Bem pelo contrário, diz Costa, esta morte pode até “incentivar uma ampla rede de seguidores, incluindo aqueles que vivem nos Estados Unidos, para cometerem crimes violentos”, mostrando o risco de se ter feito de al-Baghdadi um mártir da causa ‘jihadista’.
No domingo, o jornal The Moscow Times citava uma fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo que desvalorizava a morte de al-Baghdadi, lembrando o caráter fragmentado do EI e dizendo que o seu Governo se continuaria a empenhar na derrota dos grupos terroristas, que se mantém ativos na região.
Ao anunciar que al-Baghdadi se fez explodir depois de ter sido encurralado num túnel subterrâneo sem saída, no noroeste da Síria, Trump reconheceu que o EI, que ele gosta de dizer que foi “100%” derrotado”, ainda tem ambições de regressar.
Na comunicação ao país, após a morte de al-Baghdadi, Trump acrescentou que a organização está “muito, muito fortemente interessada em se reconstruir novamente”.
Isso explica, comentou Trump, por que al-Baghdadi estava na província de Idlib, no noroeste da Síria, uma área amplamente controlada por um grupo rival – o Hayat Tahrir al-Sham, ligado à Al-Qaeda – embora outros grupos ‘jihadistas’ simpatizantes com o Estado Islâmico também estejam lá.
Teixeira Fernandes lembrou à Lusa que o EI perdeu muito do seu espaço vital, no Iraque e na Síria, e que esse espaço geográfico é muito importante para a organização, o que, mais do que a morte de al-Baghdadi, pode implicar dificuldades acrescidas em qualquer tentativa de reconstrução.
Contudo, mesmo já numa fase de desmantelamento, nos últimos meses, o EI reclamou a responsabilidade por vários ataques mortíferos: numa mesquita no Afeganistão, matando 70 pessoas num casamento; num mercado de Natal, em Estrasburgo, França, que matou cinco pessoas; numa catedral, nas Filipinas, que matou 22 pessoas; ou no Sri Lanka, onde várias bombas mataram mais de 250 pessoas.
Mas, seja qual for a consequência da morte de al-Baghdadi, Donald Trump poderá capitalizar politicamente com esta vitória ocidental sobre o EI, calando muitas das vozes que nas últimas semanas o criticaram pelo abandono das tropas norte-americanas do nordeste da Síria.
“Sem dúvida que este é um trunfo importante, sobretudo a meio de um inquérito para a sua destituição”, explica Teixeira Fernandes.
Mas, Dan Hoffman, antigo funcionário da CIA, que conhece bem o funcionamento dos grupos ‘jihadistas’ considera que o EI é uma organização muito descentralizada e que a remoção do seu líder pode até acicatar células adormecidas espalhadas por vários países para, de forma autónoma, retomarem a atividade terrorista.
E isso seria um enorme risco político para Donald Trump, a meses de uma eleição presidencial, que decorrerá em 2020.
“Não é o fim, mas o início de uma nova era. Uma nova era sob um novo nome de uma nova forma de terrorismo”, conclui o major general Ismail Almahalawi, um veterano que comandou a aliança internacional que combateu o EI no nordeste da Síria.