Início Artigos de opinião José Trigueiro A Areia da Construção da Igreja dos Cedros das Flores

A Areia da Construção da Igreja dos Cedros das Flores

0
34

FACTO HISTÓRICOS

Os tacos do pavimento foram de cedros locais

 Já em 1917, quando o Padre Fernando Joaquim da Silveira (1881-1958) paroquiava na freguesia dos Cedros, concelho de Santa Cruz das Flores, havia sido amplamente analisada e discutida localmente, por vezes calorosamente, a necessidade da demolição da respectiva igreja, face ao estado de degradação em que a mesma se encontrava. Dedicada a Nossa Senhora do Pilar, essa igreja fora reedificada em 1822, mas certamente com pouca qualidade, tal como já acontecera com a anterior, de 1693.

O Padre Fernando Silveira, que era natural da referida freguesia, terá chegado a interromper a homilia para desafiar fisicamente os seus adversários, por defender a recuperação da igreja anterior, certamente preocupado com a sua preservação histórica.

Assim, acabou por sair da paróquia indo para a cidade Angra do Heroísmo, onde exerceu, sobretudo, funções administrativas no economato da Diocese. Deste modo, o jornal “A União”, pertencente à Diocese, esteve durante vários anos em seu nome, por razões especiais de legitimidade existente nesse tempo. Viria a Falecer nessa cidade em 16 de Fevereiro de 1958.

 Como a freguesia dos Cedros esteve vários anos com a paróquia a cargo dos párocos da vila de Santa Cruz, a situação de degradação da velha igreja só viria a ser decidida depois de ali ter sido colocado e residente, em 1940, o Padre José Maria Álvares (1914-1999), natural do lugar da Fazenda dessa vila, onde nascera em 26 de Julho de 1914.

 Decidida e concretizada a demolição daquela igreja, o lançamento da primeira pedra da nova igreja ocorreu em 22 de Janeiro de 1950. Deste modo, os cedrenses foram incansáveis, tal como o seu pároco, no trabalho da respectiva reedificação. A eles juntaram-se ajudas de outras pessoas, designadamente das autoridades locais, que nesse tempo eram poucas.

            Um dos maiores problemas dos cedrenses era encontrar areia nas ribeiras limítrofes, já que na ilha não havia praias nesse tempo. Só no Sul da ilha, no concelho das Lajes, existiam terrenos com areia, mas não era fácil o seu transporte. Na ilha não havia ainda estradas construídas que permitissem o seu transporte, nem havia as praias de areia hoje existentes também nos lados das Lajes, resultantes, essencialmente, das quedas recentes de rochas do mar.

Recorda-se que na ilha das Flores não existiam praias, ao ponto de, quando foi para proceder, em 1899, à ligação do Cabo Submarino para as comunicações da ilha, os ingleses da empresa Telegraph Construction and Manetenance, que lá estiveram a estudar essa colocação no navio “Britania”, alegaram desistir dessa ligação por não encontrem praia que o permitisse. Embora me pareça que não terá havido vontade política e económica para essa ligação, porquanto, coberta com calhaus em diversos rolos da ilha havia a areia graúda, onde os florentinos, mesmo os desse tempo, sempre apanha minhocas para isca de pescar, e onde hoje nalguns deles existem pequenas praias.

 Conta-se que, quando teve início aquela reconstrução, apareceu uma pequena praia de areias finas, junto na costa marítima dos Cedros, próximo do calhau da Alagoa, boa para a nova obra. Situava-se próximo do respectivo porto da freguesia. Algumas pessoas pensaram logo que, como tamanha sorte, aquela areia até parecia um milagre do Deus. No tempo existia um acidentado e íngreme atalho na rocha do mar — que também servia de acesso ao porto dos Cedros, existente na baía da Alagoa — que hoje está  abandonado. Deste modo, praticamente toda a areia para aquela obra veio por rocha fora, transportada por esse atalho em sacas aos ombros dos cedrenses.

A citada praia apareceu ali como que por milagre, cuja areia depois da conclusão da obra, viria a desaparecer e jamais ali apareceu naquele local, tal como acontecia anteriormente.

Também o sobrado da igreja foi feito de tacos de cedros locais, provenientes do lugar do Cidrão, existente a mais de cinco quilómetros de distância da freguesia dos Cedros, donde veio transportando verde às costas das pessoas, geralmente de voluntários. Essa madeira deixa na igreja um delicioso perfume que, decorridos todos estes anos, ainda é perfeitamente notório.     

Construída em tempo recorde, entre 1950 e 1953, a última pedra da igreja terá sido colocada em 26 de Março de 1951, procedendo-se seguidamente aos respectivos acabamentos e a sua inauguração teve lugar em 18 de Junho de 1953. Presidiu ao acto o Padre João Fraga Vieira (1914-1978), natural de Lajes das Flores, que no tempo paroquiava a freguesia da Lomba.

Mas, voltando à construção da igreja dos Cedros, refira-se, a propósito, que o pároco da freguesia, José Maria Álvares, que meteu mãos à referida construção, terá sido o maior trabalhador da obra, não virando muitas vezes a cara aos serviços mais pesados ali realizados. Ombreava com os demais trabalhadores, mesmo nos transporte de pedras e demais materiais de construção. Depois de ter concluído a sua vida sacerdotal naquela freguesia, emigrou para a Califórnia onde tinha a maioria dos familiares e onde mais tarde veio a falecer, na localidade de Newark, em 4 de Agosto de 1999.

Profundo conhecedor e frequentador da costa marítima dos Cedros, o octogenário José Luís Teves, que foi um dos transportadores da citada areia e de outros materiais para a obra, afirma que, anteriormente, naquele local da costa não havia qualquer areia. Depois da inauguração da igreja a referida praia desapareceu. Para além dele, outras pessoas, confirmaram-me esse acontecimento, designadamente minha tia Maria Amélia Alvares Trigueiro, que era irmã do pároco, Padre José Maria Álvares.  

Nascido naquela freguesia, José Luís Teves, que esteve temporariamente emigrado, hoje reside, ora nos Cedros ora em Santa Cruz das Flores. É conhecedor e interessado na história da ilha, a ela dedicando, gostosamente, muito do seu tempo disponível. A ele agradeço a sua colaboração em várias informações importantes para os meus trabalhos.  

Milagre ou não, esta é uma história da areia para a construção da igreja dos Cedros das Flores, confirmada por várias pessoas que estiveram nela envolvidas.

_________

Bibl:  Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, “A ilha das Flores – da redescoberta à actualidade”, 2003, p. 149-152, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores; (3); Jornal “O Ocidental”, nº. 96, Santa Cruz das Flores, de 17-5-1899, p.2, do Padre Henrique Augusto Ribeiro; Trigueiro, José Arlindo Armas “Padres das Flores”, 1998, p. 27-29, e 91-95, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores.

 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor coloque o seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!