Início Artigos de opinião João Stattmiller Queria escrever um Requiem para o Jaime Baptista…

Queria escrever um Requiem para o Jaime Baptista…

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Quantus tremor est futurus,

quando judex est venturus,

cuncta stricte discussurus!

Passagem de Dies Irae do Requiem de Mozart

 

Faço desta vez uma pequena pausa nas ficções africanas confessando que hoje queria escrever um Requiem para o Jaime Baptista. Porque lhe devo a habilidade de poder escrever estas linhas, foi o meu primeiro professor, da primeira até à quarta classe, ensinou-me a ler e a escrever, entre tantas outras coisas que aprendi com ele.  A notícia da sua morte deixou-me um profundo sentimento de tristeza quase revolta perante a fragilidade da vida e a nossa impotência para contrariar o destino fatal que nos assombra. Desde a nascença estamos condenados a morrer, todos o sabemos, mas sempre fica um amargo na boca de cada vez que alguém próximo parte para os campos de Hades. Desta feita foi o meu querido professor, mestre, amigo que tão generosa e delicadamente me alimentou os sonhos de menino e foi mostrando alguns dos segredos desta vida efémera, das pessoas, do mundo, da natureza à nossa volta. Foi para mim uma figura paternal que a muitos níveis preencheu o vazio da ausência do pai biológico e a relação difícil com uma mãe bipolar. Na verdade o professor Jaime salvou-me, até de mim próprio e do destino insano que me parecia reservado. Cedo minha avó, que era formalmente a minha encarregada de educação, percebeu essa ligação especial entre nós e não seria por acaso o ritual de me mandar diariamente comprar o Correio da Horta para ler, quase religiosamente, as crónicas do “JB”. Da sua leitura surgiam por vezes lá em casa algumas conversas e debates sobre as questões da actualidade da época abordadas pelo “JB” nos seus escritos e que constituíam uma importante janela para a sociedade e a polis ao nosso redor. Normalmente, criança que era, não percebia bem o alcance dos textos do professor no jornal e muito menos as polémicas a eles associadas mas apreciava profundamente essa capacidade dele pôr as pessoas a pensar e a discutir. A sua presença era assim uma constante na minha vida, em casa pelo jornal e reflexão que provocava na minha avó, na escola como professor e mesmo nos tempos livres, aí talvez a mais interessante cumplicidade criámos. A sua antiga casa ao cimo da Rua Cônsul Dabney tinha uma pequena quinta e nos tempos livres acompanhava-o frequentemente aí, nas lides da terra e dos animais. Até nisso era diferente o professor Jaime, já na altura um apicultor dedicado e amante da columbofilia ensinou-me que as abelhas reconhecem quem trata delas com amor e os pombos também por amor voltam sempre a casa, ao ninho. Para demonstrar a sua teoria tratava das suas colmeias sem qualquer fato de protecção e sem recurso a fumo, ia só assim de peito aberto para o meio delas e ria, conversava com elas e só muito raramente era ferrado, quando tal acontecia prontamente se responsabilizava a si próprio dizendo que tinha sido um pouco bruto a fazer alguma operação na colmeia ou que não estava no melhor estado de espírito e elas sentiam. A culpa das ferroadas nunca era das abelhas. Percebi o seu amor por elas e de facto era tão raro ser picado que sempre acreditei piamente na sua teoria do relacionamento que nós humanos podemos ter, se quisermos, com as abelhas. Aos meus olhos de menino o mel era o resultado disso, desse amor, e bem vistas as coisas não será mesmo? Com os pombos era outra alegria, nunca gostei de ver pássaros engaiolados e em mim, já em criança, havia a convicção que se Deus lhes deu asas foi para voarem livres pelos céus. Adorava então ir soltar os pombos do professor Jaime, dava-me uma sensação de felicidade, um poder libertador. Saiam em bando do pombal e iam descrevendo grandes círculos no céu cada vez mais alto, ora para um lado, ora para o outro lá iam eles até os perder de vista. Mas para meu espanto sempre regressavam lá das alturas descendo em espiral sobre a quinta até entrarem de novo no pombal e invariavelmente cada casal para o seu respectivo ninho, nunca se esqueciam de voltar e nunca se enganavam no ninho. Tinham nomes próprios e características particulares que os diferenciavam, com o tempo até se percebiam diferenças nos caracteres e temperamentos, bem como as relações que mantinham entre si. Praticam a monogamia e normalmente nos pombos um parceiro é para a vida. Tudo isso ajudava o professor Jaime a pacientemente ir respondendo aos meus constantes questionamentos de forma educativa e muito criativa, às vezes quase poética outras com um humor delicioso que nos fazia rir a ambos naquelas andanças pela sua quinta. Foram momentos felizes de grata memória para mim. Foi naquela quinta que de forma mais pedagógica me foi dado a perceber o ciclo das plantas, das flores, das árvores. O tempo de plantar e de colher. Os sinais da terra e as implicações das estações do ano em tudo o que nos rodeia, num ciclo permanente do nascimento à morte, a beleza da floração, o milagre do ovo, a generosidade do fruto. Acho que a dado momento cheguei até a perceber porque voltavam os pombos ao pombal, porque não se deixavam simplesmente ficar na liberdade dos céus e de ir para onde quisessem como me parecia mais apetecível. É curioso como, tantos anos depois, eu próprio me lembrava tão vivamente desses episódios de infância e das palavras do professor Jaime, na preparação do meu regresso à ilha. Há dois anos atrás, numa visita de preparação antes do regresso e depois de quase três décadas sem o ver, percebi que naquela casa da quinta ao cimo da Rua Cônsul Dabney já não vivia o Jaime Baptista. Não me senti com coragem de rever aquele território sem ele, não fazia sentido. Ao perguntar alguém me disse que agora vivia lá para as bandas da Lombega e pouco mais adiantaram. Muitos nem dele se lembravam. O Correio da Horta já não existe, as crónicas do “JB” e as suas lições parecem ter ficado esquecidas na poeira dos tempos. Entristeceu-me esse esquecimento a que parece ter sido votado o meu querido professor. Estranhamente o mesmo acontece a muitos que tanto deram a esta ilha e às suas gentes, mortos e vivos. Não consigo deixar de pensar, confrontado com a sua partida, se já que não o soubemos colectivamente valorizar como merecia não seria da mais elementar justiça fazermos, agora postumamente, alguma coisa que ajude a perpetuar a sua memória para as gerações futuras e que fosse também uma homenagem a este homem que tanto deu de si a esta ilha e a esta gente. 

Como o destino nunca deixa nada ao acaso, na referida passagem pela ilha, acabei por me cruzar com ele casualmente num supermercado da cidade, apesar de muito envelhecido reconheci-o logo e fui ao seu encontro, vinha acompanhado do irmão pois já não estava capaz para conduzir como reconheceu com uma ponta de resignação. Naquele primeiro encontro depois de tantos anos os nossos olhares cruzaram-se e ele ficou na dúvida, os abundantes caracóis no cabelo da minha infância foram trocados pela calvície do tempo que passou e a figura daquele rapazinho que era mudou consideravelmente. Então onde foram parar os teus caracóis rapaz? Perguntou ele com ar de gozo e um brilhozinho nos olhos. Abraçamo-nos num abraço forte e profundo. O reencontro tinha acontecido finalmente e foi uma emoção muito forte. Agradeço a Deus ter tido ainda a possibilidade deste encontro nessa minha visita à ilha. Passámos o resto da tarde no estacionamento do supermercado a conversar, apesar da idade revelou ainda uma formidável memória e um espírito aguçado e pleno de vitalidade, deu-me valiosas dicas para o tal regresso que sonhava, fez uma análise profunda e verdadeira da realidade actual do Faial e ainda teve tempo de me falar de algumas mágoas e problemas que teve, ao longo dos anos, em virtude das suas opiniões e escritos. A minha partida estava para breve mas ainda fizemos planos para uma visita à sua nova casa na Lombega quando voltasse, com os meus miúdos para ele conhecer. Já não deu tempo. No regresso ele estava de abalada para S. Miguel para tratamentos médicos em virtude do agudizar do seu estado de saúde. Depois de S. Miguel ainda voltou ao Faial mas não era o mesmo, tinha o corpo, acamado, mas já não estava lá aquele espírito que era o dele. Aos 84 anos soltaram-se agora as amarras desse corpo já cansado, a merecida libertação ao penar da velhice e da doença. Foi o corpo mas não morrerá o espírito deste ilustre Faialense, deixou sementes em tantos de nós, nesta terra de lava, estará presente na génese e nos átomos da ilha, para todo o sempre. 

Queria escrever um Requiem para o Jaime Baptista…

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