Por: Simão Dias
O paintball ganha cada vez mais amantes. Nos Açores, a associação Milhafres de Tinta é uma das grandes impulsionadoras deste desporto a nível regional. Por ser uma realidade com ainda muito por crescer, o Tribuna das Ilhas conversou com Francisco Dutra, sócio fundador da instituição e ficou a conhecer como é a modalidade e quais as dificuldades que esta enfrenta.
Tribuna das Ilhas (TI) – Já alguma vez tinha trabalhado com esta modalidade?
Francisco Dutra (FD) – Sim, sou sócio fundador da Milhafres de Tinta. Andamos há cerca de 15 anos no mercado, só que sempre fizemos jogos em São Miguel. Entretanto saí do Exército e vim para o Pico e o paintball morreu por lá e cresceu por cá. Passados dois anos no Pico, tivemos várias crises dentro do clube e por isso decidi criar um projeto em que ia às escolas dos Açores dar formação. Fomos às escolas do Pico, de São Jorge, do Faial e de São Miguel e começamos outra vez a angariar praticantes. Mais tarde quando comecei a ter mais liberdade pessoal, fui novamente a São Miguel e fui convidado a mudar a direção que estava no Pico para lá, para conseguir mais apoios. Eu aceitei, contudo isso obrigou a mais gastos ainda uma vez que tinha de ir a São Miguel fazer jogos e como a direção não tinha dinheiro, tinha de pagar do meu bolso. Comecei então a pensar que já chegava de amadorismo e que devíamos tornar esta associação mais profissional. A partir daí comecei a pedir apoios às Juntas de Freguesias de todas as ilhas. Não é fácil, as pessoas sabem que é um desporto que é barato, mas se não houver verbas, não se consegue fazer nada. Vou dar um exemplo: fiz um torneio aqui em que gastei 150 euros do meu bolso e com a participação de cerca de 30 pessoas, consegui recuperar o meu dinheiro e também aumentar os sócios no Faial. A questão é que há problemas financeiros e para combater isso pensei em fazer uma coisa em grande, em que convidei o parapente e o airsoft para se juntar, com o intuito de o Governo olhar para nós. O meu objetivo final é que o Governo perceba que isto é, o que eu chamo aqui há 15 anos, turismo radical. A malta vem cá fazer atividades como subir a montanha do Pico, visitar a Lagoa das Sete Cidades, vem aqui ao Faial dar umas voltinhas. No entanto nós queremos que o pessoal venha cá visitar os Açores através do desporto. Por isso aqueles praticantes que fizeram vídeos connosco serão partilhados para o mundo inteiro. Isto tem um objetiv. Só que o Governo perceba que nós somos uma fonte de rendimento de turistas. O Governo quando perceber isso vai dar-nos mais atenção e consequentemente, ajudar mais. Ninguém sobrevive sem verbas muito menos uma associação. Portanto dois objetivos: trazer malta de fora e o que o Governo perceba que tem de olhar mais para as associações sem fins lucrativos.
TI – Como começou a sua paixão pelo paintball?
FD – Eu estava em São Miguel, a servir no Exército. Estive durante 15 anos nesta ilha. Nesse tempo fui convidado por um clube para praticar, mas tive de pagar 10 euros. Faltou bolas e fiquei um bocado zangado. Quando se compra um produto queres ficar com ele até ao fim, mas o paintball é como um parapente, é um vício. Mas nessa experiência fui mal recebido e maltratado. Não passou a fatura. Mas pensei em voltar lá e voltei, só que voltou a haver problemas. Pensei cá para mim: como é que esta malta quer evoluir se não são profissionais? E então perguntei se podia juntar-me. Tive várias reuniões com eles, angariei imensos sócios para o clube de paintball dos Açores, mas mesmo assim eles não se organizavam e por isso pensei que isto não poderia ser assim. Porque quem gosta do desporto, tem de ter frutos, tem que chegar ao fim de duas horas sempre pronto a trabalhar e por isso comecei a comprar material velho. Ao fim de dois ou três meses já tinha mais material que o clube. Pensei: se eles não são organizados e não me deixam entrar no sistema, eu próprio vou montar o meu sistema. Então criei esta associação dos Milhafres de Tinta. Não havia dinheiro, tirei do meu bolso e comecei a competir com o clube. Depois comecei a ser conhecido dentro dos torneios e a obter algumas ajudas financeiras e comecei a pensar que este desporto não deveria ser só local. Por isso comecei a pesquisar pela história do paintball e do amor dos americanos por este desporto, então pensei que para além do clube, deveria ter uma parte mais empresarial e então comecei a trabalhar com estrangeiros e comecei a perceber que era uma forma de promover os Açores. 15 anos decorridos e depois de reuniões com o Governo, eles nunca perceberam que isto era uma fonte de rendimento de turismo, daí esta ideia. Espero que passado estes anos o Governo perceba que isto é uma fonte de turismo.
TI – Como é para si trabalhar todos os dias com algo que gosta?
FD – É gratificante e além disso o paintball trabalha tanto a nível físico como a nível psicológico. Isso eu observo muito nas crianças.
TI – Qual é a sua visão para o futuro?
FD – O Faial vai ter muitos atletas. Quando organizamos festas de anos há sempre duas ou três crianças que se querem tornar sócias e que querem praticar. Mas aí voltamos a bater na mesma tecla. Cada caixa de bolas custa 50 euros para chegar aos Açores e se trabalhar com 50 crianças, vou precisar de pelo menos três caixas e 150 euros para uma associação que não tem fundos.Voltamos sempre a bater na tecla.
TI – Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
FD – Eu gostaria de acrescentar que o que nós estamos a fazer é aquilo que eu chamo de ano -1. Nós temos a certeza do que vamos fazer de 13 a 21 de agosto, vamos replicar em maio, mas já vamos replicar uma vertente mais profissional da minha parte. Eles são profissionais, mas da minha parte como organizador faço uma promessa que de inverno virá muitos mais profissionais, porque o making off do que aconteceu agora, desses vídeos, vão chegar a nível nacional. O nosso projeto não é apenas a nível nacional, mas sim europeu. Queremos fazer um convite aos clubes todos de parapente da Europa, de paintball e airsoft e mais uma vez, queremos que o Governo perceba, que isto é uma aposta séria.














