Um Domínio de Primeiro Nível para os Açores

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O surgimento da Internet mudou e alterou drasticamente os mecanismos da atividade económica, a natureza da interação social, os instrumentos de intermediação entre as populações e os Estados, a forma de afirmação das identidades comunitárias, a propagação das notícias e do conhecimento e até a forma de mobilização popular para as revoluções.
Importa, por isso, assumir a importância global e verdadeiramente revolucionária da Internet e criar, neste novo espaço, formas de afirmação comunitária e identitária. A afirmação da autonomia e da identidade açoriana não depende hoje, de forma exclusiva, dos velhos mecanismos estatais e comunitários. É crucial afirmar a diferença e a nossa identidade específica no universo global da Internet, cujo efeito padronizador e expansivo não deve ser subestimado.   
Nesse sentido, um mecanismo importante para sinalizar a identidade específica de grupos comunitários, e agregar as respetivas potencialidades na Internet, passa pela criação de domínios próprios de primeiro nível. Um domínio é o nome que identifica um sítio Web. Cada domínio, que é único dentro da Internet, é constituído por três partes: os três w, o nome da organização e o tipo de organização. Os domínios de primeiro nível podem ser de dois tipos: genéricos (três ou mais letras, como o “.ORG”) e códigos de país (duas letras, como por exemplo o “.PT” atribuído a Portugal).
A entidade responsável pelo reconhecimento e atribuição dos domínios de primeiro nível é a Internet Corporation For Assigned Names and Numbers      (ICANN), que utiliza como referencial a lista ISO 3166-1 (códigos de duas letras), sendo que a lista ISO 3166-1 alfa-3 (códigos de três letras) é oficialmente usada pela ISO 3166 Maintenance-Agency (ISO 3166/MA). Estes últimos códigos permitem uma melhor associação entre os códigos e os nomes dos países. Os mesmos encontram-se reservados para os países e territórios autónomos já detentores de código de país (como é o caso do “.PRT” para Portugal ou do “.GLP” para o DOM francês da Guadalupe). 
Como se vê, através dos exemplos referenciados, o uso de domínios de primeiro nível não está reservado exclusivamente a países independentes. Alguns territórios com especificidades geopolíticas, fiscais ou culturais usufruem do uso de domínios de primeiro nível, sempre e quando os Estados em que integram a isso não se oponham. Veja-se o caso dos territórios ultraperiféricos da União Europeia. Os quatro DOM franceses – Guadalupe (.GP), Guiana Francesa (.GF), Reunião (.RE) e Martinica (.MQ) – possuem domínios de primeiro nível. No âmbito do conjunto dos territórios ultraperiféricos da União Europeia, apenas as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira não possuem domínios de primeiro nível (o processo das Canárias ainda não está fechado).
Tendo em conta a forte especificidade cultural e política da comunidade açoriana, o caminho de aquisição de um domínio próprio de primeiro nível deve realizar-se no âmbito conceptual já desenvolvido por outras comunidades com fortes aspirações de afirmação identitária autónoma. Neste âmbito podem referenciar-se os casos da Catalunha (que criou o domínio “CAT”), o da Galiza (que criou o domínio “GAL”) ou o do País Basco (que criou o domínio EUS). Em qualquer dos casos referenciados, a criação de domínios próprios representou um êxito retumbante.  
Defendo que uma Região como os Açores e a sua enorme diáspora, – dotada de uma forte identidade cultural, histórica e política, cuja diferença e especificidade é reconhecida pela Constituição da República Portuguesa e pela União Europeia – passe a possuir um domínio de primeiro nível na Internet, tal como já sucede com tantos outros territórios dotados de autonomia política.
A perspetiva é, assim, criar um domínio genérico de primeiro nível de características culturais e económicas – a opção lógica é o domínio de três letras .AZO – que agregue toda a comunidade cultural e económica açoriana que resultou da secular expansão da diáspora açoriana. Tendo em conta a natureza bilingue da comunidade açoriana, as línguas usadas no domínio seriam o inglês e o português.   
A existência de um domínio com estas características permitirá situar a nossa identidade específica no mapa digital internacional, dotando-a de uma grande visibilidade. Além disso, a existência deste domínio poderia, de facto, catalisar a interatividade no âmbito do imenso mundo da diáspora açoriana, fomentando o aumento exponencial das parcerias de carácter cultural, económico e político. Desta forma, os constrangimentos da insularidade e da dispersão da diáspora açoriana poderão ser  ultrapassados pela existência de um domínio identitário que serviria de  referencial global para a vasta comunidade açoriana. 

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