“Até hoje ninguém me disse nada, nem um pedido de desculpas. Nada, só silêncio. Tenho oito a dez hectares cheios de areia e um buraco cheio de água [com vários metros de profundidade], nada disto é da minha responsabilidade, está tudo assoreado e não sei como resolver a situação”, disse António Arnaut, perante a reportagem da Lusa, na zona onde já foi construído o aterro provisório que impede a entrada de água do Mondego, enquanto olhava os campos de milho desaparecidos debaixo da areia.
Para além dos sedimentos a perder de vista depositados no terreno de cultivo (e que, segundo os seus cálculos, afetarão outros cinco proprietários confinantes), o agricultor aponta os pedaços de laje de betão, parte do revestimento do canal de rega “que partiu e anda aí todo espalhado”, pedras de várias dimensões e pedaços de barro dos taludes do mesmo canal, uma árvore com vários metros de tronco e respetiva raiz ou bocados de carrinhos de supermercado “daqueles que a malta das Queima das Fitas em Coimbra lança ao rio”, entre os detritos ali colocados pela enxurrada pós-colapso do dique.
Residente em Coimbra e com casa de família em Formoselha, concelho de Montemor-o-Velho, o também engenheiro civil e engenheiro mecânico já tinha feito a colheita do milho, mas afirma que ainda não tem um orçamento dos prejuízos, nem sequer sabe se pode mexer na areia arrastada pelo caudal do Mondego e ali depositada.
“Eu não tenho seguro do dique, o dique não é meu, é da Agência Portuguesa do Ambiente, que é quem tem de resolver o problema. Não há seguro para uma situação destas e mesmo para as colheitas também não existe. Eu fiz, faço todos os anos, mas deixa de funcionar a partir de 31 de outubro, a partir dessa data as seguradoras põem-se de fora”, explicou António Arnaut.
Mesmo se antecipa “umas dezenas de milhar de euros só em movimentação de terras”, avisa que o solo “ficará empobrecido” depois disso: “É impossível retirar com exatidão a areia que está por cima e não tocar na terra que está por baixo, vai ser preciso remover tudo”, lamentou.
Profundo conhecedor do vale e da obra hidroagrícola, António Arnaut nota que falta “um verdadeiro plano de emergência” para situações de inundação no Mondego, com regras e disposições “concretas” sobre o que fazer, que juntem agricultores e outros beneficiários do canal condutor do Mondego e autoridades do Ambiente.
Desde logo, aponta a alegada falta de funcionamento dos quatro descarregadores existentes no leito principal do Mondego – três sifões a montante daquela zona, junto às povoações de Ameal, Taveiro e Casais e um dique fusível no Choupal, Coimbra – projetados para abrir em caudais entre os 1.200 e os 2.000 metros cúbicos por segundo (m3/s), direcionando a água para os campos agrícolas, “o que não sucedeu” na última cheia.
Por outro lado, naquela zona do Mondego, que ali corre em cinco ou seis curvas largas e sucessivas, por cerca de 15 quilómetros de extensão, entre as zonas de Pereira e Ereira – canal inexistente antes das obras de regularização e construído de propósito – foram projetados leitos de cheia em vários locais que hoje, assinala António Arnaut, dificilmente cumprem a sua função, concretamente na margem esquerda, por estarem “atulhados de árvores e arbustos, mais parecendo uma floresta à beira-rio”.
Outra barreira no rio Mondego, que, defende, devia ser “desmantelada de vez”, é a represa existente junto à ponte de Formoselha, “que era provisória, foi ficando e passou a definitiva”, diz António Arnaut.
Para montante, o leito do rio está cerca de metro e meio acima do existente abaixo da represa, situação visível a olho nu. O empresário agrícola explica que a barreira foi construída numa altura em que o canal de rega – que serve a agricultura, a indústria de celulose e o fornecimento público de água – “só existia rio abaixo, em direção à Figueira da Foz”, para permitir o seu abastecimento, mas que a diferença de cota e a rapidez que o caudal ganha na represa “põe em causa a segurança da ponte, como já aconteceu, mais do que uma vez”, alerta.

















