“Antes morrer que voltar a Marrocos”

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DR/TI
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“Quero viver bem», disse o jovem migrante que deambulava, faminto, pelas ruas de Ceuta, ao repórter da RTP.
Todos nós vimos as imagens de milhares de homens, mulheres, crianças e jovens, vindos de Marrocos e de outros países de África, chegarem a nado a Ceuta. Vimos chegar um desses jovens, com o peito rodeado de garrafas de plástico, a servir de flutuador, e a tentar a fuga, implorando ao guarda, em lágrimas, que não o devolvesse a Marrocos. Outro, que decidira pôr termo à própria vida, outros ainda que vagueavam, esperando a oportunidade para passar para o continente europeu.
Para além das questões políticas – a preocupação da Europa face à onda migratória ou ao incumprimento dos acordos estabelecidos com Marrocos para conter os migrantes africanos – , só podemos sentir compaixão e empatia, pois são tão profundamente dramáticas estas imagens que é impossível ficar indiferente.
Mas a minha empatia para com os que sofrem não diminui em nada o seu sofrimento. No entanto posso e devo colocar algumas questões: o que origina este êxodo para a Europa? O que sabemos das condições em que vive a maioria dos povos de África? O que faz o mundo rico para diminuir a pobreza e combater as redes de corrupção? Um dos objetivos do milénio era acabar com a pobreza extrema em 2020. Por que razão esse objetivo não foi alcançado? Por que razão o capitalismo selvagem cresceu e se multiplicou com a globalização e a sociedade digital, quando tudo faria supor o contrário? Quais as consequências da desumanização, esta incapacidade de fazer da humanidade «o nosso destino comum»? Por que razão a ignorância, a ausência de pensamento crítico prolifera de uma forma tão dramática, num mundo em que o conhecimento está universalmente disponível? É paradoxal, mas é uma evidência!
Todos sabemos, intuitiva e vivencialmente, que a evolução biológica, adaptativa, de todos os seres vivos, decorre da luta pela sobrevivência. Quando os ecossistemas que habitam se degradam, com falta de água e de alimento, as populações migram e procuram ambientes mais favoráveis à vida. Os seres humanos dependem, como qualquer espécie, das condições ambientais que lhe garantam a sobrevivência. Quando esta não está garantida, procuram condições que viabilizem a vida; em suma, migram.
Numa Europa envelhecida, há que repensar as políticas migratórias. Que este caminho de mar, de pedras, de acidentes e peripécias, ao longo da costa de Ceuta ou no mediterrâneo, são apenas incidentes que irão repetir-se e agravar-se no futuro. «Il vaut mieux mourir en mer que devant sa mère.», dizia um jovem subsariano, há poucos anos. E o princípio é este: morrer de fome ou morrer no mar? Morrer por morrer, então morra-se na perseguição do sonho, da liberdade, da integridade. Perseguir o sonho de «uma vida boa» para si e para a sua família é um projeto humanamente justificado.
No entanto, o que fazem os políticos? Uns fazem chantagem porque querem os milhões que a Europa paga para impedir a passagem de migrantes (Marrocos; Turquia); outros fazem discursos em Bruxelas, que nada mais são que palavras e ecos redondos nas esferas políticas,
E os que lutam por sobreviver? Os que são perseguidos pela miséria mais abjeta? Os que não têm água para saciar a sede e são sem esperança diante da voragem alienante do nosso tempo? Bebem algum projeto de futuro diante de muros de arame farpado, da miséria coberta de silêncio, das pedras que comem e ferem o palato? Faz-se alguma luz no pó dos caminhos?
Milhares de corpos desesperados, quais pedras derradeiras, arremessam-se às águas, em Marrocos. Uma corrente trágica, a da degradação humana que cresce e se multiplica, a nível global… E nós? Assistimos no sofá e distanciamo-nos do humano. Distanciamo-nos de nós próprios, do que de humanidade existe em nós. Decididamente, esta não é a via… 

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