Com um pé no passado, outro no presente, há que pensar coletivamente o futuro

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Há algumas década atrás entrevistei, para o jornal “Tribuna das ilhas”, o professor Mário Ruivo. Tinha vindo ao Faial realizar uma conferência e acompanhar o trabalho de excelência que se fazia então no Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP), com um impacto notável a nível nacional e internacional. Recordo que, nessa entrevista, o professor falou nos desafios que a ciência tinha pela frente para responder ao problema da utilização dos oceanos e da sustentabilidade dos recursos marinhos. Recordo ainda que dissertou sobre os mares, designando-os de mundos ignotos e última fronteira a ser conhecida pela ciência, dado o desconhecimento existente sobre o oceano profundo, na altura, mesmo no domínio da investigação científica. Recordo, sobretudo, o sentimento de surpresa que me causou a sua utopia sobre o “povoamento tridimensional dos oceanos”.
A razão destas reflexões e a evocação do professor Mário Ruivo, passados tantos anos, surgiu da notícia que li sobre as mudanças profundas que se anunciam no DOP, nomeadamente da extinção do IMAR.
Temos consciência da importância atual da investigação científica, no que diz respeito aos assuntos do mar, à sustentabilidade dos oceanos e ao desenvolvimento das tecnologias marinhas.
Temos consciência que vivenciamos hoje uma crise ecológica sem precedentes e os desafios que se colocam à ciência são cada vez maiores: a gestão sustentável dos recursos oceânicos; a poluição e formas de a combater, o gravíssimo problema dos plásticos que contaminam os oceanos e a vida, a nível global e local; as alterações climáticas, a constatação de que o desenvolvimento e o bem-estar não estão necessariamente associados ao crescimento económico.
Esta tomada de consciência exige-nos um novo olhar sobre os problemas globais e os problemas locais e evidencia a necessidade de se encontrarem novos modelos de desenvolvimento, isto é, um novo paradigma, também de sustentabilidade social. Deve-se entender paradigma como um esquema de compreensão e explicação de certos aspetos da realidade e do conjunto de teorias, ideias, crenças, valores e técnicas, partilhados por membros da comunidade, o qual define o modo de fazer ciência, um modo de viver, ser, agir, sentir e pensar.

Se o modelo de organização e a forma de fazer ciência que prevalece na Universidade dos Açores, a nível local, já não serve, dever-se-á discutir entre todos os membros da comunidade científica, a razão pelo qual já não se ajusta às necessidades deste tempo e procurar vias alternativas. Uma coisa é certa: a investigação sobre os assuntos do mar é cada vez mais necessária e atual. Outra coisa é igualmente certa: o DOP representa um pólo de desenvolvimento marcante para esta ilha, não só no campo científico, mas sociocultural. Convém pensar seriamente nisto!

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