A Alegria como modo de ser. (Em jeito de homenagem ao senhor Mário Frayão)

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É difícil tentar escrever seja o que for sobre uma pessoa absolutamente extraordinária, como o senhor Mário Frayão, que fez 90 anos de idade no último dia 5 de outubro e lançou um novo livro no dia 6. É também inevitável pensar que as palavras de apreço que aqui expresso, no jornal Tribuna das Ilhas – jornal fundado na energia transformadora do seu sonho, na sua convicção em melhorar o debate de ideias, contribuindo, inquestionavelmente, para o enriquecimento da vida democrática ilha do Faial – pouco acrescentam, pois, a sua longa, criativa e sábia existência fala por si mesma. No entanto, desejo fazê-lo porque este é um momento marcante da sua vida e merece ser relembrado.
Começo por falar do homem que conta histórias que nos divertem e nos provocam o riso até as lágrimas. Quem não se lembra das bem-humoradas Crónicas Alegres? Quem não se lembra das personagens e situações irónicas, algumas patéticas, a forma como descreve os tiques, as peripécias deliciosas e hilariantes das suas personagens, que inevitavelmente nos fazem soltar gargalhadas? Porque o humor, a alegria, a crítica sublimada são o pretexto do senhor Mário Frayão para nos convidar a trilhar um percurso de aberta, autêntica e divertidíssima comunicação.
Enquanto leitora dos seus textos, constato que as imagens que plasma nos seus diálogos são tão vivas, tão cómicas e tão imaginativas, que para além de constituírem um convite à boa disposição e ao prazer da leitura, são altamente cinematográficas.
Quanto ao amigo, admiro-o pela sua inteligência ativa e inconformada e pela sua generosidade. A coerência do seu pensamento e das suas convicções políticas, ao longo da sua longa vida, traduziu-se num envolvimento ativo na vida coletiva desta pequena polis: no teatro, no cinema, no jornalismo, na escrita, na política, afetando culturalmente a esfera pública. O poder político da arte e da intervenção social não se expressam no poder dos números, mas na alegria, na consciência crítica e na verdade da comunicação. Desde que o conheço, em nenhum momento expressou algum tipo de ressentimento ou memória magoada do passado (e tenho conhecimento que teria razões objetivas para isso). Ama incondicionalmente a sua ilha. Ama incondicionalmente a vida.
Com 90 anos de idade continua a recusar o conformismo, o azedume e a amargura depressiva dos desmancha-prazeres. O seu ser, a forma como vê, como comunica o que vê; a forma como o traduz nas palavras; como capta o anedótico; evoca memórias felizes, divertidas ou insólitas, é um reflexo da plenitude sua vida naquilo que escreve.
A criatividade é uma das receitas prescritas mais eficazes para combater algumas doenças como a Alzheimer, aterosclerose, etc, mas também o egoísmo, a maledicência, a mesquinhez e é, sem sombra de dúvida, um lugar por excelência de liberdade de pensamento e de longevidade.
Parabéns, senhor Mário Frayão, pelos seus 90 anos, pela lucidez, pela alegria e pela sua amizade. 

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