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Associação para o Desenvolvimento e Formação do Mar dos Açores | “É chegada a hora de mimar o que é nosso”

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A Escola do Mar dos Açores (EMA), inaugurada a 30 de julho de  2020 recebeu recentemente a certificação enquanto entidade formadora por parte da  Direção-Geral de Recursos Naturais (DGRN). Na primeira grande entrevista ao  Tribuna das Ilhas Ana Rodrigues,  diretora executiva da instituição, abordou o primeiro voo com uma aeronave não tripulada  num aeroporto totalmente civil, a desejada Zona Livre Tecnológica, os prédios da antiga Rádio Naval  e, em geral, o presente e futuro da atividade da Associação para o  Desenvolvimento e Formação  do Mar dos Açores (ADFMA),  entidade gestora da escola que chegou a “velocidade de  cruzeiro”.

Tribuna das Ilhas (TI) – No dia 5 de julho deu-se o 1.º voo de um drone, o OGS42 da Marinha Portuguesa, num aeroporto civil, neste caso o da Horta, resultado da colaboração da tutela com a associação e a Marinha. Este momento abre portas a quê?

Ana Rodrigues (AR) – Desde logo às profissões emergentes que queremos trazer para a EMA, nunca descurando as tradicionais. Estamos a investir afincadamente em drones, operadores de drones, operadores de gliders – inclusivamente através de uma parceria e cedência da vice-presidência, que está a acabar de se legitimar, sendo os fiéis depositários do glider, da manutenção e componentes técnicas.

Os drones permitirão a monitorização do nosso mar, mas mais do que isso, até pela sua capacidade de voo e sustentabilidade, gastando um litro de combustível numa hora. Conseguimos rapidamente, por exemplo, identificar pela câmara uma situação de busca e salvamento. São aparelhos de voo regulamentados como se de uma aeronave se tratasse e permitem voar em circunstâncias que outro aparelho,          particularmente o tripulado, não voa.

Estamos também a estudar a atividade com Remotely Operated Vechicles (ROV), com grande enfoque na investigação para conhecermos verdadeiramente o mar profundo.

TI – Neste momento estão abertas as inscrições para o curso profissional de técnico/a de construção naval/embarcações de recreio, o primeiro com horizonte temporal de três anos a ser ministrado. No entanto, a EMA é muito mais que uma escola profissional.

AR – Até agora a EMA dotou cerca de 1000 pescadores de Segurança Básica, algo que era uma necessidade premente.

Dotamos a Atlânticoline, que tinha grande necessidade, de marinheiros maquinistas, e de todos os outros cursos que compõem o designado STCW (International Convention on Standards of Training, Certification and Watchkeeping for Seafarers), para estarem devidamente orientados para exercer a sua profissão, mesmo noutras embarcações.

Estamos com o projeto Pescador+, de dupla cerificação, a começar em setembro. É profissionalizante de pescador, e ao mesmo tempo habilita-os com o 4.º e 6.º anos, respetivamente. São muitos homens que não tem escolaridade, muitos nem os seus próprios dados pessoais conseguem preencher.

Estamos também a fazer a certificação em manobra de gruas. Os acidentes aconteciam devido à utilização indevida constante. Em parceria com a Mútua de Pescadores conseguimos um seguro para os pescadores que utilizam as gruas, através da sua associação, e para as marítimo-turísticas, investigadores e cientistas que utilizam as gruas.  Agora estão devidamente segurados. Tudo isto porque temos parcerias que têm percebido o nosso âmbito. Somos mais do que uma escola ou uma associação per si. Temos muito para dar, preciso é saber receber.

Não só trabalhamos na componente formativa, através da EMA, como já fazemos parte da Rede Regional de Incubadoras, para fazer a ponte com o TECNOPOLO Martec. Há já muitas empresas interessadas, que trabalham no cluster do mar.

Para que se viva, com os mais novos, um ambiente de empreendedorismo, estamos a trabalhar na terminologia “empreendedor azul”. Queremos que os nossos alunos possam estar num ambiente onde há empresas a funcionar, onde há vontade comercial e que aquilo que eles fazem possa ser replicado. Tudo caminha para que possamos ser um chamariz de alunos, alinhado com a nossa estratégia internacional.

Também veio para cá a Estação Costeira Açores.Temos agora dois sítios, um em São Miguel – que já existia e dotamos de equipamentos novos – e fizemos uma redundância na EMA.

TI – Foi manifestado, em abril, o vosso interesse em criar nos Açores uma Zona Livre Tecnológica (ZLT), onde poderão ser testadas novas tecnologias aéreas e marítimas. Em que ponto estamos?

AR – Para a Agência Nacional de Inovação (ANI), qualquer pessoa e entidade pode concorrer a uma ZLT, desde que seja idónea para o efeito. Nós neste momento temos um elenco de parceiros, como o Massachusetts Institute of Technology (MIT), que corroborou a 100% a vontade de se juntar, dizendo que a ADFMA é idónea. Neste momento existem duas em Portugal, a de Tróia e a de Matosinhos, criada a semana passada.

Nos Açores, com os corredores de Ar, Superfície e Mar Profundo que dispomos, podemos ter a maior ZLT da Europa. A ideia é trazer todo o know how possível. As empresas vão-se fixar, a UAVision já pensa em fabricar componentes aqui. Esta relação com os players dá vida à Escola.

É também por isso que todos os faialenses  se deviam orgulhar deste espaço onde se poderá fazer testes de todo o âmbito.

TI – Que tipo de testes? Como explicar o que é uma  ZLT e que impacto tem na vida das pessoas?

AR- Permite testes de todas as novas tecnologias. Um protótipo poderá ser aqui testado, sem entropias, e regulamentado. É como se fosse um aeroporto: peço um slot e utilizo. Trará mais gente, mais dinheiro, mais famílias que se podem fixar. Voltarmos ao que era a Estação Rádio Naval, trazermos vida ao Faial.

O próximo passo é apresentar à Agência Nacional de Inovação um esboço final.

Podemos ter aqui um espaço que em nada interfere na vida do cidadão, todo o ano. É das maiores fontes de desenvolvimento que existem, potenciará a economia regional. A Madeira também está a desenvolver a sua.

É com alguma tristeza que vejo que eles estão a ter todo o apoio e nós estamos a ter pessoas a duvidar. Temos o know how interno e há um carinho maior que se precisa dar ao que temos.

TI –  Há muita expectativa com o que pode ser a EMA. Além disso há dois investimentos a avançar – a construção do novo navio de investigação e o TECNOPOLO , e temos o Departamento de Oceanografia e Pescas. Estamos bem posicionados no que a Economia Azul diz respeito?

AR – Juntando uma ZLT, teremos como que a cereja no topo do bolo. A EMA, a mais mediática, está verdadeiramente na sua velocidade de cruzeiro.

Vamos trabalhar paulatinamente em vários cursos profissionais e de certificação conforme as necessidades do mercado.  Somos uma escola ambulante, sedeada no Faial, mas damos formação nas nove. É uma logística intensa.

Temos feito muito por amor à camisola, para podermos ir ao encontro da expectativa das pessoas. Já é chegada a hora de nos deixarem trabalhar, não queremos ser arremesso político. Temos a certificação definitiva, temos imensos cursos homologados quer pela DGRM quer pela Certificar.  Do ponto de vista formativo estamos perfeitamente autorizados e temos um elenco de pessoas que são já formadores. Há um comprometimento em fazer evoluir a EMA. É chegada a hora de mimar o que é nosso e que pode ser um dos grandes pontos de sucesso dos Açores, entre outros, embora fale em causa própria.

Temos de olhar o mar com o respeito e toda a dignidade que tem de ser visto, por isso é que somos uma associação para o desenvolvimento do mar dos Açores.

TI – Foi dada a conhecer uma novidade no final de junho:  estão-se a preparar para lançar o concurso público internacional para reabilitar os prédios habitacionais da Rádio Naval. Acaba por ser essencial para o desenvolvimento da própria escola.

AR – É a complementaridade. Se as pessoas estão ansiosas pela reabilitação destes prédios, nós também. Até porque estamos a fazer um caminho paralelo, as coisas não são feitas de um dia para o outro. Não vamos reabilitar prédios sem percebermos se podem ser reabilitados. A primeira coisa a fazer é um estudo estrutural, que é o que estamos a fazer.

TI – Então o processo já está a decorrer.

AR – Está. Queremos perceber se os    prédios estão aptos a ser reabilitados ou não. Só depois disso, porque se começa pelos alicerces e não pelo telhado, é que vamos saber o que fazer. Vamos imaginar que o estudo diz que os prédios são para demolir: todo o orçamento, todo o concurso vai por água abaixo porque são processos completamente diferentes.

Ninguém está parado. Há necessidade por parte da população, mas também precisamos nós.

Aliás, devo dizer que é a 1.ª vez que nos estão a ouvir. Já alguns instrumentos de democracia foram aplicados, e muito bem, quem sou eu para os questionar, mas nunca nos ouviram. Quais são os nossos planos? Trazer valor acrescentado ao Faial.

TI – Neste seguimento, estão desde 24 de outubro por cá. A verdade é que desde o início do mandato deste Governo Regional foi difícil manter uma direção duradoura, para manter e desenvolver um projeto destes é necessária estabilidade. Sente confiança política?

AR -Sim, e aí tenho de ser justa e referir que o secretário regional do Mar e das Pescas tem sido inexcedível no seu apoio. Muitas vezes o apoio é deixar-nos trabalhar, e tem sido verdade.

Uma referência também ao senhor presidente do Governo Regional que tem acreditado  e acredita porque percebe o valor que tem a médio e longo prazo para os Açores.

TI – Toda esta estrutura, a EMA e a associação: como as vê daqui por cinco anos?

AR – Não estou a trabalhar para o meu mandato, mas sim para daqui por cinco a dez anos. Queremos ser uma referência nacional e internacional, entre escolas do setor da Economia Azul.

As próprias entidades internacionais que nos tem vindo visitar, nomeadamente a EFCA, mandou-nos um agradecimento e louvor pelo trabalho que fazemos cá. A própria secretária de Estado das Pescas, Teresa Coelho, diz que neste momento devemos ser das melhores escolas do país. Há que nos orgulharmos.

TI – Sente que há preconceito em relação à EMA por ter sido arma de arremesso político?

AR – É altura de pensarmos que o passado é passado e só serve para fazer um presente e futuro melhores. É hora de não nos focarmos no passado, ele é conhecido e foi o que foi, com coisas boas, ou por vezes com o que foi possível fazer.

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