Confiar na “carne fraca”?

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Na passada semana integrei uma delegação da Comissão de Agricultura do Parlamento Europeu que se deslocou ao Brasil para aferir como está a funcionar a cadeia de distribuição alimentar da carne de bovino brasileira. Uma missão parlamentar justificada pelos problemas detectados na União com a qualidade da carne importada daquele país (de que o processo “carne fraca” assume a expressão mais mediática) bem como pelo acelerar das negociações com os países do MERCOSUL, com vista à celebração de um acordo comercial.
Como em qualquer missão externa, inteirámo-nos da versão do interlocutor. Obviamente esperava que o cenário apresentado pelas autoridades, produtores e industriais brasileiros fosse amenizado, mas foi tão coordenado que levantou suspeitas adicionais. Em todas as visitas efectuadas, que integraram o Ministério da Agricultura, autoridades sanitárias, reuniões com o Governador, Senadores e Deputados de Mato Grosso (maior Estado exportador agrícola), produtores agrícolas e seus representantes, indústria de abate e exportação e visitas a fazendas, a mensagem foi sempre a mesma. Os Brasileiros sabem bem o que nos preocupa e em todo o lado foram abordadas e valoradas as questões da sustentabilidade ambiental, do bem-estar animal, da integração dos povos indígenas e do respeito pelos direitos sociais, e minoradas as relativas ao uso de organismos geneticamente modificados, de herbicidas e pesticidas. Foi-nos dada nota das iniciativas de cumprimento dos requisitos europeus e apresentado um cenário tão positivo quanto aos controlos de qualidade da carne, como se todos os problemas tivessem sido pontuais e pertencentes ao passado. Na minha apreciação, a análise pela positiva foi tão reforçada que alimentou as minhas dúvidas. Tivesse a abordagem sido mais cautelosa, com o reconhecimento dos problemas existentes, e a explanação das iniciativas da sua resolução pelas autoridades, e teria sido mais eficaz.
Contudo, o grau de coordenação e de persistência na abordagem destes assuntos não deixa de ser sintomático do efectivo interesse das autoridades brasileiras na exportação de carne para a Europa. Sendo esta uma questão que ultrapassa as negociações do MERCOSUL, que constatei não constituir uma prioridade para os Brasileiros, a capacidade de exportação do Brasil para outros países, que não têm capacidade ou interesse em investir em controlos sanitários e confiam no critério europeu como garantia de qualidade, depende da Europa admitir ou não a importação da carne brasileira. Assim, as decisões que tomamos na União Europeia têm um impacto muito mais alargado do que neste nosso Continente, o que justifica o acrescido interesse brasileiro na habilitação para a exportação para a Europa.
Muito embora tenha concluído que não existem, de momento, garantias de que todos os requisitos europeus são cumpridos, nomeadamente no que respeita à rastreabilidade da carne, não duvido da capacidade e interesse do Governo brasileiro em ultrapassar este diferendo. Note-se que o agro-negócio representa, directa e indirectamente, 1/3 da economia brasileira. Ademais, até os grandes exportadores já se aperceberam das vantagens de assumirem o total controlo do circuito da carne que exportam, o que não sucede de momento, e já estão a desenvolver estratégias de rastreabilidade exclusiva da carne que produzem, de forma a permitir que o consumidor Europeu possa vir a ter pleno conhecimento do processo que conduziu a carne que consome do “prado ao prato”.
Na avaliação que apresentarei em Bruxelas concluirei que temos de persistir na pressão e controlo da qualidade da carne de bovino brasileira, dando nota das falhas de rastreabilidade não admissíveis pela União Europeia, mas não duvido que este não seja um problema resolúvel a médio prazo, não obstante os nossos controlos de qualidade não devam ser descontinuados. 

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