Recriação de um dia da Família Dabney na Cedar´s House. Uma forma inteligente de viver o Património

0
25
DR

DR

A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores abriu as portas da residência oficial e os jardins ao público, recriando criativamente episódios da vida dos Dabney. Actores, músicos, cidadãos comuns, professores, uma cantora lírica deram vida às personagens histórias que outrora habitaram a casa. No jardim cruzamo-nos com membros da família, assistimos a uma reunião de senhoras para uma sessão de leitura. Há um recital de piano na casa. Há um recital de violoncelo e violino no jardim, enquanto a “criadagem” se esfalfa nas tarefas domésticas. As brincadeiras das crianças. O fotógrafo solícito. As mulheres de capote. Todos vestidos à época, com elegância e rigor. Vivência plena e inteligente de um espaço patrimonial através da recriação histórica de um tempo e da vivência de uma família norte-americana de cônsules. 

A relevância atribuída ao património cultural, seja a Cedar’s House ou a Torre do Relógio, deve ter em conta a melhor forma de o aproximar das populações. O património deve ser vivido, revisitado, partilhado. Não há qualquer dúvida. Mas subjacente a este processo deverá sempre ter-se em conta a pretensão de se criar uma ligação didáctica e lúdica dos cidadãos com o património e onde cada um se possa identificar culturalmente. Foi o que aconteceu na Ceder’s House, na última segunda-feira. Agora analisemos o que se poderia fazer no Jardim Florêncio Terra e na Torre do Relógio para transformar estes espaços públicos, patrimoniais, em “lugares vivos” vividos; lugares que integram o património histórico da cidade e que imprimem no espaço a relação da cidade com a sua própria história, com a memória coletiva, com a sua cultura e com o meio ambiente.
Hipótese a): torná-lo num lugar verdejante e aprazível- uma continuidade do Jardim Florêncio Terra- onde crianças, idosos e adultos possam permanecer e conviver, aprendendo o respeito pelo valores patrimoniais, numa perspetiva didático pedagógica, em interação com a história da cidade e em harmonia com o ambiente. Promover, nos meses de verão, subidas à Torre, recitais, espetáculos de teatro, dramatizações sobre a história do lugar, como nos foi dado ver ontem na Cedar’s House.
Hipótese b) Construir uma estrutura de grandes dimensões, em cimento, impermeabilizando o solo, destruindo vestígios arqueológicos, desfeando o ambiente, descaracterizando o espaço.
O respeito pelo Património é um valor fundamental. Há décadas que assistimos à tirania do cimento e à destruição dos ambientes. Mas o paradigma mudou. As cidades estão novamente a encher-se de árvores e espaços verdes; a fechar os seus centros ao trânsito automóvel. Constroem-se ciclovias; devolvem-se os espaços públicos às crianças, às pessoas idosas, aos cidadãos. Em qualquer cidade com uma visão de futuro, os valores da perservação patrimonial e ambiental estão presentes. Que mais não seja, pelo direito das gerações vindouras à Cultura e à Memória. Não perceber esta evidência é não perceber o essencial. O património que se degrada, se perde, se adultera é um valor não só cultural, mas também económico que se perde.
Por outro lado, está disposto na Constituição da República Portuguesa o direito de todos à educação, à cultura e à memória. No número 1, do artigoº 7º, da Lei de Bases do Património Cultural afirma-se que “todos têm direito à fruição dos valores e bens que integram o património cultural, como modo de desenvolvimento da personalidade através da realização cultural”( Lei de Bases do Património Cultural, Lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro, Diário da República, série IA, n.º 209, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 8 de Setembro de 2001). A Lei de Bases do Património Cultural considera como património cultural “todos os bens que, sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura portadores de interesse cultural relevante”, nomeadamente os bens de valor histórico, arquitetónico, artístico ou técnico que sejam o reflexo de valores de memória, antiguidade ou singularidade. O valor de cada bem cultural não deve ser só expresso através da sua classificação patrimonial mas, também pelo reconhecimento de uma sociedade. A preservação da identidade do património edificado, cultural e social, exige que as operações de reabilitação urbana sejam apoiadas pelas pesquisas histórica e sociológica que requerem a intervenção de equipas de trabalho multidisciplinares.
Estar aberto à escuta, ao conhecimento, às vozes dos técnicos mas também dos cidadãos (vozes simples, mas que traduzem as identificações culturais e a memória coletiva), é uma atitude humana de reconhecimento do outro. Esta qualidade da escuta ativa e empática é necessária em qualquer comunicação bem sucedida. É uma qualidade indispensável a um bom político. É importante saber escutar; sentir o eco das vozes do povo. São estas, quase sempre, que falam verdade!

Maria do Céu Brito

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO