Transportes Marítimos

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    Os açorianos sempre tiveram no mar e nas ligações marítimas uma forma – e durante largos séculos a única – de ultrapassar as distâncias e de estabelecer contactos entre as ilhas e fazer trocas comerciais, tendo um papel fundamental para a mobilidade das populações como também no desenvolvimento da economia.
    A empresa Insulana de Navegação, constituída em 1871, foi responsável durante mais de um século pelo tráfego regular e periódico de passareiros e cargas entre as ilhas dos Açores.
    Para além desta, outras empresas de tráfego local, com embarcações de menor porte, também asseguravam o transporte regular de pessoas e cargas, especialmente entre as ilhas do grupo central. Muitos se lembram ainda do Terra Alta, do Santo Amaro e do Espírito Santo, que inestimáveis serviços prestaram às gentes deste grupo de ilhas.
    A década de 80 representaria o fim dos regulares transportes marítimos de passageiros inter-ilhas.
    Após um interregno de cerca de 20 anos – com exceção para as ligações marítimas entre o grupo central, com especial intensidade entre o Faial e o Pico, cuja ligação regular foi a que mais contribuiu (em 2017 movimentou 422 mil pessoas e 13.900 viaturas) para o movimento de meio milhão de passageiros anual no grupo central – foram retomadas as ligações marítimas, sazonais, de passageiros de âmbito regional.
    Após uma experiência ocasional (no verão de 1996) para o transporte rápido de passageiros entre o Faial, o Pico e São Jorge, da iniciativa da Associação de Municípios do Triângulo, com a embarcação “Trijet”, e de outras operações com o recurso a embarcações hydrofoil, foi na segunda metade da década de 90 que se voltou a apostar no transporte marítimo, sazonal, de passageiros e de viaturas para todas as ilhas da região, com exceção do Corvo – a ligação regular entre esta ilha e as Flores foi iniciada em 2008 com a lancha “Ariel” – com o fretamento inicial de ferry-boats pela Açorline, e posteriormente e até ao momento atual pela Atlânticoline.
    Em 2009 foi lançado o primeiro concurso para a construção de dois barcos para operar regularmente no arquipélago, tendo os Açores recusado o primeiro (e único) a ser construído nos Estaleiros de Viana do Castelo o “Atlântida” – processo atribulado e mal explicado, que fez correr muita tinta, sem que até hoje os açorianos estejam devidamente esclarecidos sobre todos os contornos desta misteriosa história.
    No decorrer de 2014 a Atlânticoline lançou um concurso público para a construção de dois navios com capacidade para 650 passageiros e 150 viaturas, procedimento que foi anulado porque nenhum estaleiro reuniu todas as exigências do caderno de encargos.
    Também em 2014 tiveram início as ligações nas ilhas do Grupo Central com os novos e confortáveis ferries “Mestre Simão” e Gilberto Mariano”, que vieram substituir o Cruzeiro do Canal e o Cruzeiro das Ilhas.
    Em final de 2017 foi publicado o concurso para a construção de um navio “ro-ro”, com capacidade para passageiros e viaturas iguais há do concurso anulado, ao que acresce a carga rodada, com prazo de execução de 580 dias. Noticias recentes confirmam que três candidatos foram admitidos ao concurso.
    Como se pode ver, pelo tempo fora, desde os barcos da “Empresa das Lanchas do Pico”, armadora das embarcações Espalamaca e Calheta, dos iates da Empresa Açoriana de Transportes Marítimos, Lda., proprietária do Terra Alta, de outras empresas regionais, predominantemente do grupo central, de transporte marítimo de passageiros, passando pela Transmaçor e pela Atlânticoline, que houve uma significativa evolução no transporte marítimo inter-ilhas, que desde sempre se tem mantido regular no grupo central, mais recentemente também no grupo ocidental, e sazonal, desde a segunda metade da década de 90, entre todas as ilhas.
    A história recente dos transportes marítimos de passageiros nas denominadas ilhas do Triângulo fica, no entanto, ensombrada pelo acidente ocorrido em novembro de 2014, com o navio Gilberto Mariano, devido ao rebentamento de um cabeço de amarração no porto de São Roque do Pico, do qual resultou uma vitima mortal, e o recente acidente ocorrido em janeiro do corrente ano, felizmente sem a ocorrência de vitimas a lamentar, com o encalhe do navio Mestre Simão, na entrada do porto da Madalena. Em consequência da perda total deste último o Governo dos Açores anunciou, logo de seguida, que “a região vai avançar de imediato para a construção de uma nova embarcação similar àquela que agora foi dada como perdida”.
    Por outro lado, no decorrer do tempo, também foram feitos avultados investimentos, alguns de duvidosa qualidade, nas infraestruturas portuárias, nalguns casos, especialmente nos portos de algumas das ilhas do Triângulo, aparentemente sem a devida ponderação na execução dos equipamentos portuários para a operação dos novos ferries.
    Chegados aqui percebemos que para o transporte de passageiros e viaturas inter-ilhas, e nos portos, já foram gastos – ao longo de quase 20 anos – vastos milhões de euros sem que se tenha obtido ainda uma solução que corresponda e satisfaça as evidentes necessidades da região, muito devido a decisões políticas erradas ou mal delineadas, com a agravante de que tudo isso tem sido feito com dinheiro que é de todos nós.
    Mas nesta questão dos transportes e das acessibilidades – tanto marítimas como aéreas – tem havido muita deriva e más políticas, o que é atestado pelo Observatório de Turismo dos Açores que refere que em 2017 (o mesmo que em 2016) “a opinião dos turistas manifesta-se em termos globais satisfeitos com o destino, apresentando, no entanto, níveis mais baixos de satisfação em relação aos transportes e mobilidade”.
    Haja paciência para ouvir quem nos quer convencer do contrário. 

    Abril de 2018

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