Retalhos da nossa história – CXXX: Governador Francisco de Andrade Albuquerque

0
25

Na sequência da remodelação ministerial, feita por José Luciano de Castro em Abril de 1905, o titular da pasta do Reino passou a ser o Dr. Eduardo Coelho que, de acordo com o Chefe do Governo pôde, finalmente, resolver a contento dos progressistas locais, o imbróglio em que se transformara a situação do governador do distrito da Horta. Assim, a 4 de Julho de 1905 eram publicados dois decretos; um, de exoneração do Dr. António Joaquim Durães – ele que, apesar de nomeado em 26 de Novembro de 1904 nunca chegou a vir exercer o cargo – e outro que empossava naquelas funções o Dr. Francisco de Andrade Albuquerque que, “por seu procurador”, prestou juramento em 10 de Agosto de 1905 . Esta não foi, contudo, uma solução fácil. Disso nos dá conta o Correio de Lisboa – jornal em cuja fundação muito se empenharam o escritor Rodrigo Guerra e o militar e político Henrique Linhares de Lima – quando em Maio noticiava que “por imposições da política progressista deste distrito tem sido sustada a nomeação de governador civil para a Horta” ou que, na capital portuguesa se “propalou a notícia de que seria nomeado governador civil da Horta o sr. Dr. Francisco de Albuquerque” . O Telégrafo ia transcrevendo estas “novidades” e registava, já no termo daquele mês, que “diz o Correio de Lisboa que se tem falado no sr. Visconde de Borges da Silva para governador civil da Horta” , anotando, em Julho, que “consta-nos terem sido nomeados governador civil efectivo da Horta o sr. Dr. Francisco de Andrade Albuquerque e substituto o sr. Visconde Borges da Silva”.  

Esta era, finalmente, uma notícia precisa e verídica, embora de morosa concretização, já que antes da chegada do Dr. Andrade Albuquerque, o Visconde Borges da Silva assumiu interinamente, mas em plenitude, as funções de governador civil. 

De fervoroso e destacado regenerador, era um progressista de fresca data, havendo tomado posse em fins de Julho de 1905, facto que o levou a receber na “sua vivenda dos Flamengos”, onde veraneava, os cumprimentos “de muitas pessoas, pela sua ascensão ao alto cargo de chefe do distrito” . Não terá sido, porém, muito feliz o seu breve mandato, a fazer fé nos artigos demolidores do brilhante jornalista António Baptista publicados no diário O Telégrafo que, sob o título genérico Pro Pudor, verberava a sua má prestação, sobretudo na epidemia de varíola (as “bexigas de mau carácter”) e na infeliz e pindérica recepção à poderosa esquadra britânica comandada pelo almirante Henry May. Por este excerto de um daqueles escritos, inserto na edição de 26 de Agosto, se vê como o “jornalista mais lampejante que houve no Faial” caracteriza os erros do Visconde Borges da Silva: (…) ”Senhor governador civil, devemos-lhe o fiasco, a vergonha que pesa sobre nós todos, faialenses; humilhou a nossa terra … humilhou-nos a nós todos; como jornalista, desembaraçado de peias partidárias, abertamente o acuso e condeno, sentindo de todo o coração que me não tivesse dado ensejo de mais uma vez o aplaudir e elogiar, o que bastante desejava e bastas vezes tenho feito como amigo sincero e desinteressado”.

Seria, portanto, grande a expectativa que rodeava a chegada à Horta, a 27 de Setembro de 1905, do governador civil, conselheiro Francisco de Andrade Albuquerque. Este “micaelense ilustre, altamente considerado”, que já fora chefe do distrito de Ponta Delgada de 31 de Maio de 1897 a 23 de Junho de 1900, veio com a família, teve a esperá-lo os dirigentes progressistas locais, funcionários públicos, elementos populares e a filarmónica Artista Faialense que “tocou o hino nacional, entre o estalejar de alguns foguetes”. Tomou posse no dia imediato, “na presença de alguma autoridade e políticos governamentais” , havendo posteriormente recebido, em audiências de cumprimentos, os dirigentes das estações de cabo submarino, os empregados da repartição da Fazenda e Recebedoria, a Câmara Municipal da Horta e o Administrador do Concelho. 

Aguardava-se que o novo magistrado, “pelas suas qualidades de inteligência e de carácter”, deixasse “assinalado o seu governo, dando uma nova orientação à política do distrito e pondo termo à corrente de suspeições que têm envolvido as autoridades locais, dando aso a violentas campanhas e acusações extraordinárias, que comprometem a dignidade dos homens que estão à frente dos partidos e, por consequência, a dignidade também de todos os que os apoiam. Contando com a absoluta confiança do sr. José Luciano de Castro, como conta, e devendo facilmente conquistar gerais simpatias no distrito, pelas suas raras qualidades” era expectável que o novo governador civil não encontrasse “embaraços na sua administração que será austera e digna” . A avaliar pela imprensa, o conselheiro Francisco de Andrade Albuquerque, que parecia reunir todas as condições para desempenhar com êxito as suas funções, acabou por ser um fracasso, sobretudo porque o sistema rotativista estava moribundo e os dois actos eleitorais realizados em 1906, apesar das pírricas vitórias de regeneradores e de progressistas, ficaram marcados pela instabilidade e pela ascensão dos regeneradores-liberais quando, em Maio de 1906, o Dr. João Franco foi nomeado Presidente do Conselho de Ministros pelo rei D. Carlos. 

Entretanto, falecera a 2 de Março o histórico líder dos progressistas locais, conselheiro Miguel da Silveira, e o governador Albuquerque havia sido exonerado em 22 desse mesmo mês. Uns dias antes, em extensa “Carta Aberta ao Sr. Governador Civil”, António Baptista – que se confessava “independente, isento e estrénuo defensor da terra e das gentes” e que “nunca fora regenerador ou progressista” pois combatera “os desmandos dos regeneradores quando governavam”, como agora verberava “as tropelias dos progressistas” – lembrava o entusiasmo com que o recebera, as esperanças nele depositadas e a crescente desilusão de que se viu apossado quando o viu cercado, envolto e apertado “pelas inspirações particulares de índole traiçoeira” .

O conselheiro Francisco de Andrade Albuquerque regressou a São Miguel a 29 de Março de 1906, sendo homenageado três dias antes pelo Barão da Ribeirinha que lhe ofereceu um baile em que participaram pessoas das suas relações.

Filho de Mateus de Andrade Albuquerque e de Joana Rebelo Raposo do Amaral, nasceu em Ponta Delgada a 16 de Março de 1856 e casou duas vezes: a primeira, com Emília Rebelo Freitas da Silva, de quem teve dois filhos: Guiomar de Freitas Andrade Albuquerque Bettencourt e Mateus de Andrade Albuquerque Bettencourt; a segunda, com Maria Teresa de Sá Baptista, de quem não teve geração. Bacharel formado em Direito pela Universidade de Coimbra, do Conselho de Sua Majestade, foi jurista e político ligado ao partido progressista e exerceu, entre outras funções, as de governador civil dos distritos de Ponta Delgada e da Horta. Faleceu em Lisboa a 23 de Fevereiro de 1933. 

 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO