Norberto Serpa chegou recentemente à Horta a bordo do seu veleiro Taka Três, depois de uma etapa da sua viagem de circum-navegação. Ao longo deste percurso, tem promovido, com o seu exemplo, um outro modo de se estar no mar – mais lento, mais atento, mais respeitador. É um feito notável. E, no entanto, passou quase despercebido.

Talvez o problema esteja na escala. Hoje em dia, se não há drone no ar, fogo de artifício ou uma multidão em terra, parece que nada aconteceu. Um veleiro não causa o mesmo impacto visual que um cruzeiro com quinze andares a atracar no porto. Não se ouve o rugido dos motores, nem se vê a manobra gigante a ser transmitida em direto nas redes sociais. Mas se olharmos com atenção, percebemos que, no silêncio discreto da vela, há muito mais mundo, muito mais valor, e muito mais futuro.
Durante décadas, o Dia de São Vapor foi celebrado em várias ilhas dos Açores como um momento de reencontro com o mundo. A chegada dos navios da Insulana de Navegação trazia familiares, novidades, mercadorias, notícias. Havia comoção, havia expectativa, havia festa. Era a forma da ilha respirar fundo e lembrar-se de que fazia parte de algo maior. Com a chegada dos cruzeiros, essa ligação perdeu profundidade e transformou-se em poluição – transparente, mas sufocante – que envolve a cidade a cada manobra destes gigantes do mar. Os turistas desembarcam por algumas horas e partem sem conhecer ninguém. A ilha serve de cenário, não de encontro.
Com a construção da Marina da Horta melhorámos as condições dos que por aqui passam todos os anos. São barcos pequenos, em comparação com os gigantes do turismo de massa, mas trazem muito mais do que turistas: trazem navegadores com histórias, saberes e percursos singulares. Trazem tempo, interesse e vontade de conhecer. Muitos acabam por criar laços com a ilha, regressam, envolvem-se, tornam-se parte da comunidade. Na semana passada, a chegada do Norberto Serpa pode ter sido o reaproximar da comunidade a esta forma de estar e navegar.
O que Norberto representa está longe de ser apenas uma aventura pessoal. O Taka Três não é apenas o seu barco: é um laboratório de ideias. A sua viagem é também uma missão de sensibilização ambiental e científica. O Norberto está a afirmar os Açores e o instituto OKEANOS como referência na investigação marinha e na sustentabilidade. Mas o nosso porto continua a querer abraçar a cultura dos mega iates e dos cruzeiros.
Enquanto cidades como Amesterdão ou Oslo impõem limites aos grandes navios e investem em portos com baixas emissões, nós continuamos a receber com entusiasmo os gigantes do turismo rápido, muitas vezes ignorando o impacto ambiental e económico que trazem. A verdade é que um cruzeiro deixa pouco na cidade – a não ser poluição e consumo apressado. Já um veleiro traz tempo, conversa, ligação. Deixa ideias, relações e respeito pelo lugar.
Na Horta, uma cidade que sempre viveu do mar e para o mar, deveríamos saber distinguir entre o que brilha à superfície e o que realmente enriquece. Talvez esteja na hora de reinventar o velho Dia de São Vapor e transformá-lo num Dia de São Norberto – um dia em que celebramos aqueles que viajam com sentido, que constroem pontes reais entre os povos e que trazem consigo não o peso das toneladas, mas o valor da experiência, da investigação e da cultura.
Num tempo em que o futuro do planeta depende, em grande parte, da forma como nos relacionamos com o oceano, são os navegadores ao sabor do vento que nos mostram o caminho. Cabe-nos, enquanto cidade aberta, sabê-los acolher como merecem.














