Além do óbvio

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DR/TI
DR/TI

Passado 1 mês das eleições temos um governo que finalmente tomou posse. Um governo que é o maior da nossa história democrática e um dos mais partidários de sempre. O que não deixa de ser curioso para quem defendia a despartidarização e redução de cargos.
Mas mais do que a mudança de governo, que dá vida à democracia, o que causou fortes ondas de choque no nosso País, foi o crucial apoio do Chega, consubstanciado pela legitimação feita pelo PSD a um partido de extrema-direita populista.
Bem sei que alguns tendem a desvalorizar esta situação, mas quem assim procede claramente não consegue ver para além do óbvio.
Felizmente que destacados militantes do PSD e CDS, bem como proeminentes figuras de direita, quiseram delinear uma inequívoca separação do que se passou nos Açores. Felizmente que militantes da direção do PSD sentiram a necessidade de referir na comunicação social que o Chega é um partido xenófobo, racista e extremista, entre muitas outras coisas a que estão associados.
Vamos ser claros.
A questão aqui não é o direito constitucional conferido ao partido em questão. Até porque os seus mentores podem ser acusados de muita coisa menos de serem parvos! Obviamente que a extrema-direita dos nossos tempos quer servir-se do sistema para mudar o mesmo por dentro, como fizeram Bolsonaro, Duterte e Orbán. Não é à toa que alterar a Constituição é sempre o objetivo.
Não está em causa a legitimidade óbvia do novo governo dos Açores.
Não está em causa a eleição dos deputados do CHEGA.
Não está em causa o acordo de medidas que nada resolvem, como a redução de deputados. Nem mesmo o disparate ideológico da redução de apoios sociais numa das regiões mais pobres do país, no meio da maior crise económica da nossa história, ao mesmo tempo que na UE se prepara uma “bazuca” de dinheiro em apoios sociais e os EUA utilizam orçamentos exorbitantes em cheques enviados para a casa dos cidadãos.
O problema é a legitimação e normalização feita a este partido pelo centro direita, e mais do que isso, a infeliz defesa que alguns já fazem das práticas, natureza e princípios do mesmo. Se isso já não fosse razão para vergonha e clara separação de águas, bastaria existir a noção do que se tem passado para perceber o que aí vem.
Facilmente se compreende que, para além do “combustível” de utilização de práticas populistas, falaciosas e demagógicas, estes partidos precisam do “comburente” da conjuntura favorável (evidente pelo que se passa no mundo) e da “fonte de ignição” que é a legitimação pela associação a grandes partidos da direita moderada. É a conjunção deste “triângulo do fogo” que os transforma de pequeno fenómeno de nicho em forças de destaque com grande abrangência.
Parece que nos esquecemos da história e do que é capaz o ser humano.
Mas falemos de alguns exemplos recentes:
Foi assim no Brasil com o centro direita que validou o movimento “Bolsonaro”, servindo de rastilho para o seu crescimento e acabando por ser abafado pelo próprio.
Foi assim com Trump nos EUA em que a direita decente e democrática foi engolida por pura estratégia eleitoral.
Foi assim com a tradicional direita francesa com a aliança à Frente Nacional e que hoje em dia é 2ª força e a direita tradicional é uma miragem do que já foi.
Foi assim com o recém-chegado VOX em Espanha, na sua coligação com o PP na Andaluzia, ao qual se seguiu um estrondoso crescimento nacional, ao contrário do PP, que obteve os valores mais baixos desde 79.
Felizmente não foi assim na Alemanha de Merkel, que se recusou a prestar tal serviço à extrema direita da AfD.
Não tenho dúvidas. Foi dado um fundamental passo para o crescimento exponencial desta força em Portugal e principalmente para tornar aceitável o que defende na sua matriz ideológica.
O PSD com uma visão de curto prazo, não só desvaloriza a situação, como muitos têm agora a necessidade de normalizar e defender a extrema-direita por interesse…pensando talvez que o prejudicado à direita seja apenas o CDS, mas, mais cedo do que tarde, vai perceber o erro que cometeu.
O problema é que o mesmo nos afeta a todos…

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