariação de fundos, não só para o restauro da ermida mas também para a reconstrução de um “barracão [casa de banhos] onde encontrassem abrigo as pessoas pobres que vão tratar-se às águas termais do Varadouro” e que, vindas “ de várias pontos desta ilha e do Pico” ali acorriam em grande número e que “pela falta de meios e de extrema pobreza”, se viam “obrigadas a dormir em qualquer parte que podiam arranjar, sem nenhumas comodidades, até nas grutas da costa”[6]. Os três jornais então existentes no Faial – O Fayalense, O Atlântico e O Açoriano – publicaram regularmente e de forma bastante detalhada as dádivas da subscrição liderada por Ferreira Madruga. Entretanto, as obras de reconstrução começadas em 1888 ficaram concluídas um ano depois, tendo ocorrido a sagração da Ermida a 22 de Agosto de 1889, em cerimónia presidida pelo ouvidor eclesiástico da Horta, Pe. José Leal Furtado, previamente autorizado pelo bispo diocesano.

Amigo e correligionário do controverso conselheiro Miguel António da Silveira, líder distrital do Partido Progressista, deputado e governador civil do distrito da Horta desde 11 de Fevereiro de 1897, José Nestor Ferreira Madruga foi então nomeado seu substituto, assumindo o exercício pleno da chefia do distrito em várias ocasiões, a última das quais decorreu ininterruptamente de 4 de Janeiro a 20 de Julho de 1899, data em que Miguel da Silveira foi exonerado daquele cargo. Apesar dos inevitáveis ataques de que foi alvo – mais por ser íntimo de Miguel da Silveira, cujas tropelias e ilegalidades ficaram registadas para a posteridade – Ferreira Madruga era distinguido, mesmo pelos seus adversários políticos que tinham no diário regenerador O Globo o principal arauto, pelos “dotes de inteligência, cultura e prática administrativa” e “pela sua delicadeza de modos e processos” em flagrante contraste com “as brutais desconsiderações e provocantes galegadas do sr. Miguel António”.[7] No desempenho das funções de primeiro responsável pela vida pública distrital, Ferreira Madruga procurou “ir no caminho da conciliação e do restabelecimento da ordem”, mostrando “a conveniência de se acatarem os direitos de cada um”.[8]

José Nestor Ferreira Madruga casou na paroquial da Candelária, ilha do Pico, a 9 de Novembro de 1878 com D. Maria Maciel da Cunha. Contava ele 45 anos e ela apenas 20, sendo ambos naturais e moradores na freguesia das Angústias da cidade da Horta. Tiveram uma filha, D. Maria Luísa Maciel Ferreira Madruga, nascida a 22 de Julho de 1880 que casou a 16 de Junho de 1898 na Matriz da Horta com o tenente de artilharia Francisco Rodrigues de Morais e um filho João Inácio Ferreira Madruga que, ainda jovem, emigrou para os Estados Unidos.

José Nestor Ferreira Madruga faleceu em Lisboa no dia 3 de Março de 1917. Contava 83 anos de idade.


[1] Livro  nº 8 Baptismos Angústias (1830-1835), fl. 48-v

[2] O Açoriano, 3 Março 1889

[3] O Fayalense, 13 Julho 1862

[4] A. L. Silveira Macedo, História das Quatro Ilhas …, vol. II, p. 293

[5] Rui Sousa Martins, in Horta Faial – Inventário do Património Imóvel dos Açores, pp. 55 e 56

[6] O Açoriano, 15 Julho 1888

[7] O Globo, 22 Novembro 1897

[8] Idem, 9 Janeiro 1899

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