Com a “Revolução dos Cravos” – que este ano celebrou 40 anos – foi restituída em Portugal a liberdade e instituída a democracia. O novo regime democrático teve um início um pouco vacilante e sinuoso, mas com o decorrer do tempo foi-se afirmando e consolidando.
Depois do entusiasmo, da embriaguez e de alguns excessos próprios da mudança de regime e da liberdade de expressão, a democracia foi amadurecendo e, quarenta anos depois, está enraizada e, apesar de alguns altos e baixos, próprios de qualquer regime livre, tem a simpatia, o respeito e a adesão da grande maioria dos portugueses.
Graças ao regime democrático temos eleições livres, órgãos institucionais na república e a autonomia política e administrativa nos Açores e na Madeira. O Poder Local também se democratizou e adquiriu autonomia territorial, administrativa e financeira.
Mas, com o decorrer do tempo, o nosso regime democrático foi perdendo alguma da sua pureza, tendo gerado algumas desilusões, criado novas elites e novos excluídos, pondo em causa muitas vezes o que de melhor tem a Democracia e o que de mais nobre tem o exercício da Politica.
Hoje, verifica-se que em muitos partidos e atores políticos, a grande maioria se move menos por questões ideológicas e de princípio e muito mais por interesse eleitoral e populismo. Deixou-se de valorizar a qualidade, a seriedade e a competência para se premiar o acessório, a imagem e a simpatia. Muitos dos atuais dirigentes e responsáveis políticos, tanto nos governos como nas autarquias, não têm referências nem pensamento ideológico e movem-se apenas enquadrados em preocupações mediáticas, de imagem, na quase única ânsia de adquirir ou de se manter no poder.
A subversão dos valores e a ausência de princípios e de conteúdo trouxe ao de cima práticas condenáveis como o exibicionismo, o culto da personalidade, a arrogância, a prepotência, os abusos de poder, a falta de respeito pelas oposições. Aqueles que hoje escapam a este retrato são as exceções que confirmam a regra!
É comum ouvir-se dizer – vezes de mais para a boa saúde do regime democrático! – que a grande maioria dos políticos está na política para se servir e não para servir.
Entre nós também é assim: se há políticos sérios e credíveis, com pensamento e opinião própria e que estão ao serviço dos seus concidadãos, outros existem que são maus exemplos da forma de estar na política. E, lamentavelmente, são sempre os piores exemplos que mais sobressaem mesmo a nível autárquico, contagiando a boa reputação de todos. Numa terra pequena como a nossa, todos vemos os maus exemplos, desde o uso sistemático das viaturas oficiais para qualquer serviço, às vezes mesmo particular, até à falta de participação ativa na gestão dos órgãos para que se foi eleito, sem utilizar a figura legal da sua suspensão temporária ou da renuncia ao cargo, mas comparecendo regularmente para receber a renumeração a que tem direito na presunção de que estará a desempenhar efetivamente o seu cargo.
A democracia cultiva-se, pratica-se e alimenta-se no respeito pelos outros, pelas instituições, com atitudes nobres e transparentes; caso contrário, ela definha, apodrece e perde as suas reais virtudes.
A democracia é um bem adquirido, mesmo com imperfeições, que tem de ser respeitado e permanentemente fortalecido para o bem coletivo e para a sua própria credibilidade.
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