“A sociedade não se baseia na troca, o socius é uma instância de inscrição: o que interessa não é trocar mas marcar os corpos, que são da terra.” Gilles Deleuze

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Dirigiam-se para a Praia do Bispo em busca de uns cambas com quem costumavam nadar e procurar caranguejos no areal. A manhã estava solarenga, como é hábito naquelas bandas, e as gentes salpicavam as ruas a caminho dos mercados da baixa carregando imbambas várias que haveriam de ser trocadas por outras no círculo infindável dos quereres. O primeiro a aparecer foi Douro, adolescente reguila nascido e criado na Samba entre brigas e rusgas que apesar da má fama mantinha próximo de si muitas garinas, dizia–se que era por ter lá no fundo um coração de ouro, isso e o seu pai com o hábito de dizer que tinha um filho d´ouro valeram-lhe a alcunha.

 

– Mingota vais aonde ?

– Vou na praia.

– Fica próximo do barco, mais tarde vou te procurar. Diz D’ouro piscando o olho.

– Vais me procurar mais p`ra quê ?!? Responde Mingota irritada.

– Como é garina fica cool eu sei que estás zangada com o que se passou da última vez mas tens de entender que nós homens somos mesmo assim. Deixa-me reunir os avílos, mais tarde agente se fala.

 Mingota e Nzogi retomaram a marcha enquanto D´ouro, trocista, dizia:

– E vê lá se começas a trazer pitéu, isso de vir toda a hora só com o canuco não dá. 

 

O sol estava já alto quando o grupo se reuniu à volta do barco varado no areal, eram sete, todos adolescentes exceto Nzoji que era um pouco mais novo. D´ouro apressou-se a subir no barco acompanhado por Dadinha, menina doce, de ancas largas e peito generoso, os outros ficaram no sol a jiboiar. No interior da embarcação, enredados na impossível privacidade das redes e aparelhos de pesca, os corpos suados entregam-se à descoberta, entre carícias e gemidos, das humidades do sexo. O ritmo das investidas de Douro entre as ancas de Dadinha, reverberado pelo casco de madeira, é acompanhado silenciosamente pelos outros, deitados na areia do lado de fora com as mãos dentro dos calções, aliviando-se cada qual como pode. Mingota se afastou, visivelmente irritada, levando Nzoji em direção a Xavier um miúdo do Kuito com um sorriso lindo que entretanto sentou pertinho da água rasgando estradinhas na areia molhada. Com os pés porque ambos os braços foram amputados depois de um acidente de “pesca” . “Pescou” mina.

 

– Quero montar uma banca lá no Roque, diz Xavier.

– Xê Xavier você vais montar banca você próprio ?!?

– Sou eu mesmo.

– Como então ?

– Com o resto, os pés, a boca, os olhos… Esses é que estão comigo.

 

Mingota e Nzoji olham um para o outro algo surpreendidos.

 

– Venham! diz Xavier num pulo. Correria até à água. Um mergulho. Os outros correndo se juntam todos na água. Ondas de calor junto ao chão, Xavier deitado coçando a cabeça na areia os outros em fundo.

 

– Pôxa Xavier logo uma banca, diz Douro.

– Sim é mesmo isso que eu quero. Bem aquilo que desejo mesmo é que os braços voltem, durante muito tempo senti que ainda estavam comigo, à noitinha conseguia até vê-los e brincar com eles, mas agora não. Agora tenho só desejo deles. É estranho como sempre queremos o que nos tiram nunca o que nos deixam.

– Ai?!? Então não estavas a contar com o resto que ficou?

– Sim mas tenho de ser realista, sem braços nunca poderei…

Douro interrompe:

– Não é impossível, pelo contrário, tudo é possível, tudo se torna possível. Até canuco sem braços montar banca no Roque.

-Temos que dar um jeito. Diz Mingota do fundo dos seus olhos verdes, vestígios do pai cabo-verdiano, ao mesmo tempo que cospe um pedaço de cana d´açúcar. Ela própria vira com seus olhos Zelão das Asas, um dos personagens da novela a que todos assistiam na TV do Desportivo da Samba, voar como passarinho. Depois disso quem lhe havia de dizer que pessoa não voa. Certo dia chegou até a jogar-se do alto do morro convencida que voava, escapou de morrer por pouco, graças a uma buganvília que lhe aligeirou a queda, mas nem mesmo os arranhões e a dor na bunda lhe fizeram mudar de ideias. Mingota conserva ainda a capacidade de acreditar nas coisas, mesmo nas mais insólitas.

 

– Vais então abrir banca de quê? Pergunta Nzoji.

– Banca de sandália assim tipo xupa cócó. Responde Xavier que já havia pensado e repensado o assunto, depois de observar atentamente a realidade à sua volta notou que uma matéria-prima abundava na samba: pneus velhos, sua borracha podia ser transformada em solas para pés descalços, esses também abundavam.

– Xupa cócós?!? Exclamam os outros.

– Sim. Podíamos até ser cúmplices. Diz Xavier.

– E quem faz as sandálias? Perguntam os outros.

– Nós próprios fazemos, não é dificil. Logo ali se decidiu que a “manufatura” das sandálias ficaria a cargo de Xavier em pura colaboração com Mingota e Nzoji, D´ouro, Dadinha e os outros haveriam de passar as redondezas a pente fino em busca da matéria-prima. Lançaram-se ao trabalho.

 

Glossário:
Cambas - Amigos
Imbambas - Coisas, sacos, caixas
Garinas - Miúdas, meninas
Rusgas - Ações da policia militar de "caçar" adolescentes para a tropa/guerra
Jiboiar - fazer como as jibóias que ficam ao sol a aquecer o sangue, ficar na preguiça
Avílos - Amigos, companheiros
Pitéu - Comida, alimento
Kuito - Cidade capital da provincia angolana do Bié onde a guerra foi particularmente destrutiva
Mina - Engenho explosivo usado na guerra
Canuco - Criança, miúdo
Roque - Famoso mercado informal em Luanda
Bunda - Rabo, traseiro