Covid-19: Sociedade de Oncologia considera que testar doentes antes da quimioterapia é vantajoso mas difícil

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A Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO) considerou hoje que realizar testes à Covid-19 aos doentes antes da quimioterapia tem “toda a vantagem”, mas admitiu ser difícil de colocar em prática pelo número de exames que têm de ser efetuados. Ana Raimundo, presidente da SPO, defendeu também que é preciso começar a recuperar progressivamente e de “forma muito cuidada” as consultas, exames e tratamentos que foram adiados, priorizando os casos mais urgentes.

Uma norma da Direção-Geral da Saúde (DGS) refere que os doentes oncológicos mesmo assintomáticos devem ser testados para a infeção pelo novo coronavírus antes de cada administração de quimioterapia, antes e durante a radioterapia e antes da admissão para cirurgia.

Em declarações à agência Lusa, a presidente da SPO, Ana Raimundo, considerou que “existe uma certa lógica em esses exames serem realizados”, mas existe alguma dificuldade na sua prática.

“É realmente uma medida que é questionada e até de certa forma contestada por alguns profissionais, porque realmente exige a realização de um grande número de testes como se pode compreender”, afirmou.

A oncologista explicou que há regimes de quimioterapia semanais que se os doentes forem testados todas as semanas poderá implicar a realização de “milhares de testes”.

“Sob o ponto de vista teórico, tem toda a lógica realizá-los porque se nós detetarmos o doente positivo vamos evitar submetê-lo a uma quimioterapia que é um tratamento imunossupressor que vai reduzir as suas defesas e aumentar a probabilidade de complicações associadas ao tratamento” e, portanto, “tem toda a vantagem”.

Mas, do “ponto de vista prático, não é fácil de ser implementado pelo número de doentes oncológicos que todos os dias fazem tratamento de quimioterapia”.

“Será que temos uma logística que permite ter testes para todos? Muito honestamente não sei. Os próprios doentes também questionarão embora percebam a lógica”, disse Ana Raimundo.

A presidente da SPO explicou que os testes à Covid-19 não podem durar mais do que 48 horas para se poder fazer a quimioterapia, até porque os doentes têm de realizar outro tipo testes como análises ao sangue para saber se está tudo bem para poder fazer o tratamento.

“É uma logística complicada, mas volto a dizer que sob o ponto de vista teórico tem todo o interesse para distinguir os doentes que são positivos, poupando-os a um tratamento que é imunossupressor”, reiterou.

Ana Raimundo contou que já foram detetados casos positivos de Covid-19 em doentes assintomáticos cujo tratamento de quimioterapia foi suspenso até ao doente negativar,

Segundo a norma da DGS para Reconfiguração dos Cuidados de Saúde na Área da Oncologia, os “doentes oncológicos com infeção confirmada devem suspender o tratamento até resolução da infeção”.

No caso da radioterapia esta também deve ser adiada quando o doente dá positivo. Quando tem mesmo de ser realizada, “os doentes devem ser referenciados para unidades hospitalares capacitadas para o tratamento de doentes Covid-19”.

Relativamente às cirurgias, a DGS refere que no caso de não poder ser adiada, o doente deve ser operado em hospitais com circuitos específicos para doentes Covid-19.

No entanto, para os pacientes oncológicos não afetados pela Covid, o tempo não espera, e após uma primeira fase em que os serviços tiveram de se organizar para apoiar os doentes infetados com o novo coronavírus, “agora temos de passar a uma nova fase que é realmente recuperar aquilo que foi adiado”, disse Ana Raimundo à agência Lusa.

A oncologista comentava desta forma o anúncio feito pela ministra da Saúde, Marta Temido, de que a resposta dos serviços de saúde aos casos não urgentes de doentes sem Covid-19 tem de começar “nos próximos dias” de uma forma programada.

Para a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), é preciso reiniciar “progressivamente, priorizando os casos que são mais urgentes, uma atividade assistencial mais programada e não urgente”.

“Agora temos que continuar a trabalhar muito porque temos que recuperar todo o trabalho que esteve parado, porque estivemos a fazer outro tipo de trabalho”, frisou.

Na primeira fase do combate à pandemia, muitos doentes oncológicos quiseram adiar consultas e alguns pediram para interromper a quimioterapia, o que “é compreensível”.

Passada esta primeira fase, “as pessoas vão começar a ver que provavelmente o pior já passou”.

“Temos que manter todos os cuidados que mantivemos até aqui, mas provavelmente podemos começar a fazer o seguimento e os tratamentos que estão indicados e os médicos têm que ser o veículo para transmitir a segurança aos doentes para que voltem a procurar os serviços de saúde de forma racional e ordenada”, salientou.

Sobre a possibilidade de se recuperar eventuais danos causados pela pandemia, Ana Raimundo afirmou: “Em alguns casos espero que sim e provavelmente noutros não, mas só o tempo o dirá”.

“Teremos que depois olhar para os dados e comparar com o período homólogo de outros anos e ver realmente o que é que aconteceu, mas acho que haverá consequências desta paragem”, afirmou.

Para a oncologista, o facto de os novos diagnósticos de cancro não terem sido feitos durante este período, assim como rastreios e outros exames “pode eventualmente condicionar mais tarde um diagnóstico mais tardio”.

Quando o cancro é diagnosticado em estádios mais avançados é mais difícil de tratar e tem menor possibilidade de cura, “mas só o tempo dirá”.

A oncologista citou um estudo que aponta um aumento da mortalidade no primeiro trimestre deste ano em Portugal e noutros países que não é justificada apenas pelos casos Covid-19.

“Muito provavelmente existirá também um aumento da mortalidade por outras causas para outras doenças que não a Covid-19, mas acho que de uma certa forma isto é uma consequência que seria de esperar porque os serviços tiveram de se reorganizar porque também não era seguro tratar esses doentes naquela primeira fase”, afirmou.

Segundo a oncologista, os serviços não estavam preparados para esta nova forma de trabalhar, para ter agendamentos mais espaçados e não ter aglomerados de utentes nas salas de espera, para poder assegurar condições de segurança a todos os doentes.

Por outro lado, os doentes tinham medo de procurar os serviços de saúde e só iam ao hospital quando já “não conseguiam aguentar mais os sintomas”.

Para Ana Raimundo, “é importante” passar a mensagem aos doentes de que, “com racionalidade e com um agendamento mais espaçado no sistema de saúde, não devem ter medo neste momento de ir ao hospital”, mas antes de o fazer devem ligar para a linha SNS 24, uma “boa medida” que deve ser interiorizada.

Se tiverem mesmo que ir ao hospital não devem ter medo porque os serviços foram reorganizados, os circuitos já estão bem estabelecidos e os profissionais estão bem alertados”.

A nível global, a pandemia de Covid-19 já provocou quase 127 mil mortos e infetou mais de dois milhões de pessoas em 193 países e territórios.

Portugal regista hoje 599 mortos associados à Covid-19, mais 32 do que na terça-feira, e 18.091 infetados (mais 613), indica o boletim epidemiológico divulgado pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Para combater a pandemia, os governos mandaram para casa quatro mil milhões de pessoas (mais de metade da população do planeta), encerraram o comércio não essencial e reduziram drasticamente o tráfego aéreo, paralisando setores inteiros da economia mundial.

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