A Autonomia ameaçada

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1. Tenho acompanhado com muita preocupação a recente polémica que se instalou nos Açores a propósito do cancelamento da construção do Cais de Cruzeiros em Angra do Heroísmo.

Responsáveis políticos, instituições e articulistas da ilha Terceira e de                        S. Miguel têm-se digladiado com uma virulência e um tipo de argumentação que, independentemente da questão de fundo e de se avaliar quem tem razão, só vem provar, quão frágil é ainda a nossa Autonomia e quão fortes são ainda os resquícios do divisionismo e do antagonismo que marcou os séculos em que as ilhas dos Açores foram administradas de costas voltadas umas para as outras.

 

2 A Autonomia dos Açores (e da Madeira) são filhas do 25 de Abril de 1974 e, desde logo, se assumiu como um projeto descentralizador, que assentava no princípio de que quem está mais perto da realidade e das populações, com meios adequados, é capaz de acudir melhor e com mais rapidez aos problemas do que o poder central, distante em Lisboa.

No nosso caso particular, a Autonomia assumiu ainda uma dimensão inovadora: a de pensar os Açores como uma Região única, composta de nove ilhas, com idênticas aspirações e direito ao desenvolvimento integral e harmonioso. Tentava-se, assim, quebrar o secular bairrismo e divisão entre ilhas que a separação em distritos (e não só!) havia fomentado.

Também por isso, a nossa Autonomia foi tão bem recebida pela maioria das pessoas e nela os açorianos de todas as ilhas se implicaram e depositaram as suas esperanças mais sãs.

 

3 Não é, obviamente, em quatro décadas que se mudam mentalidades e práticas seculares. E não podemos, naturalmente, esquecer que nesse curto período de tempo a Autonomia mudou a face dos Açores e levou as nossas nove ilhas a conhecerem um progresso sem precedentes.

Em termos de exercício do poder, em termos de proximidade às populações, em termos de compreensão dos problemas, em termos de facilidade em se encontrarem as soluções mais rápidas e adequadas às situações concretas, é, de facto, um bem inestimável ter nos Açores os nossos órgãos próprios de governo.

 

4 Mas, como já bastas vezes tenho escrito e defendido, a construção da unidade político-administrativa dos Açores tem de se fazer com base na solidariedade partilhada no crescimento e nas dificuldades. Assegurar o desenvolvimento económico e social dos Açores, a concretização do crescimento integral e harmonioso de todas as ilhas, respeitar os seus ritmos próprios, assumir como objetivo da prática política a justiça e a equidade no direito ao desenvolvimento e ao progresso, tudo isto, mais do que reivindicações do tempo presente, são questões fulcrais para a sobrevivência da nossa Autonomia regional.

 

5E não tenho dúvidas de que esta Autonomia só terá futuro enquanto nela todas as ilhas se sentirem tratadas com justiça e equidade. Por isso, governar os Açores é olhar para todas as ilhas e definir estratégias de desenvolvimento para além de interesses eleitoralistas, de bairrismos e de visões tecnocráticas e economicistas. Governar os Açores é respeitar essa realidade única e inultrapassável de que a nossa riqueza reside também na nossa diversidade, que cada ilha é um mundo de igual dignidade e que a harmonia se faz de investimento repartido, complementar e solidário.

6. Infelizmente, hoje, o distanciamento, a desilusão e o desencanto ameaçam os nobres e iniciais ideais da nossa Autonomia. Os erros, as omissões e as opções políticas cada vez mais determinadas por interesses eleitoralistas (que, ironia das ironias, depois das vitórias eleitorais, são esquecidos!), corroeram a confiança dos cidadãos e ameaçam a unidade regional. A prática governativa dos últimos anos aprofundou as divergências de crescimento e de oportunidade de desenvolvimento entre as várias ilhas, acentuou clivagens, não resolveu nem amenizou (antes aprofundou) o esvaziamento populacional da maioria das ilhas e acabou no que seria de esperar: minou a confiança das pessoas na nossa Autonomia.

7. Em 2005, nas páginas deste Jornal, já escrevi que “abandonando-se a saudável prática da solidariedade que une e fortalece, pode-se estar a ganhar o presente político mas seguramente estar-se-á a aniquilar a Autonomia regional” e isso “irá levar os Açores a regredir muitas décadas e voltarão, certamente, os fantasmas dos tempos antigos do divisionismo e das ilhas de costas voltadas umas para as outras.”

8. A recente polémica acerca do abandono da construção do Cais de Cruzeiros em Angra só me tem feito reforçar a ideia de que no dia em que não formos capazes de conciliar a realidade “ilha” com a realidade “região”, o crescimento rápido de uns com o direito ao crescimento dos outros, as realidades demográficas e estatísticas com a dimensão humana e social do desenvolvimento, nesse dia, que está, infelizmente e como se constata, cada vez mais perto, a nossa Autonomia perderá a sua alma, perderá as pessoas e deixará de ser um desígnio que une todos os Açorianos.

10.03.2014

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                            24.02.2014

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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