E não podia ser assim, nem devia ser

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Esta semana regressámos às ações de desgaste do Governo da República, explorando reais fragilidades de que padece. Algumas destas sucessivas investidas que colocam a descoberto as vulnerabilidades de membros do governo são lamentavelmente justificadas, tendo por isso resultado em demissões, renomeações, tomadas de posse, num processo que se repete.

E não podia ser assim, nem devia assim ser.

Desta vez, com mais forte ordem de razões, não podia ser assim porque temos um governo renovado, não tanto pelos novos nomes indigitados mas principalmente pela reestruturação da sua orgânica interna e dos equilíbrios necessários, pelo reavivar de sensibilidades e de preocupações e ainda pela assunção de orientações antes apenas projetadas. Os habituais tranquilos meses de verão revestiriam este Governo de alguma consistência fortalecendo-o para o que deveria ser o primeiro debate duro, o do Orçamento de Estado. E Portugal bem precisa de um Governo sólido, estável, credível, tanto interna como externamente. Este era o projeto do presidente Cavaco Silva, partilhado por 77,1% dos portugueses, de acordo com a última estatística sobre a iniciativa presidencial divulgada esta semana.

Eis, pois, porque não devia assim ser. Se os partidos políticos tivessem alcançado um compromisso de salvação nacional, quando a oportunidade e os incentivos lhes foram dados pelo presidente da República, o cenário presente seria outro. O acordo sobre as grandes orientações de intervenção política, ao nível das finanças, economia e sociedade, entre os três partidos que se comprometeram perante a troika traria ao país: rumos políticos de médio prazo estáveis, independentes dos titulares das pastas ou de resultados eleitorais, indispensáveis para a programação de investimentos públicos e privados; confiança ímpar junto dos nossos credores, mercados e demais instituições internacionais, indispensável para atrair o investimento estrangeiro; consequentemente, criação de emprego e produção de riqueza, resultantes em tranquilidade e bem-estar social e em dinamismo económico.

Escrito aqui de forma breve e simples, este era o cenário realista que se estaria já a começar a desenrolar. O presidente, perante o fracasso das negociações, bem disse que só o compromisso de salvação nacional afastaria a sombra de sermos ingovernáveis e que a maioria dos países europeus de média dimensão tem esta estabilidade política garantida. Com efeito, 23 dos 28 Estados-membros são governados por coligações e a síndrome do fracasso paira sobretudo nos países do sul e, muito em particular, sobre Portugal em que nenhuma coligação chegou ao fim do seu mandato.

Não precisava de ser assim. Bastava que os partidos políticos e os seus senadores abandonassem a luta incondicional pelo poder e a mesquinhez da perpetuação do seu prestígio, finalmente cedendo aos interesses superiores do país e ao bem-estar dos cidadãos. Ainda não foi desta. O repto do presidente terá chegado prematuramente.

 

 

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