1. A 10 de Junho de 2009, António Barreto presenteou-nos com um notável e profundo discurso, integrado na Sessão Solene do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Lembro esta parte das suas proféticas e profundas palavras:
“Não usemos os nossos heróis para nos desculpar, Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista.
Pela justiça e pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplos do que de lições morais.
Pela honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem mais do que de sermões.
Pela eficácia, pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo.
Pela liberdade e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo do que com discursos pomposos.
Contra a decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do que com discursos pomposos.
Pela recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o exemplo com mais elevado sentido de justiça.
Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. Dos afortunados, cujas responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua fortuna. Dos sabedores, cuja primeira preocupação deveria ser a de divulgar o seu saber. Dos poderosos, que deveriam olhar mais para quem lhes deu o poder. Dos que têm mais responsabilidades, cujo “ethos” deveria ser o de servir.
Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil. Não vale a pena, para usar uma frase feita, dar “sinais de esperança” ou “mensagens de confiança”. Quem assim age, tem apenas a fórmula e a retórica. Dê-se o exemplo de um poder firme, mas flexível, e a democracia melhorará. Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a crispação reduzir-se-á. Dê-se o exemplo de trabalho, de poupança e de investimento e a economia sentirá os seus efeitos.
Políticos, empresários, sindicalistas e funcionários: tenham consciência de que, em tempos de excesso de informação e de propaganda, as vossas palavras são cada vez mais vazias e inúteis e de que o vosso exemplo é cada vez mais decisivo. Se tiverem consideração por quem trabalha, poderão melhor atravessar as crises. Se forem verdadeiros, serão respeitados, mesmo em tempos difíceis.
Em momentos de crise económica, de abaixamento dos critérios morais no exercício de funções empresariais ou políticas, o bom exemplo pode ser a chave, não para as soluções milagrosas, mas para o esforço de recuperação do país.”
2. Partilho hoje com os leitores três bons e recentes exemplos que pude pessoalmente testemunhar e que provam as virtualidades e potencialidades que, apesar de tudo, ainda temos na nossa comunidade.
O lançamento do livro “Finalmente Árvore”, da autoria de Sara Porto, numa edição da APADIF (Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial) encheu o Auditório da Biblioteca Pública da Horta. Foi um evento cheio de significado e onde, de uma forma directa e verdadeira, foi possível perceber e intuir a emotividade e a afectividade com que se trabalha naquela instituição, desde os seus técnicos aos seus responsáveis, e que a autora do livro com uma simplicidade sentida destacou.
Não é só o trabalho específico e meritório que a APADIF leva a acabo que merece justo destaque e encómio. É fazê-lo com alma e sentimento!
3.Participei no passado mês de Outubro em contactos com várias instituições da freguesia de Pedro Miguel. De entre elas, a reunião com a nova Direcção do Grupo Folclórico e Etnográfico teve um particular significado. Sendo uma Direcção essencialmente jovem, revelou grande maturidade na programação dos seus investimentos, privilegiando passos pequenos, seguros e sustentáveis, a aventuras temerárias que poderiam pôr em causa o futuro da instituição e inviabilizar de forma definitiva o ambicioso e interessante projecto da sua “Casa Etnográfica”.
Este exemplo de boa e cautelosa gestão é tanto mais de aplaudir quanto o vemos ausente de tantas outras instituições e até governos!
4.Ainda em Pedro Miguel testemunhei o empenho dos membros da Comissão na construção da nova igreja paroquial. Volvidos doze anos sobre o fatídico sismo que destruiu o templo daquela freguesia, e depois de um percurso nem sempre fácil nem linear, onde a criação das condições financeiras em tempos de acrescida adversidade não tem sido tarefa fácil, foi edificante sentir que a confiança, o empenho e a fé na concretização dessa tão ambicionada como necessária obra ainda não se perderam.
Num mundo onde o serviço aos outros e à Igreja é algo cada vez mais em desuso, foi um bom exemplo este que lá encontrei!
08.11.2010











