O tradicional bordado de palha sobre tule do Faial chegou à Paris Fashion Week pelas mãos da designer faialense Ana da Silva. Apresentada no histórico Hôtel Le Marois, a coleção “Her/itage: Her Written Roots” homenageia trêsgerações de mulheres da sua família e cruza memória, identidade e técnicas artesanais açorianas.
Há técnicas que passam de geração em geração e outras que, com o tempo, correm o risco de desaparecer. Não foi isso que aconteceu com o bordado de palha.
No passado dia 7 de outubro, esta arte sobre tule saiu do Faial e chegou a uma das principais montras internacionais da moda ao integrar a coleção “Her/itage: Her Written Roots”, apresentada pela designer faialense Ana da Silva no Hôtel Le Marois, durante a Paris Fashion Week.
Inspirada na bisavó, avó e mãe, a coleção procurou dar continuidade ao legado de três gerações de mulheres ligadas à costura e ao artesanato. A ligação ao Faial não ficou apenas na inspiração e chegou também à própria execução das peças.
Na confeção participaram Hildeberta Serpa, do Faial, a mãe da designer, Lurdes Baldaia, de Lisboa, e Carolina Silveira, do Pico. Já o tradicional bordado de palha foi executado pelas artesãs faialenses Lina Silva e Verónica Alves.
Uma coleção sobre mulheres, criada por mulheres
“Esta coleção é uma homenagem às mulheres que vieram antes de mim”, explica Ana da Silva, numa nota enviada à redação, recordando que eram mulheres “extremamente criativas”, mas que viveram numa época em que nem sempre tiveram oportunidade de transformar esse talento numa profissão.
“Hoje, tenho a liberdade de fazer aquilo que elas não puderam e sinto que, de certa forma, os seus sonhos continuam vivos através do meu trabalho.”
A coleção recorre também ao surrealismo para representar memória, identidade e liberdade. Olhos, pássaros e elementos semelhantes a gaiolas surgem nas peças como símbolos da criatividade transmitida entre gerações, mas também das limitações enfrentadas por muitas mulheres no passado.
Os pássaros representam a liberdade que nem sempre puderam exercer, enquanto as gaiolas remetem para barreiras sociais e profissionais que condicionaram as suas escolhas.
“Cada peça funciona como parte de um puzzle, no qual diferentes gerações contribuem para a construção de uma identidade única.”
Para Ana da Silva, esta participação em Paris assume, por isso, um significado que vai além da apresentação de uma nova coleção. “A criatividade destas mulheres nunca desapareceu. Simplesmente encontrou uma nova voz através de mim.”
Depois de já ter levado às passerelles internacionais referências à Marina da Horta, às aves do Faial e às cores dos Açores, a designer regressa agora às origens de forma ainda mais direta, através das mulheres da sua família e de um saber artesanal ligado à ilha.
“Esta coleção é a minha forma de continuar o seu legado, de honrar as minhas raízes e de transformar aquilo que herdei em algo que pertence ao futuro.”













