Diariamente, particularmente nestes tempos conturbados, tento ler alguns jornais internacionais. Entre os meus “favoritos” estão o The Guardian e o The New York Times. Foi neste último que li a triste notícia de que Barney Frank tinha partido. Num longo artigo dissertava-se sobre as suas virtudes, com a inteligência, a coragem e a frontalidade em primeiro plano, e também sobre algumas das suas fraquezas. Barney Frank era uma personalidade complexa, viva, contraditória, brilhante e, por isso mesmo, interessante.

Barney Frank foi uma das grandes figuras políticas norte-americanas das últimas décadas. Representou Massachusetts no Congresso dos Estados Unidos durante mais de trinta anos, foi uma voz decisiva na reforma financeira que se seguiu à crise de 2008 e foi também uma figura pioneira na afirmação dos direitos das pessoas homossexuais na vida pública. Era conhecido pela inteligência cortante, pela rapidez de resposta e por uma coragem política que raramente se confunde com simpatia fácil. Faleceu aos 86 anos.
Tive o prazer e o privilégio de conhecer brevemente Barney Frank na cidade da Horta, por ocasião do III Fórum Açoriano Franklin D. Roosevelt, realizado no Teatro Faialense, entre 27 e 29 de abril de 2012. O tema do encontro era particularmente feliz: “O Mar na Perspectiva da História, da Estratégia e da Ciência”. A organização juntava Governo dos Açores e FLAD e trouxe ao Faial investigadores, responsáveis políticos, militares, historiadores, diplomatas e pessoas ligadas à diáspora açoriana. Foi uma tentativa séria de pensar os Açores como centro e não como periferia, como ponte e não como margem. Barney Frank falou então sobre “Equidade e Eficiência: Amigos ou Inimigos” e as atas desse Fórum viriam depois a ser publicadas no livro “O Mar na História, na Estratégia e na Ciência”. Nesse volume, aparecem lado a lado textos de Barney Frank, de vários especialistas portugueses e norte-americanos, e também o meu humilde contributo, então director regional dos Assuntos do Mar. O livro fixou em papel um momento em que a Horta voltou a ocupar, intelectualmente, o lugar que tantas vezes teve na geografia da história: um porto de encontro entre continentes, ideias e estratégias.
O que também trazia Barney Frank aos Açores era a sua proximidade à comunidade açoriana emigrada no Leste dos Estados Unidos, que ele representou durante um enorme período. Por vezes, nos próprios Açores, é fácil esquecer a dimensão real desta outra geografia açoriana. Há Açores nas nove ilhas, naturalmente. Mas há também Açores nos EUA, no Canadá, nas Bermudas, no Brasil e noutros lugares onde a necessidade, a coragem ou a esperança levaram açorianos ao longo de gerações. Muitos desses emigrantes e luso-descendentes tornaram-se autênticos embaixadores da Região no mundo. Uns fizeram-no pela cultura, como Nuno Bettencourt, nascido na Praia da Vitória, ou Nelly Furtado, filha de pais micaelenses, outros pela ciência, pelos negócios, pelo associativismo, pela comunicação social, pelas universidades ou pela política.
Na política norte-americana, essa presença é particularmente interessante. Houve e há representantes de origem portuguesa, sobretudo vindos da Califórnia, como Tony Coelho, Jim Costa, Devin Nunes ou David Valadão. Na Costa Leste, apesar da fortíssima presença açoriana, a expressão eleitoral direta foi historicamente mais difícil. Talvez por isso a figura de Barney Frank seja tão curiosa: não sendo açoriano, nem descendente de açorianos, foi durante décadas um representante político de muitos açorianos. Conhecia-os, precisava de os ouvir e, sobretudo, sabia que a relação entre os Açores e os Estados Unidos não era uma abstração diplomática. Era feita de famílias, freguesias, festas, clubes, remessas, memórias e votos.
Essa talvez seja a grande lição que retiro daquele encontro na Horta. Os Açores são pequenos quando olhados apenas no mapa. Mas tornam-se grandes quando olhados pelas rotas. As rotas do mar, naturalmente, as rotas da aviação, as rotas militares, as rotas científicas, e, acima de tudo, as rotas humanas. Cada açoriano que partiu levou consigo uma ilha. Cada filho ou neto de açorianos que conserva uma palavra, uma receita, uma devoção, uma memória familiar ou uma curiosidade pela terra dos seus avós continua a acrescentar mundo aos Açores.
Parece-me essencial manter, cultivar e ampliar a relação com o outro lado deste lago chamado Atlântico. Não apenas por mérito de quem lá vive, embora esse mérito seja muito. Não apenas por dever de memória, embora a memória também obrigue. Mas porque, em conjunto, os Açores e a sua diáspora podem contribuir para um mundo melhor: mais aberto, mais democrático, mais culto, mais consciente do mar e mais atento às pontes que a história construiu.
Conheci Barney Frank por breves instantes, mas penso que ele teria gosto nessa ideia. Talvez porque ela junta equidade e eficiência, talvez porque junta identidade e futuro, ou, talvez porque reconhece que as comunidades pequenas, quando se organizam e se fazem ouvir, podem ter uma influência muito maior do que a sua dimensão demográfica faria prever. Talvez porque, no fundo, os Açores sempre foram isso mesmo: ilhas pequenas, sim, mas colocadas no meio para ligar o mundo. g
* Frederico Cardigos é biólogo marinho no Eurostat. Este é um artigo de opinião pessoal. As ideias expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor e podem não coincidir com a posição oficial da Comissão Europeia. A redação deste texto contou com o apoio da versão avançada da plataforma de inteligência artificial ChatGPT (OpenAI).
















