Digo muitas vezes que precisamos de ser uma cidade aberta, aberta ao mundo, às ideias, às pessoas. Mas uma cidade também precisa de se fechar, de se proteger. As ruas precisam de zonas protegidas. As escolas igualmente, precisam de espaços que acolham, por exemplo uma zona coberta, resguardada, onde os alunos possam esperar pelo autocarro (na ESMA, neste momento, esse refúgio não existe).

Tal como em casa temos lugares distintos para cada momento, um canto para descansar, outro para ler, outro para apanhar sol, também a cidade deve oferecer abrigo, sombra e conforto. Uma cidade aberta, mas sem lugares de pausa e proteção, é como uma casa sem telhado.
O vento, o calor, a chuva e a ausência de sombra são barreiras invisíveis, mas poderosas. O desenho urbano moderno esqueceu-se de que as pessoas são sensíveis, sensíveis aos elementos. E quando o espaço público se torna hostil, a escolha mais racional passa a ser o carro. Na Cidade do México, há uma grande praça com uma bandeira gigantesca. Quem a visita durante o dia procura a sombra e acaba por ficar alinhado com os outros turistas, todos em fila, à sombra do enorme poste da bandeira. É uma imagem poderosa da desumanização dos nossos espaços urbanos: lugares desenhados para serem vistos e fotografados, mas não para serem vividos, nem para acolherem vida.
Queremos ser uma cidade onde se possa caminhar e onde se incentive o comércio local, mas continuamos a não dar conforto a quem anda a pé ao sol e à chuva. Os passeios estreitos, os telhados sem caleiras, poucos abrigos e quase ausência de árvores em certas zonas tornam o percurso desconfortável e desafiante. É uma cidade linda, mas que às vezes se esquece de cuidar de quem a percorre. Se a única opção for o automóvel, acabaremos todos dentro dele e o espaço público tornar-se-á apenas um parque de estacionamento a céu aberto.
O simples gesto de plantar árvores ou instalar toldos ou arcadas pode transformar uma rua inteira. A presença de sombra convida ao encontro, à conversa, ao passeio. E quando as pessoas voltam a caminhar, a cidade ganha vida, comércio e segurança. A Horta precisa de mais desses gestos: proteger quem caminha, e quem pensa em caminhar.
As crianças e os idosos são os primeiros a sofrer com essa falta de abrigo. São eles que mais precisam de caminhar devagar, de parar, de descansar. São também os que mais beneficiam de uma cidade feita à escala humana (com sombras junto aos bancos, caminhos protegidos, e espaços onde se possa brincar ou esperar sem pressa). Só quando a cidade se torna agradável para os mais frágeis é que começa verdadeiramente a ser uma casa para todos.
Cidades como Paris, Copenhaga ou Pontevedra compreenderam que o conforto climático é parte da justiça urbana. Alargaram os passeios, arborizaram avenidas e criaram percursos pedonais onde o corpo pode respirar.
Se queremos uma Horta verdadeiramente aberta, temos de lhe dar também o direito de se fechar, com sombra, abrigo e cuidado.














