Início Artigos de opinião José Trigueiro Uma noite de Reis na Fajãzinha, de Ernesto Rebello (1878) (II)

Uma noite de Reis na Fajãzinha, de Ernesto Rebello (1878) (II)

0
36

HISTÓRIAS DAS FLORES

(Continuação)

Na referida reunião, talvez feita no descampado do Rochão do Junco ou junto da Fonte Frade, uns músicos da “Philarmónica Amizade” aprovavam o regresso a Santa Cruz, mas a maioria decidiu continuar a viagem (6).

“- Ó aquele, olha que isto hoje há aqui facadas, toca o burro, não te faças tolo!…”

Esta Filarmónica da vila de Santa Cruz das Flores, pode ser a “Filarmónica Amizade” ou “Amor da Pátria” de que nos fala Ernesto Rebello. Foto dos arquivos de João António Gomes Vieira.

“ –  Não dou mais um passo, sem que vocês me dêem bastante genebra, ora eu que podia estar sossegado em casa…”                                             

“ – Pega, ladrão, bebe à tua vontade e não estejas a desanimar os outros».

A contenda foi resolvida pela voz autorizada do regente da música, que desejava velar pelo prestígio da filarmónica (7).

“ – O mestre da música tem razão — bradaram outros — primeiro que tudo salva-se o instrumental”.

“-Para a Fajãzinha –  exclamaram os da frente tornando-se os líderes da caravana». 

Por sua vez, o tocador do bombo gritava: “-para a Fajã Grande… para a Fajã Grande…», sem atender às condições da ribeira, que era a maior dificuldade e que bramia furiosa. E a discussão continuava…(8).

“- Silêncio, Srs. – acudiu o mestre da música, temendo novas questões – nós vamos em breve entrar na freguesia [da Fajãzinha], e os Srs. devem-se portar como pessoas ilustradas, que são, um músico não é para aí qualquer coisa… haja prudência….”

“O dono da casa, [um dos vários amigos], segundo todas as aparências, já estava em meio do primeiro sono, ali não se via luz, nem se descobriu o mínimo sinal de vida». 

“Os músicos enfileiraram em frente desta residência e de repente uma alegre tocata, o hino da filarmónica, vibrando com a máxima valentia, “estúrdia” os ares, fazendo estremecer as vidraças das casas circunvizinhas e despertando toda a povoação, cujos habitantes em crescente número, começaram a aglomerar-se em redor dos tocadores”.

“Quem não aparecia ainda à janela era o dono da casa, que pesado sono!…”

“ – Vá lá, rapazes, – gritou entusiasmado o mestre, por ver o levante que os seus discípulos estavam fazendo na freguesia – agora os Reis, mas isto bem afinadinho…[…]”

“Finda a cantilena, uma voz ergueu-se entre os músicos. (9)”.

“ –  Viva o Sr. Ramos!”

“E toda a multidão repetiu: – Viva, Viva!”

“O bom velho vestiu-se à pressa e abrindo logo a porta, disse de cima do seu balcão: “

“ – Eu não sei quem os Srs. sejam, mas esta casa é sua, vamos a entrar…”

“ –  É gente de paz, a filarmónica da Vila, que lhe vem dar as boas festas”. “[…]»”

Dentro de meia hora a casa do Manuel Ramos estava cheia de comer, e a linguiça assada espalhava por toda a casa o mais apetitoso cheiro, e, nesse esforço de pão e vinho, toda a gente da freguesia que ali estava compartilhava francamente.   

O dono da habitação, que era homem benquisto, exuberava de alegria, tendo-se levantado muitos brindes com as mais ruidosas saudações. 

Depois, por mais de uma vez, o tocador do bombo procurava imaginar-se com a sorte que teria se tivessem chegado à Fajã-Grande e, depois da forte festança ter passado, um dos habitantes locais, mais cerimonioso, disse aos companheiros (10).

“ –  Ó amigos, estes Srs. hão-de carecer de repouso, para espairecer nesta noite dos Santos Reis, já temos comido e bebido à farta, agora o melhor é a gente ir para nossas casas.» 

Depois de mais cânticos em louvor da Epifania, era uma hora da noite e ali ainda se cantava, comia e bebia. Contudo a gente da freguesia foi-se retirando.  

Assim «O Manuel Ramos achou-se afinal tão-somente com os seus doze hóspedes».

Apesar de ter sido necessário forrar a casa com lençóis para lhe tapar os buracos, já que a mesma estava ainda em construção e incompleta interiormente, tendo sido necessário colocar uma esteira para que todos ficassem convenientemente instalados. O Sr. Ramos mandou o Francisco, um rapaz local que o ajudava nos trabalhos da casa, trazer os últimos lençóis (11).

“ –  O Sr. Ramos está perfeitamente preparado para receber hóspedes”.

“ –  Perfeitamente não direi e conheço que isso são favores, mas o que eu posso certificar aos meus amigos é que o que aí vêem é tudo meu”. 

“ –  Isto faz-me lembrar uma história que contava meu pai, de quando esteve nesta terra um Sr. Bispo” –  acrescenta Manuel Ramos (12)”.

“ –  Como foi, diga?”

 “ – É que o Bispo, andando em visita pela ilha – [disse Manuel Ramos] – veio  hospedar-se em casa do Vigário antigo desta freguesia. O bom do padre não se poupou a trabalhar para receber condignamente o seu prelado, preparou o quarto de jantar, cobrindo a mesa de boas iguarias e com o melhor vinho, apresentou as melhores louças, cortinados nas janelas e, à noite, à ceia, colocou em cada canto do quarto um rapaz, imóvel, com o braço estendido, como uma estátua, segurando uma grande tocha acesa na mão. O bispo gostou daquela lembrança, um tanto original, fartou-se de carne assada e de massa sovada, mais guloseimas, e afinal não trepidou em descer na sua imponente dignidade para elogiar o Vigário não só a boa cozinha, como o asseio e bom gosto de todos aqueles aprestos, incluindo as quatro figuras ornamentais». 

Os músicos escutavam com imensa atenção a história do dono da casa. 

(Continua) 
Coordenação de José Arlindo Armas Trigueiro

 

 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor coloque o seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!