Ex-presidente da agência espacial lusa aponta falta de “massa crítica”

0
14

A ex-presidente da agência espacial portuguesa considera que Portugal é reconhecido como local para desenvolver projetos no setor do espaço, com empresas estrangeiras a quererem instalar-se no país, mas apontou à indústria nacional falta de “massa crítica”.

Chiara Manfletti – que cessou funções como presidente da Portugal Space na segunda-feira, um pouco “mais cedo” do que previsto, por “razões pessoais” – fez, em entrevista à agência Lusa, um balanço do seu mandato, que terminaria no fim de 2020, mas que classificou como “ótimo“.

A engenheira aeronáutica italo-alemã, que esteve cerca de ano e meio na liderança da agência espacial portuguesa, regressa hoje à Agência Espacial Europeia (ESA), onde vai dirigir, na Holanda, o Departamento de Políticas e Programas, que tem a incumbência de definir as políticas e os programas futuros para o espaço na Europa.

Chiara Manfletti, que foi consultora do diretor-geral da ESA, considera que o setor do espaço em Portugal “é vibrante” e está a crescer, com o país a ser reconhecido no exterior como um local para desenvolver projetos.

A ex-presidente da Portugal Space disse, sem nomear, que há “muitas empresas” estrangeiras que “querem vir para Portugal” e estabelecer “parcerias com empresas portuguesas”.

Segundo a engenheira aeronáutica, Portugal está, por isso, em melhores condições para competir com outros países europeus, mas, acima de tudo, para colaborar e ser um “parceiro de confiança”.

O facto de Portugal ter uma agência espacial, copresidir ao Conselho Ministerial da ESAórgãogovernativo, ter uma agenda política para o espaço e de assumir em janeiro de 2021 a presidência do Conselho da União Europeia torna o país “um parceiro sólido e reconhecido por outros países”.

Para Chiara Manfletti, o que está a faltar ao país, para que possa estar entre os melhores no setordo espaço, é a “massa crítica na indústria” nacional.

A presidente cessante da agência espacial portuguesa entende que o envolvimento das empresas portuguesas em projetos de fôlego com raiz em Portugal, como a construção de uma constelação de microssatélites para observação da Terra, permitirá capacitálas e tornálas fornecedoras de serviços ou, mesmo, líderes em segmentos de negócio.

Justificando a importância do investimento no setorManfletti assinalou que o espaço “fornece soluções para outros setores” da economia, como transportes e energia, “beneficiando o país como um todo” e potenciando novos empregos.

Portugal fixou como meta para o setor espacial, em 2030, a criação de mil postos de trabalho e uma faturação anual de 400 a 500 milhões de euros nas empresas.

A antiga líder da Portugal Space defende que o país, apesar de não ter um programa de exploração do espaço, “em parte” devido à falta de recursos financeiros, “tem sido inteligente” ao participar em missões científicas europeias com esse fim, nomeadamente nos domínios da física solar, dos planetas extrassolares (exoplanetas) e do clima espacial.

Chiara Manfletti considera ainda que Portugal “pode ser ativo” na produção, por exemplo, de novos materiais, testados em ambiente de microgravidade.

O arquipélago dos Açores, para onde está prevista a construção de uma base espacial para lançamento de pequenos satélites, na ilha de Santa Maria, é apontado pela ESA como uma das localizações adequadas para a aterragem do Space Rider, um veículo reutilizável de transporte de carga que permite fazer experiências na órbita terrestre baixa durante dois meses, como testar tecnologias de observação da Terra, de exploração robótica e telecomunicações.

Manfletti acalenta, neste contexto, um sonho para Portugal: Que os Açores possam promover voos suborbitais e serem uma região de turismo espacial.

Quanto a haver astronautas portugueses, responde, questionando: “Porque não?”

“Na verdade, é muito simples. Há concursos europeus. Se muitos portugueses se candidatarem, as hipóteses de serem selecionados aumentam”, sublinha.

Chiara Manfletti foi condecorada na quinta-feira pelo Governo com a Medalha da Defesa Nacional de 1.ª classe pela “forma exemplar” como desempenhou as suas funções na Portugal Space, uma distinção que a deixou “profundamente honrada”.

Uma das missões da Portugal Space, constituída em março de 2019, visa promover novas atividades e negócios no setor espacial, em particular na observação da Terra com pequenos satélites, e facilitar uma maior participação do país nos programas europeus, da ESA e da União Europeia.

Sobre a sua estada em Portugal, a engenheira aeronáutica, com dupla nacionalidade italiana e alemã, resumiu-a como “uma aventura maravilhosa”.

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO