Na manhã do dia 5 de Outubro de 1910, José Relvas subia à varanda da Câmara Municipal de Lisboa para anunciar ao país que o regime monárquico tinha chegado ao fim. Virava-se assim uma importante página na história do país, que dava as boas-vindas à República. Hoje passam 100 anos desse momento.
O caminho até ao dia 5 de Outubro de 1910 foi sinuoso, marcado por avanços e recuos. De facto, a implantação da República em Portugal resultou de um longo processo de mutação política, social e mental, impulsionado pelos defensores da ideologia republicana, e pela formação do Partido Republicano Português (PRP), no final do século XIX.
As dificuldades com que os portugueses se debatiam no final do século XIX, altura em que o país vivia uma grave crise económica, levaram a uma onda de contestação em relação à monarquia constitucional, já que o rei, D. Carlos I, se mostrava incapaz de lidar com a situação. Para a insatisfação do povo contribuíam também os gastos excessivos da família real.
O descontentamento popular agravou-se com o episódio do Ultimato Inglês, em Janeiro de 1890. O ultimato consistiu num telegrama enviado ao governo português pelas autoridades inglesas, onde estas exigiam a retirada imediata das forças militares portuguesas mobilizadas nos territórios entre Angola e Moçambique. Caso Portugal não cumprisse, a Inglaterra avançaria com uma intervenção militar. A cedência à vontade dos ingleses provocou uma grande indignação popular, sentimento que foi aproveitado e empolado pelos republicanos, cujo partido assistiu então a um grande crescimento.
Um ano depois do ultimato, o Partido Republicano publicou um manifesto, no qual colaboraram, entre outros, Manuel de Arriaga e Teófilo de Braga. Algumas semanas após o surgimento deste manifesto, os republicanos fazem uma tentativa de implementação da República, no Porto, a 31 de Janeiro de 1891, sem sucesso.
Entretanto, os republicanos tinham já conseguido eleger representantes no Parlamento, sendo o primeiro desses representantes eleito em 1878. Depois, vários foram os homens que defenderam os interesses do partido no hemiciclo nacional, com destaque para Manuel de Arriaga. Nos últimos anos de vigência da monarquia, o PRP foi ganhado força, que se reflectia no crescimento do número de deputados eleitos.
Outro momento importante no declínio do regime monárquico foi o regicídio, a 1 de Fevereiro de 1908. Nesse dia, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, Luís Filipe, foram assassinados em Lisboa. Com apenas 18 anos, D. Manuel II assume o trono.
A revolta republicana era iminente, e estala a 3 de Outubro de 1910. O governo monárquico é incapaz de reunir tropas para dominar os revolucionários, e dois dias depois a República é implantada em Portugal.
Ainda no dia 5 de Outubro foi organizado um Governo Provisório, chefiado pelo micaelense Teófilo Braga. Este governo impôs novas regras para a eleição dos deputados da Assembleia Constituinte, reunida pela primeira vez a 19 de Junho.
Das medidas tomadas pelo Governo Provisório, destaca-se a expulsão da Companhia de Jesus e das ordens do clero regular, a proibição do ensino religioso nas escolas, a institucionalização do divórcio, a legalidade dos casamentos civis, a igualdade de direitos no casamento para homem e mulher, a reformulação das leis da imprensa e o reconhecimento do direito à greve, entre outras.
Para consciencializar o país desta grande mudança, foram alterados os símbolos nacionais, com a adopção da actual bandeira nacional e do hino, A Portuguesa. Foi também adoptada uma nova unidade monetária: o escudo.
Em 28 de Maio de 1911 dão-se eleições. Foram eleitos 226 deputados, na sua maioria do PRP. Estes tinham como objectivo elaborar uma nova Constituição, que entrou em vigor no dia 21 de Agosto.
A Primeira República haveria de ficar marcada pela instabilidade: vigorou até 1926, período em que houve sete parlamentos, oito Presidentes da República e 45 governos. Os republicanos mostraram-se incapazes de solucionar a crise económica do país, e a 28 de Maio de 1926 um Golpe de Estado suspendeu a Constituição de 1911 e instituiu uma Ditadura em Portugal.
Manuel de Arriaga
O faialense, nascido na Horta em 1840, haveria de ver o seu nome inscrito a letras douradas na história do país quando, a 24 de Agosto de 1911, se tornou no primeiro Presidente eleito da República portuguesa.
Sendo uma das figuras de maior prestígio entre os republicanos, abandonou a presidência em 1915. Viria a falecer em 1917, desencantado com as divisões internas do seu partido.












