Deslocação de médicos especialistas – mais um sinal

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1 A deslocação de médicos especialistas dos hospitais da Horta, Angra do Heroísmo e Ponta Delgada às ilhas sem hospital, constituía um património de progresso assinalável na área da Saúde nos Açores. Permitia prestar serviços mais especializados com grande proximidade aos habitantes das ilhas sem hospital. E, nessa medida, o acréscimo de qualidade que essa política garantia parecia ser indiscutível.

2  A verdade, porém, é que este Governo, com a desculpa de proceder à reorganização do Serviço Regional de Saúde, suspendeu, em 2013, todas as deslocações de médicos especialistas às ilhas sem hospital, para as retomar, sob novas regras, em janeiro de 2014. E o efeito não poderia ter sido mais perverso: obrigou muitos açorianos dessas ilhas, por falta de resposta especializada na ilha e ou no setor público, a terem de recorrer às clínicas privadas fora das suas ilhas; ou, então, ainda pior, obrigou muitos doentes, face aos sobrecustos com transportes, estadia e pagamento de consulta privada, a simplesmente desistirem de se tratar por falta de meios financeiros, como, aliás, se verificou nalguns casos tornados públicos, e aguardar vez na lista de espera!

3  Os números da redução das deslocações dos especialistas às ilhas sem hospital são preocupantemente arrasadores. As estatísticas do próprio governo regional são eloquentes: 

4 E se olharmos ao número de especialidades envolvidas, as contas são igualmente negras: 

5 E o que têm a ver estes números com o Faial, ilha servida com um dos três hospitais de referência nos Açores?

Mais do que à primeira vista possa parecer.

Esta razia que se verifica na deslocação dos especialistas às ilhas sem hospital tem de ser lida no contexto do que está escrito na página 22 do documento sobre a Reestruturação do Serviço Regional de Saúde, onde, recordo, se escreve o seguinte: 

“Atualmente existem três hospitais na Região com serviços similares e diferenciações próprias, mas com áreas de referenciação predefinidas.

 Considerando que a mobilidade crescente dos Açorianos permitiu criar laços que não respeitam a área de influência geográfica dos hospitais e que um dos objetivos da presente reestruturação é a humanização dos cuidados prestados, decidiu-se abandonar as atuais restrições relativamente ao encaminhamento dos doentes, para que o utente possa escolher livremente o hospital onde deseja ser tratado.”

6 Neste contexto, sub-repticiamente, parece-me evidente que estão a criar-se as condições para progressivamente se concentrar o maior número possível de consultas, exames, intervenções cirúrgicas e tratamentos num ou dois hospitais da Região, com maior número de especialistas, com maior diversidade de equipamentos e com muito maior capacidade de resposta. 

Hoje a redução é nas ilhas sem hospital. Seremos nós, amanhã, as vítimas?

02.02.2015

 

 

 

 

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