Embora esteja prestes a cessar funções como Embaixador de Israel em Portugal, Dor Shapira expressou, em entrevista ao Tribuna das Ilhas aquando da sua visita à ilha do Faial na passada semana, que não deixa de querer continuar a estreitar as relações entre o país e os Açores. O Embaixador reconheceu ainda que também há “muito interesse” por parte das autoridades açorianas em fortalecer essas mesmas ligações.
Tribuna das Ilhas (TI) – Que condições e circunstâncias proporcionaram a sua vinda à ilha do Faial?
Dor Shapira (DS) – A convite do Governo Regional, esta é a minha primeira vez no Faial, mas é terceira visita aos Açores, porque ao olharmos para trás, para as relações entre Israel e os Açores vemos alguns marcos. O primeiro é mais histórico. Temos a sinagoga em São Miguel e o cemitério judeu que nos conta a história da comunidade muito, muito importante que existiu aqui. E penso que é uma história importante que precisa de ser contada e de ser aprendida. Especialmente hoje em dia quando assistimos a um aumento do antissemitismo. Em segundo, o vosso aeroporto nas Lajes, onde costumavam parar os aviões americanos a caminho de Israel. Ainda hoje as nossas forças armadas continuam a utilizar esta rota porque faz parte da nossa ligação com a América. E a terceira é o aumento do interesse dos israelitas nos Açores. Isso vê-se no número de turistas. Eles estão a vir para cá. Estão interessados em visitar.
TI – Em que áreas se podem estreitar relações entre Portugal, através dos Açores, e Israel?
DS – Penso que existe um grande potencial de cooperação entre nós. Temos alguma experiência em tecnologia, em cibersegurança. Os Açores poderiam utilizar os nossos conhecimentos. Vocês também têm coisas para nos oferecer. Por exemplo, algo que estamos a tentar desenvolver cada vez mais em Israel é a questão da tecnologia azul. Algumas das vossas universidades estão a trabalhar muito bem nesse domínio. Por isso, queremos manter esta ligação, em que nós contribuiremos com os nossos conhecimentos e vocês trarão para a mesa os vossos. Há muitas coisas que podemos trabalhar em conjunto para obter mais benefícios para ambas as partes. Por isso, penso que existe um grande potencial. Estamos aqui para o explorar e, esperemos, levar ao próximo nível.
TI – Vê algum interesse por parte do nosso governo em estabelecer relações com Israel?
DS – Vejo muito interesse. E agora temos de aproveitar este interesse de ambos os lados e tomar medidas.
TI – Tendo em conta que já conhece os Açores, que comentários pode fazer sobre a realidade da região?
DS – Acho que é um dos sítios mais bonitos do mundo, com muito potencial. Eu sei e tenho discutido também com o Presidente sobre alguns dos desafios que estão a explorar aqui. Temos de enfrentar esses desafios e ver como podemos ajudar-vos a tirar mais partido das potencialidades que têm aqui. Penso que o Governo está a trabalhar arduamente nesse sentido, a fim de garantir que as próximas gerações permaneçam aqui, trabalhem aqui e desenvolvam este lugar. Nós estamos aqui para ajudar com isso, porque este lugar deveria ser um lugar de sucesso como é. Devido à sua beleza e à sua singularidade. Está localizado entre a Europa e a América. Têm muito para oferecer ao mundo. Por isso, faremos tudo o que pudermos para trabalhar em conjunto.
TI – Reuniu-se com o Presidente do Parlamento açoriano. O que é que nos pode contar?
DS – Antes de mais a maior parte das minhas reuniões são à porta fechada. Mas posso dizer-vos que falámos exatamente de tudo o que acabei de referir sobre como trabalhar em conjunto. Foi interessante ouvir falar dos desafios que têm aqui. Sei que também tiveram alguns desafios políticos muito difíceis. Como sabem, nós também tivemos um ano muito difícil em Israel. Por isso, ambos expressámos os nossos desafios nesse sentido. Mas a ideia principal da reunião é pensar em formas de trabalhar em conjunto para criar uma melhor cooperação entre nós.
TI – Falando agora sobre o conflito israelo-palestiniano. Como é análise faz do atual momento?
DS – Esta guerra começou a 7 de outubro com o mais terrível ataque terrorista que alguma vez vivemos. Nesse dia foi registado o maior número de judeus assassinados desde o Holocausto. Só para perceber. Se compararmos com o 11 de setembro, é 20 vezes o 11 de setembro. Foi isso que vivemos no dia 7 de outubro. Gostava de esclarecer que esta guerra não é contra o povo palestiniano, é contra uma organização terrorista que tomou conta dos palestinianos na Faixa de Gaza, o Hamas. E a nossa guerra tem três objetivos. O primeiro é trazer de volta a segurança ao povo de Israel. Assim, podem voltar a viver nas suas casas sem recear que aconteça outro ataque terrorista como este. A segunda é garantir que esta organização terrorista sai de cena. Porque enquanto controlarem a Faixa de Gaza, os palestinianos não têm um verdadeiro governo que os represente. E estamos a deixar uma organização terrorista ganhar. E isso é algo que nós que vivemos no Ocidente e em países democráticos não queremos permitir. E a terceira é trazer de volta os 120 reféns que ainda temos na Faixa de Gaza. E só quando atingirmos estes três objetivos é que esta guerra terminará. Agora há negociações. O Presidente Biden pôs em cima da mesa um acordo que já aceitámos. Se essas negociações resultarem na consecução dos três objetivos que mencionei, a guerra terminará dentro de três segundos. Caso contrário, teremos de manter a pressão para atingir esses objetivos. Por isso, espero sinceramente que consigamos lá chegar.
TI – Tem conhecimento de portugueses que estão a viver perto da zona de guerra?
DS – Dos 120 reféns, há um grupo de 10 pessoas com ligações portuguesas e com nacionalidade portuguesa. Portanto, também há portugueses feitos reféns em Gaza. E das 1300 pessoas que foram assassinadas neste ataque terrorista, cerca de 20 tinham nacionalidade portuguesa. Por isso é importante que também o povo português e o Governo português façam pressão para garantir e exigir a libertação dos reféns. Porque, antes de mais, eles são seres humanos. Não importa a sua nacionalidade. Não me interessa se são portugueses, israelitas, chineses. Não me interessa mesmo nada. São 120 pessoas inocentes que estão a ser mantidas como reféns. Têm de ser libertadas. Mas pelo facto de também serem portugueses, penso que isso coloca Portugal ainda mais na posição de exigir a sua libertação e de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que sejam libertados.
TI – Está perto de cessar funções como Embaixador de Israel em Portugal. Acha que os Açores e Israel ficaram mais próximos durante o seu mandato?
DS – Espero que sim porque esse é um dos objetivos das minhas visitas: torná-los mais próximos. Como eu disse, estivemos muito perto disso com um voo direto pela primeira vez. Penso que estamos no bom caminho. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas estamos no caminho certo.















